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15/12/2010

Morte na zona, danação eterna e indulgência papal… no interior do Piauí nos anos 50

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Um conto – ou talvez crônica – de autoria de Sidarta
Extraído no blog A Poção de Panoramix

Há uma região no estado do Piauí, na fronteira com o Maranhão, conhecida como “caminho do céu”, pois quase todas as localidades na estrada principal possuem nomes de santos católicos.

A última localidade nessa estrada poderia ter qualquer nome, mas achei mais apropriado chamá-la de “Anus Mundi”, uma vez que parece ser isso mesmo e não me lembro, nem mais achei no Google Earth  o nome real do famoso lugar.

Nos anos 1940, saiu de Anus Mundi para ir estudar em Teresina um rapaz de futuro promissor, não tão baixinho, de cabeça tão pequena e sem pescoço como a maioria dos seus conterrâneos, e também dotado de uma boa voz (era locutor esportivo e torcia invariavelmente pelo Anus Mundi Futebol Clube – AMFC do Piauí).

Em Teresina, estudou direito e, nos anos 1950, conseguiu publicar um artigo em um jornal com uma proposta de tese sobre uma questão polêmica: atirar em alguém pelas costas, sem a vítima perceber quem estava atirando, era um crime maior ou menor do que atirar de frente?

O caso é que matava-se e morria-se muito de bala em Anus Mundi e redondezas por aqueles anos e, assim, a tese podia ter interesse prático!

Um advogado experiente do Ceará, aproveitou-se da discussão e passou a insinuar que se o criminoso conseguisse pegar a vítima olhando para um espelho, essa não poderia alegar que o tiro foi dado pelas costas (se escapasse do tiro) pois, para a vítima, ela percebeu o tiro como que vindo de frente pelo espelho.

Os advogados estavam tomando consciência das vantagens de conhecer um pouco da teoria da relatividade de Einstein, além do arsenal comum de lógica elementar.

A tese ganhou discussão e o nobre, jovem e promissor advogado conseguiu uma bolsa de estudos para fazer um estágio na Itália, onde conheceu o papa de Roma e também aproveitou a viagem, e parte do dinheiro economizado da bolsa, e comprou do Vaticano um certificado de indulgência, que supostamente lhe perdoava automaticamente alguns tipos de pecados, sem ter que  os confessar a um padreco qualquer.

Dentre os pecados incluídos no certificado (e aí eu desconfio que houve falcatrua, pois só era mostrada uma cópia heliográfica do certificado… o original o proprietário dizia que o mantinha em um cofre secreto), estava a dispensa da danação eterna se o proprietário do tal certificado emitido pelo Vaticano de Roma morresse, por exemplo, de repente… na zona.

Já no fim dos anos 1950, o bispo da diocese que englobava a localidade de Anus Mundi anunciou uma visita pastoral, um evento de importância monumental para a comunidade anusmundense.
Não há como descrever os preparativos dos moradores para a chegada do bispo, e até pessoas que já tinham deixado Anus Mundi para ir morar em Fortaleza, em São Luis e em Teresina (diziam que havia anusmundense até em São Paulo) vieram para prestigiar a visita do bispo.

Dentre os anusmundenses notáveis, veio o brilhante advogado que foi estudar em Teresina nos anos 1940 (já lidava em Teresina com uma bem conceituada banca), o proprietário da indulgencia papal.

Para não esticar muito a estória, vou rápido aos finalmente.

Na véspera da chegada do bispo, um vereador local muito querido teve o azar de morrer na zona…. e a notícia logo chegou aos ouvidos do bispo, assim que colocou os pés em Anus Mundi.

A pena para a alma do querido e azarado vereador era excomunhão seguida de danação eterna, não havia dúvidas.

Foi aí que o brilhante advogado anusmundense, o criador da idéia que gerou depois a tese da relatividade do caminho da bala diante de um espelho, resolveu oferecer alugar (vender? só por uma fortuna incomensurável) o seu papel de indulgência papal “até para morte na zona”, para que o documento fosse recopiado com o nome do recém falecido político, e apresentado ao bispo para que se conseguisse o perdão para a alma do querido vereador “Zé das Nêgas”.

Iniciada a coleta de donativos para a aquisição “da cópia da cópia” do documento papal, acertou-se com o bispo que “Zé das Negas” não iria para o inferno, mas que a igreja ficaria com todo o dinheiro coletado para alugar e fazer uma cópia do certificado de indulgência para “morte na zona”.

Foi a única vez que eu soube que um advogado esperto não conseguiu fechar um negócio com um cliente “realmente em desespero”; o advogado chefe da banca do concorrente era simplesmente um delegado oficial comissionado de Deus na terra.

24/07/2010

O Mendigo Maltrapilho da Rua do Mercado


CHOVIA. A rua, deserta e fria, não estava convidativa. Sair era uma provocação ao bom senso. Em verdade, não chovia: gotejavam poucos pingos de umidade repulsiva. Trajei-me apropriadamente como se deve trajar um filósofo experimental: ao modo da ocasião. Enfastiado da ausência de perigo e do conforto de meu aquecido lar, vesti-me ao tom do clima e parti de minha caverna para ter com os outros.

Na rua poucas almas caminhavam. Menos paravam recostadas em postes ou árvores: cálidas de fungos úmidos.

O pedaço de rua, que, aqui, convém-nos saber: asfaltada, com velhos sobrados reformados, postes como pilares de fiações caóticas, canaletas de meio-fio embalsamadas por água e lodo, duas árvores na calçada mal conservada, separadas uma da outra dez metros – os dez metros que serão palco de nossa estória.

Nada nos custa gastar mais algumas linhas na descrição de nossos dez metros de rua e calçada: olhando na direção norte-sul: ao lado direito vêem-se seis sobrados. O primeiro deles, uma pequena venda, com fachada em azulejo português envelhecido; o segundo, em péssimo estado de conservação, cor de verde-nojento: em sua parte baixa habitava um lodo já vivido e caduco, porém não tão decrépito quanto o restante da fachada deste repugnoso sobrado.

Após este, outro sobrado cor-de-rosa murcha: duas janelas e uma imensa porta de madeira (a partir da qual julgava-se que ali deveria viver um gigante!...). Dali até a segunda árvore, mais três sobrados: um azul, outro rosa e o terceiro e sexto e último de nosso cenário, amarelo recém pintado.

Conforme o céu foi clareando, as pessoas foram-se atirando à rua; a umidade, reduzindo pouco a pouco. Passos e vozes movimentavam-se no ar e na calçada turva de acontecimentos.

No pé da árvore em frente à venda, sentou-se um mendigo maltrapilho fumando um filtro de cigarro.

Na venda, homens conversavam sobre o ocaso da puta da esquina, degolada por um cliente desconhecido. Tal conversa era atravessada pela rouca voz do mendigo maltrapilho – que trabalhava e pedia cigarros nos seus minutos de folga.

Me dá um cigarro!” – Falava penosamente, estas que pareciam ser as únicas palavras conhecidas pelo pedinte. Toda vez que soava esta voz um cachorro sarnento deitado tranqüilamente ao lado dele levantava as orelhas, num gesto de cumplicidade.

Do lado esquerdo da rua, estendia-se toda a parte frontal de um mercado, cuja fachada, cor de vermelho-velho-alaranjado, abrigava diversas lojinhas.

Ao passo que avançavam as horas, mais transeuntes saíam às ruas: mais demanda para o mendigo-maltrapilho... Que fumava e prestava seus serviços de Demiurgo-do-perdão, arauto da caridade piedosa.

Vá lá! uma moedinha para o mendigo-maltrapilho ser um fio de indulgência!

Aqui se faz, a tu se paga!

Passavam neste instante seis humanistas pela frente da venda. Sentindo compaixão daquele ser recostado ao pé da árvore, quatro deles se abaixaram para ter com o mendigo:

– “Estás bem, amigo?” Disse um deles, repousando sua mão direita sobre o ombro do mendigo-maltrapilho, que fumava.

– “...!”. Respondeu o mendigo, atirando-lhe um olhar oblíquo, dando o último trago em seu filtro de cigarro e o atirando por cima do braço do humanista pousado sobre seu ombro, em um gesto que afastou assaz a mão do homem.

– “Estamos aqui para lhe ajudar.” Argumentou o segundo.

– “Me dá um cigarro!” Disse-lhe, olhando raso, rápido e sincero, olho no olho, como quem cativa a permanência do outro com a discrição própria de um ser refinado.

Os outros dois humanistas ficaram em pé, alertando aos transeuntes o absurdo de haver um homem naquelas condições, em pleno século XXI.

Da venda, eu, de soslaio, pesquei alguns trechos do discurso dos dois humanistas que estavam em pé: “Vejam como este homem sofre! Isto é fruto do capitalismo!” e, “O sistema corrói a dignidade humana!” ou, ainda, “Temos que destruir o... e implantar uma sociedade...!

Perdoe-me o leitor pela falta de empenho em transcrever todo o discurso; confesso que a conversa ao lado sobre a degola da puta da esquina estava bem mais interessante.

Aos poucos, a situação em frente à venda foi ganhando proporção intrigante; a ponto de tornar-se mais interessante do que o papo sobre o destino da puta.

Mais e mais pessoas se juntavam aos humanistas em redor do mendigo-maltrapilho. O mendigo, sentado, nada falava, apenas fumava, agradecia algumas indulgências com um breve movimento de cabeça ou piscar de olhos. De quando em quando se ouvia sua voz rouca emitir um diligente “Me dá um cigarro!”.

Pessoas foram se sentando, solidárias ao estado miserável no qual se encontrava o mendigo-maltrapilho. Todos atentos e cegos ao discurso dos humanistas, solidarizavam-se com o estado de miséria surda de toda a situação.

Na esquina, um caminhão acabara de estacionar. O mendigo olhou-o largamente... de tal forma que me pareceu ver sua alma se ausentando do lugar onde se achava seu corpo e indo ter com o caminhão...

Gozando de status elevado, o mendigo-maltrapilho apenas abria a boca e as pessoas em volta lutavam para ver quem conseguiria primeiro lhe meter um cigarro entre os dentes, e outros mais se digladiavam para acendê-lo. Quase sempre, o primeiro humanista conseguia, por estar em posição privilegiada... O que foi, aos poucos, despertando inveja nos demais presentes.

Em poucos minutos a calçada estava lotada de gente piedosa, vinda de todas as partes (até sotaque americano pude identificar!). Todos embriagados de compaixão pelo mendigo-maltrapilho e pelas mazelas do mundo, multiplicavam a dor – supostamente – existenciada pelo silencioso e sofrível mendigo, que pedia cigarros. Até eu tentei (sem sucesso) conceder um cigarro a ele.

Algumas velhinhas choravam, crianças assistiam com olhos esbugalhados de assombro e estranhamento àquele espetáculo inédito na rua. Os homens gritavam enlouquecidos contra o mundo; ouviam-se preces em voz baixa, clamando a Deus que acabasse com aquele sofrimento coletivo...

Uma leve chuva começou a cair como lágrimas de um deus sensivelmente humano e piedoso. De leve, a chuva engrossou em poucos segundos. O mendigo-maltrapilho ergueu-se. As pessoas ao redor se calaram, entreolhando-se interrogativamente como quem espera uma ação – esperavam talvez algum discurso que anunciasse uma fatalidade metafísica e transcendental ?

Um gesto de revolta imanente e revolucionário? Uma convocação para a luta? Mas, para a luta de quem?

Com olhar profético e solene o mendigo disse a todos que ali se achavam:

Alguém me dá um cigarro!

E se foi afastando a passos lentos, ultrapassando sobrado a sobrado, até recostar-se sozinho, no pé da outra árvore, dez metros ao sul, aonde contou suas moedas e acendeu seu cigarro. Ergueu a vista e observou a multidão piedosa e intrigada ainda em lágrimas mudas, e viu o cão sarnento vindo em sua direção.

Na esquina, o caminhão ligara seu motor e partiu elegante e soberbo em um movimento ligeiro e preciso diluindo aos poucos todo o cenário e ganhando velocidade rapidamente derrapou na umidade divina da rua subindo a calçada e trucidando 90% daqueles que ali se achavam começando pelos humanistas, depois as velhas, os homens e as mulheres.

As crianças, semelhantes a rodas girando sobre si mesmas, em gestos habilidosos e astutos, salvaram-se para um novo começar.

O mendigo-já-não-tão-maltrapilho (quando comparado àqueles corpos mutilados) parecia divertir-se como nenhum homem jamais se divertira antes! Desde que há homem na Terra - e há tão pouco tempo que existem homens na Terra!

O mendigo passara por entre os homens como por entre os animais...
Assistiu a tudo dez metros ao longe. Dei as costas para o filósofo tentador que eu experimentara e retornei para o minha segura e aquecida caverna cor-de-rosa murcha.

23/11/2009

Da paixão alheia

"- Zézinho, tudo é tão belo com você! As estrelas, furtacor, são como planetas mil pra sermos eternos! E eu te amo tanto, meu amor!..." Acabou a energia. A TV desligou e José ficou no escuro. Resignado, resolveu mexer-se na divã-poltrona, após cerca de seis horas e 56 segundos. Suas pernas já dormentes relutaram em obedecer ao pensamento de José, que desistiu do movimento e continuou sentado no divã-poltrona e escuro fazia quando voltou a luz novamente. "- Oh! Mariazinha, é tão bom te ter só minha!" ... , José agora mudou de canal. Dessa vez a TV mostrava uma séria reportagem sobre atos do governo, de viés econômico misturado com fenômenos naturais, como "tempestades", "abalos", "céu nublado do mercado", e mais alguns substantivos que José já nem sequer diferenciava-os mais; e mais ainda quando moveu as pernas já não muito dormentes de seu divã-poltrona para levantar-se um pouco depois daqueles mais de seis horas sentado, como que afundado, no divã-poltrona. Ele levantou e foi-se à cozinha apanhar um copo com água. José esqueceu-se do copo d'água e preparou-se um cafezinho. Como ele gostava... Com bastante açúcar... - escondido, já que José sabia que os outros sabiam de sua propensão ao diabetes.

Justapostas agruras

A tarde findava sua queda, e o dia se faria noite em breve. Também Ícaro caía, em taciturnas lágrimas, afundando no sofá.

No silêncio de um dos becos do cais, um pobre cego defecava, às escuras, pronunciando suas agruras pra ninguém.

No calor do acolchoado sofá, sob a luz do abajur, Ícaro aquecia seu pranto discreto. O motivo do seu choro era irrisório: apenas a humanidade.

04/10/2009

Omeleti - o vizinho interino

Entre um café e uma broa, trocava palavras com meu amigo Nabucão, que me contou uma história curiosa que anda acontecendo lá da Rua das Bananeiras, número 239. A casa, de paredes azul-bandeira e um alto muro amarelo-gema, não deixa ver com exatidão o que se passa em seu interior. Pela afobação de Nabucão, percebi que se tratava de algo que ele de fato não entendia direito.

Meu amigo balbuciava frases desconexas, das quais pude compreender apenas algumas. Dizia, por exemplo, que na casa de amarelo muro e paredes azuis não se via mais o seu proprietário há um bom tempo. Nabucão supunha com quase certeza, entre uma dentada na broa, um gole no café, um pigarro chuviscador de farinha de broa e a queixa pelo quase-fim de sua garrafa de conhaque, que o antigo morador havia sido expulso da sua casa por uma gangue de saqueadores do bairro de arrabalde.

A única dúvida de Nabucão parecia dizer respeito à condição do novo ocupante da residência. Meu amigo não sabia ao certo se classificava o sr. Omeleti como seu vizinho interino ou seu vizinho de fato. Daí surgiu o gravíssimo problema nas formas dispensadas por Nabucão ao se referir ao seu novo vizinho. Na dúvida, optava pela sinceridade e o chamava de Cara-de-Ovo – ou, simplesmente, Omeleti.

Leitor habitual de Bukowski e Pirandello, Nabucão parecia mais preocupado mesmo era em comprar outra garrafa de conhaque, pois que a sua já em breve findaria, e ele ainda não estava em teores suficientes que o legitimassem a colocar no pobre diabo do Copérnico os efeitos de sua impressão física de que a Terra era redonda, e realmente girava.

25/09/2009

Joca na lona

Na carroça de Joca o tempo não passa.
Escondido da vida, Joca bebe cachaça.
Parado ao largo, seu carro de lixo repousa
- Recicla os minutos que perder, Joca não ousa.

Para Joca, fortuna foi parar na bala
Solene (que acompanhou o gole) em sua cara.
E o mundo de Joca escorreu com o sangue e a cachaça
- Para alívio da dor que quase nunca passa.

22/09/2009

Na rua da Amargura

Há um bar na rua da Amargura.
Canta-se loas à dor, no bar da rua.
E como são sorrisos aqueles olhos de bocas tristes!

Certa vez, um ébrio madruguêro
Disse que antes do bar,
Na rua da Amargura tinha um galinheiro...

E volta e meia passava alguém que ficava.

Na casa de Amargô

Amargô morava com as irmãs Agrura, Feiura, Mistura e Belezura. Suas filhas Pintura e Caricatura eram prostitutas do antigo galinheiro da rua da Amargura. Até que um dia, seu pai, Pindura, abriu um bar.

21/09/2009

João o tinha


João da Silva se ia às pressas rumo à sua casa, que a hora já lhe dera nos limites há mais de hora. À espera do pão, e de João, esposa e filhos repousavam em frente à tevê. Às pressas, João pegou seu carro e foi-se para o lar incomodado a cada esquina por fregueses perguntando se ele tinha o disco novo do Saia de Fogo.

João o tinha.

Então perguntavam de quanto era o disco, e o pai dos meninos se atrasava mais uns minutinhos - e eram muitos os minutinhos a cada rua que passava... A novela já terminando na tevê de casa fazia a mulher de João ir-se afobando. Até que numa esquina qualquer acabaram-se os discos de Saia de Fogo, e João pode - pôde de sujo - seguir direto pra casa, onde sua mulher perguntaria, como todos os dias, entre os olhares apreensivos de seus filhos, se João vendera ou não o estoque completo da erva que plantavam no quintal dos fundos de sua casa.

João o tinha.

03/09/2009

De como se perder num dicionário

No princípio, era mister buscar mais uma cerveja.

- O que é mister?
- As caixas de som, são mister.
- Não. Pergunto o que é mister?
- Mister é isso. A caixa de som e a cerveja.
- Ai!, meus deuses! Quero saber o que significa a palavra "mister"!

Foi nesse momento que adentram-se os labiríntos profundos dos dicionários, pois era mister saber o que era "mister".

Mister:
Substantivo masculino

1. atividade profissional; ofício, profissão

Ex.: o alfaiate era o melhor no seu mister

2. estado ou condição do que necessita de (algo); necessidade, precisão, exigência.
- Mas como se pronuncia "mister"?
- Tu queres saber qual a ortoépia da palavra.
- E o que é ortoépia?
- ...
Ortoépia:
Substantivo feminino / Rubrica: gramática.
1. estudo tradicional e normativo que determina os caracteres fônicos, considerados cultos e relevantes, ou seja, e a boa pronúncia.
- Então... a ortoépia de mister, qual que é?
- É "é".
- É?
- É.
- Ah. Tá certo.

Entre olhos, surgiu a pergunta:
- Tu sabes o que significa a palavra infâmia?
- Vejamos...

Infâmia:
Substantivo feminino
1. perda da fama, do crédito, da honra; descrédito, desonra, ignomínia
2. o que fere a honra, o nome de alguém, de uma instituição, etecetera.
3. atitude infame, vergonhosa, vil
Ex.: Quantas infâmias são cometidas em nome da falsa moral?
4. dito contra a reputação ou a honra de (pessoa, instituição); calúnia
Ex.: Blasfemava, falava infâmias contra seus familiares.
5. estado, condição, caráter de (pessoa ou ação infame)
Ex.:
- Que palavra imensa José!
- Num é?
- É.
- Tem maiores. Tem maiores.
- Jura?
- Juro pelos deuses!
- Eu só não entendi o que sigfnifica "ignomínia"...
- Vejamos...
Ignomínia:
Substantivo feminino
1. grande desonra infligida por um julgamento público; degradação social; opróbrio
Ex.: O pobre homem se viu exposto à ignomínia.
2. caráter daquilo que degrada, humilha; ação, palavra que desonra, que envergonha
Ex.:
<é uma ignomínia como são tratadas as pessoas idosas neste país!>
- Humm. Mas, o que danado é "opróbrio"?
- Vamos ver...

Opróbrio:
Substantivo masculino

1. grande desonra pública; degradação social; ignomínia, vergonha, vexame

Ex.: Exposto ao opróbrio, o infeliz matou-se...

2. caráter daquilo que humilha, degrada; estado ou condição que revela alto grau de baixeza, torpeza; abjeção, degradação

Ex.: O opróbrio de uma condenação.
3. ação ou dito que desonra, avilta, revela falta de apreço ou consideração; afronta, desprezo
- É. Por onde foi que a gente começou mesmo?
- Na cerveja e no som.
- Não. Não. Começamos no mister.
- Dá no mesmo.
- É.
- Isso só depende do tempo a gente perdure nesse dicionário fantástico...
- Fantástico? Como assim?
- Fantástico assim, olha:
Fantástico:
Adjetivo e substantivo masculino

1. que ou aquilo que só existe na imaginação, na fantasia.

2. que tem caráter caprichoso, extravagante

Ex.: O espetáculo lançava na parede grandes sombras fantásticos

3. que é fora do comum; extraordinário, prodigioso

Ex.: Possuía um talento fantásticos.

4. que não tem nenhuma veracidade; falso, inventado

Ex.: Como suas alegações de defesa eram fantásticos, foi condenado

5. Rubrica: literatura. Diz-se de obras do gênero fantástico

Ex.: Só escrevia contos fantásticos.

02/07/2009

A Hora dos Palhaços

Tudo corria bem na pelada daquele domingão, e o time de vermelho ganhava do time de preto. O juiz, de branco, acabara de validar um gol duvidoso do time de vermelho. Mas ninguém discutia mais. O gol valeu e fim de conversa, dissera o juiz, imponente, de branco.

Quando o time de preto se preparava pra bater o meio de campo, uma multidão de palhaços começara a invadir o lugar do jogo. Misturaram-se aos jogadores, e o campo transformou-se numa turva multidão colorida.

Logo após a invasão de palhaços, viu-se chegar outra multidão de palhaços, mais coloridos ainda, trazendo consigo pedaços de engrenagens e estruturas desmontáveis, retiradas de grandes caminhões estacionados nos arrabaldes dali.

Os jogadores do time preto e do time vermelho já não se distinguiam do juiz de branco. Mesclaram-se de tal forma entre os palhaços que pouco se poderia diferenciar.

As engrenagens e estruturas foram rapidamente montadas. Enquanto isso, os jogadores do time vermelho e do time preto ficaram imóveis, assim como o juiz de branco, no meio daquela multidão de palhaços - apenas conseguiam mover um dos braços para coçar o nariz de quando em vez.

Apesar de olharem para o espetáculo, jogadores e juiz nada viam por baixo da grande lona azul que se estendia altiva aos soalhos de seus olhos.

Passados alguns dias, as estruturas foram desmontadas e os palhaços que entupiam o campo foram ordenadamente se retirando. Um a um, formaram uma disciplinada e grande fila indiana.

A forma de retirada causou forte impressão nos jogadores do time vermelho e do time preto, assim como no juiz de branco. Que se entreolharam - não sem certo assombro.

Melancólicos por alguns instantes, os dois times e o juiz pararam de especular sobre os motivos de o circo ter partido assim, tão de repente. O juiz deu por encerrado o jogo, pois não lembrava se o gol que havia validado era do time preto ou do time vermelho. Àquela altura do campeonato, isso pouco importava.

A bola - a mais resignada das esferas - já não tinha dono e foi largada no campo, onde repousou tranquilamente por longos dias, à revelia das voltas da esfera terrestre.

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* Telas da pintora paquistanesa Asma Ahmed Shikoh.

02/02/2009

Instalação infantil

Ontem fui questionado por um amigo sobre qual a obra de arte mais intrigante que eu já teria visto. Na hora, não soube responder direito. Citei um conto de Jorge Luís Borges, "Tlön, Uqbar, Orbius Tertius", do livro Ficções.

Pensando bem agora, reconciliado com minha memória, recordo-me de uma outra obra de arte ainda mais intrigante. Eu a vi há alguns anos atrás, quando estava visitando parentes na cidade de São Paulo. Não me lembro o nome do lugar, mas era uma pequena galeria de arte.

A obra era uma instalação. O título não me recordo também, mas era algo do tipo: "As crianças e o espaço." Fui ver a instalação à convite de uma amiga, artista plástica pouco famosa.

Não consigo descrever o assombro que tomou conta de mim quando me deparei com a instalação. Um misto de pavor, excitação e desinteresse. Curiosa sensação...

Mas, vamos à instalação.


A entrada da galeria era uma porta bastante discreta. Dentro, as luzes eram poucas, e vinham do chão. Passei por uma saleta de entrada, onde havia um livro de assinaturas. Exitei, depois assinei e entrei na sala principal.

A primeira imagem foi assustadora. Dezenas de crianças penduradas no teto e pregadas na parede. Umas choravam, gritando alto que queria ver suas mães; outras gostariam de ir ao banheiro.

O teto tinha um papel de parede que reproduzia as nuvens de algum céu qualquer.

Como estavam pregadas e penduradas, faziam suas necessidades ali mesmo. Todas estavam vestidas com roupas iguais, como fardas de uma escola.

Fui olhando o rosto daquelas crianças, umas rosadas, outras mais bronzeadas; algumas com um semblante de pavor, outras calmamente sorriam.

As da primeira fileira, estavam penduradas por um fino cabo de aço preso à cintura - como um lustre de lâmpadas - e pareciam se divertir com a aparente ausência de gravidade.

As da segunda fileira estavam amarradas pelos pés, e tinham um semblante mais apovorado que as da terceira fileira, que estavam penduradas pelos braços, e chacoalhavam as pernas, aparentemente irritadas com aquela situação.

As da quarta fileira, não me recordo bem, mas acho que estavam penduradas por um pé e uma mão - como se fizessem aquele passo de ginástica chamado "estrelinha". Suas faces eram de resignação, enfezadas como crianças abandonadas.

Elas todas estavam a cerca de 4 metros do chão.

Fui andando por baixo daquelas crianças até a última fileira, que deveria ser a décima segunda. Era, digamos, o "fundão" da sala. Essas do fundão não estavam penduradas, mas pregadas na parede do fundo. Umas de lado, outras de cabeça para baixo, outras de frente, braços e pernas abertas, como uma estrela.


Sorriam dos outros. Ou de si mesmas. Talvez sorrissem de mim - o certo é que sorriam, seja lá do que for, e olhavam para mim.

Bem, logo depois eu fui embora. Olhei meu nome assinado naquele livro. Sai pela mesma porta que entrei, acendi um cigarro e fui tentar ver um Van Gogh no Masp.

11/10/2008

A fome de dias depois

Aquele ser não tinha nome. Nem números. Ouvira certa vez um nome, que já lhe parecia, agora, algo estranho e irreconhecível. De um reconhecimento breve e distante, que não sabia identificar ao certo de onde provinha. Tudo lhe era estranho.

Comia restos quando restava algo nos tambores de plástico que repousavam gordos nos magros asfaltos. Dia a dia, mais menos restos lhe restava. Sobravam-lhe as faltas de resto, que devorava como se fossem belos pratos nobres. Não distinguia gostos, pois os deuses lhe subtraíram as faculdades do paladar.

Sua sorte é que lhe restavam as pernas (apesar de só possuir um braço e meio). Embora magras, serviam-lhes para seu único objetivo: andar em busca de restos de pedaços.

E assim passavam seus dias trôpegos.

Quando, porém, viu-se na metrópole dos desertos, ele já não encontrava nem pedaços de restos. Menos e menos tambores de restos lhe cruzavam o caminho. Sedento de fome (que lhe era o único motor de sua existência), ele caminhava.

E caminhava, caminhava...

Já não tinha resto com que se deleitar. Sobravam-lhe todas as faltas de pedaços. Na falta plena, passou a comer seus próprios produtos: as fezes.

Porém, a cada dia obrava menos. Passou, então, a armazenar os excedentes de sua produção. Estocava-os para comer sempre que sentisse fome. E comia embuído com muita dignidade aquela pasta marrom que acumulava em sacos plásticos envelhecidos pelo calor e pelo tempo.

No entanto, percebeu que a cada dia sua produção diminuía mais e mais. Lembrara-se da única vez que haviam lhe ensinado alguma coisa. Lembrava, ainda que vagamente, uma frase:

"Seus órgãos consomem seus alimentos."

Não sabia ao certo o que eram órgãos. Mas, sabia que essas coisas estavam dentro de seu corpo. Elaborou, entredentes, um plano, chegando à uma conclusão:

"Ou acabo com esses malditos órgãos, ou eles acabam com meus alimentos."

E, assim, detalhou seu plano riscando desenhos no chão das areias-de-seu-deserto.

Assim, iniciou seu plano, rasgando a barriga e retirando pedaços de carne (que sangravam muito). Fora juntando esses pedaços enquanto retirava outros mais. Ao fim do processo, estava tonto e com fome.

Recostou as carnes da barriga, e envolveu-as com um pano velho e sujo que havia preparado especialmente para aquela ocasião.

Ao fim, deitou para descansar um pouco. Minutos depois, acordou, e sentia muita fome. Vendo todas aquelas suculentas carnes que repousavam ainda quentes ao seu lado, devorou-as como nunca antes havia se deleitado...

No dia seguinte, percebeu que de fato sua massa fecal havia aumentado. Percebeu que seu idéia tinha sido genial, e dado mais do que certo.

Passou alguns dias sem andar, pois estava muito fraco. Mas, logo se sentiu revigorado - e obrando como nunca. Jamais tivera banquetes tão ricos.

Ele regressou de seu deserto, para ter com os outros seres. Sua aparência nunca fora das melhores. Agora, então, estava pior que nunca. Envelhecera rapidamente. No seu trajeto, retornando do seu deserto, não encontrara nenhum'alma viva - que dirá corpos...

Desfaleceu-se pouco a pouco, nas bordas de seu deserto. Avistara entre o sol e a sombra, um corpo de homem. Era semelhante a um componente de algum órgão do ministério, pois vestia farda, e estampava um brilhante crachá...

Tal homem, possesso que estava de piedade, resolveu dar cabo no sofrimento que supunha ser o daquele ser, aplicando-lhe golpes certeiros em sua cabeça, com um porrete de pau enorme - em nome de Deus.

Dias depois, estavam alguns outros seres a devorar aquele corpo-sem-órgãos.

19/07/2008

Telemarketing

- Alô? Ah... Tudo bom?
- ...
- É que eu quero cancelar esta linha de telefone.
– O nome do senhor? Seu número de telefone ? Identidade? CPF?
– Ãn... talvez... acho que...
– Qual o motivo da sua decisão?
– Ãn... talvez... acho que não tenho motivos.
- Sr., qual o motivo da sua decisão?
- Olha, moça, eu não tenho motivos.
- Isso não é um "motivo", Sr.!
- Eu sei, mas é que... A senhorita é casada? Filhos? Namorado?!
- Sr., isso não vem ao caso.
- Caso. Mas é que...
- Sr., qual o seu motivo?
- Eu não tenho motivos.
- Então, Sr., tenha uma boa tarde, seu telefone não poderá ser cancelado.
- Mas, senhorita, o telefone é meu e eu não o quero mais!
- Por qual motivo o Sr. não o quer mais?
- Não tenho motivo!
- Então, Sr., tenha uma boa tarde, seu telefone não poderá ser cancelado.
- Mas, que merda! Eu tenho um motivo pra você: minha vida é uma bosta.
- Sr., isso não é um motivo para cancelar seu telefone.
- Mas, o telefone é meu.
- Da nossa operadora, Sr.
- Ok, o telefone é dessa droga de operadora, mas o motivo é meu!
- Qual motivo, Sr.?
- A MINHA VIDA É UMA MERDA!!!
- Sr., isso não é um motivo para cancelar seu telefone.
- Certo, certo, a senhorita venceu. Vou lhe dar um bom motivo, ok?
- Aguardo ansiosamente.
- Eu não quero mais esse telefone. Pronto, esse é o motivo...
- Sr., esse motivo não está registrado em nosso sistema. Não será possível cancelar seu telefone.
- E, quais motivos estão no "nosso" sistema?
- Vejamos: viagem; descontentamento com serviços; mudança de operadora; perda de emprego...
- Isso! Isso! isso! tenho todos esses motivos!
- O Sr. não pode ter todos esses motivos. É preciso escolher um, apenas.
- Sério? Hum... Tudo bem, tudo bem! Deixa-me ver. Inclua um novo motivo no "nosso" sistema.
- Qual?
- Tráfico.
- Tráfico?
- Sim. Tráfico. A senhorita ouviu muito bem! Não se faça de sonsa...
- Mas, Sr., esse não é um motivo plausível. Não será possível incluí-lo em nosso sistema.
- E por qual motivo não será possível incluí-lo em "nosso" sistema?
- Sr., não há um motivo definido, mas... Simplesmente não é possível. O sistema não aceita esse motivo.
- E, por qual motivo?
- Não há um motivo.
- Está vendo, senhorita? Não há motivos.
- Ér... Sr., estou perdendo meu tempo...
- Seu tempo?
- Sim. Meu tempo.
- Quanto tempo você tem?
- Ér... Não sei.
- Está vendo? Não se perde coisas que não se sabe que tem.
- Mas, Sr., isso está me deixando confusa...
- É? Que ótimo, esse é o meu motivo.
- Qual motivo?
- Deixá-la confusa.
- Como assim?
- Como assim o quê?
- Como assim "Me deixar confusa"?
- Assim mesmo, ora!
- Assim, como?
- A senhorita tem um motivo?
- Para quê o Sr. quer um motivo?
- Ora essa! A senhorita quem me disse que eu precisava de um motivo!
- Sim. E, qual o seu motivo?
- Não tenho motivo.
- Mas, é preciso ter um.
- E se eu não tiver, como ficamos?
- Não ficamos.
- E, por que não ficamos?
- Sr., eu sou casada!
- Hum... que pena. Era o único motivo de eu estar aqui paquerando a senhorita. Tenha um bom dia!
- ...

28/04/2008

O Guardador de Verdades

Pega esse cretino! Venha cá, seu pilantra! Agora a gente vai te dar um corretivo e você vai aprender a se comportar direitinho!

O guarda agarrou XXX pela gola da camisa e derrubou ele no chão. Algemando suas mãos, arrastou-o até o camburão, que se encontrava parado com o motor já acionado, cerca de uns 15 metros à frente. Jogou-o bruscamente na mala do carro, batendo-a com força, e entrou pela porta traseira e mandou o outro policial que dirigia partir.

Circularam pela cidade durante 10 minutos. XXX suava frio e tremia. Não sabia o que lhe aguardava.

P7, pára o carro ali, entre os armazéns. Vamos mostrar pra esse imbecil o que é a Verdade!

Ok, C9. Respondeu P7.

Pararam o carro em uma rua escura, entre dois grandes galpões. Os três policiais desceram simultaneamente do carro. C9 abriu a mala, e ordenou que B4 tirasse XXX. B4, de pronto, atendeu a ordem de C9, que nesse momento falava em particular com P7.

B4, encosta o imbecil ali na parede. Disse C9.

Sim, Senhor! Acatou B4.

Saindo da conversa particular, C9 caminhou até o lugar em que XXX estava sentado, com as costas escoradas na parede do galpão, com a cabeça abaixada entre os joelhos. Ainda tremia, embora já não suasse tanto.

C9, então, chegou-se mais perto, abaixou-se e disse com voz serena e cínica:

Então, quer dizer que você é “Doutor”? Doutor de quê mesmo? De História? Com especialidade em olhos, não é mesmo?! Acho que depois de hoje, você vai ter muita estória pra contar...

C9 falou isso com um sorriso assombroso entre os seus grandes dentes, que mais pareciam compor a mandíbula de um cavalo.

Vejamos: o P7 estava me falando ali que você é especialista em História da Punição e da Vigilância... Técnico em olhos, digamos. Mudando de tom, prosseguiu. Eu não entendo como alguém pode ser isto!... Vejamos seus olhos... Levanta a cabeça, seu imbecil! Analisou durante alguns segundos os olhos esbugalhados de XXX. Hum... Olhos negros. Grandes. Misteriosos... E essa barba nojenta? Ao falar de sua barba, deu-lhe um tapa de leve em sua face esquerda. Você não deve se olhar muito no espelho... Levanta a cabeça, seu merda! Desta vez o tapa na face foi mais forte. Nós bem que poderíamos fazer uma micro cirurgia em seus olhos agora... O que você acha? Olhava-o, neste momento, com olhos do mal. Perfurá-los lentamente... B4, me traz aquela agulha que está na carro. Acabo de ter uma excelente idéia!

Sim, Senhor! Respondeu B4, trazendo-lhe logo em seguida um pequeno objeto brilhante, que de fato era uma agulha.

Puxando um isqueiro do bolso direito da farda, C9 acendeu-o e levou a agulha até à chama.

B4, segura aqui a cabeça do Doutor em Olhos. Vejamos se ele conhece a Verdade mesmo...

B4 segurou a cabeça de XXX, enquanto P7 abria um de seus olhos, puxando fortemente sua pálpebra pelos cílios. C9 apagou o isqueiro, e direcionou a agulha avermelhada para o olho de XXX. Mirando diretamente no centro do glóbulo ocular, C9 encostou a agulha quente no olho de XXX, embora sem chegar de fato a perfurar. Apenas tocando-o levemente. XXX soltou um grito apavorado, estridente e 'assonhombroso'.

De pronto, C9 puxou de volta a agulha, e enfiou-lhe uma cotovelada em cheio no maxilar de XXX, que caiu de lado, chorando de dor.

Isso é pra você aprender a não dar uma de dono da Verdade, seu imbecil!

Chutando-lhe a costela, C9 iniciou um espancamento impiedoso e brutal contra o corpo de XXX. Após alguns minutos de pancadas, C9 arrastou aquele corpo moído até à viatura, jogando-o novamente na mala, dando-lhe um último soco no rosto sangrento de XXX.

Vamos embora! Ordenou C9.

Circularam com o carro por mais 5 minutos, e pararam em cima de uma ponte deserta e escura, que ligava a cidade ao porto.

Vamos ver se ele sabe nadar... Disse C9.

Saíram do carro, C9 e B4. Este último abriu a mala, e C9, que era muito forte, entornou XXX de costas, tirou-lhe as algemas, e arrastou-o até a beira da ponte.

"Doutor", eu espero do fundo da alma queo Senhor saiba nadar... Falou C9 para XXX.

Nesse momento, C9 levantou-o, e ferozmente arremessou aquele corpo espancado ao rio, que passava lá em baixo, uns 7 metros. O corpo caiu na água.

C9 acendeu um cigarro e tragou profundamente... Em seguida, virou-se, já caminhando para a viatura e disse para os outros:

Que tal um café com brôa?

23/04/2008

O... e ... Vôo de Alice



QUANDO ÀS 2 HORAS, 14 minutos e 30 segundos da madrugada, a faustosa e flutuante Alice – alvo constante da inveja de infelizes donzelas que habitavam o Castelo Urb, transmutada que estava em muriçoca – voando entrou pela janela de Tuta, não rumou outro sentido senão seu ouvido... A cada bater de asas, a cada instante, via-o maior e a cada milímetro que se aproximava mais acelerado batia o seu nervoso e ardente coração... Ela desejava sussurrar ao seu ouvido, passar as mãos em seus ombros, sentir o calor de sua pele e abraçá-lo, beijá-lo, amá-lo!

No entanto, eis que Alice – que há pouco se encontrava na serenidade de sua Torre no Castelo Urb a pentear suas melífluas madeixas castanhas que escorriam, agora, por sobre a estranha agulha que lhe culminava a face, ainda a se olhou... olhos nos olhos, num micronésimo de segundo que teve consigo mesma (e que logo voltaria a ter), quando de repente olhou-se novamente no espelho e deu-se por si como uma mosquita horrenda!. aterrorizou-se com aquele monstruoso reflexo que vislumbrou e saiu do Castelo ensandecida sem nem saber como nem porque, só voou... – lembra-se num estalar de dedos da terrível imagem produzida no espelho por sua nova forma. Ela, que no instante mágico lembra-se muriçoca, desvia o rumo com medo de assustar o seu grande amor.

Seguindo, então, o lado errado ou certo do vôo, passa em frente aos distraídos olhos de Tuta – Alice, que vivia a natureza das muriçocas e entrara por acaso, com outras tantas, na primeira janela que encontrou quando uma tempestade começara a despencar do céu, não esperava vê-lo naquele momento tão singular e ultra-humano que experimentava; quando o viu, a paixão domou-a com suas turbas apocalípticas e lha verteu em direção ao ouvido esquerdo de seu atemporal amor... Entretanto, resignando-se repentinamente, temerosa de chocar o homem que um dia a faria a mulher (ou mosquita?) mais feliz do mundo, mudou a direção do vôo – que automaticamente largou seu violão e todos os planos que lhe permeavam a mente às 2 horas 14 minutos e 32 segundos e bateu palma para Alice que caiu morta.

O homem que pedia

ANDANDO PELA RUA, Matos procurava emprego. Arrumado à boa aparência, ele pegava um ônibus e se ia para o calor do Centro da Cidade achar um serviço – o qual, não sabia. Mas ia. O que aparecesse pegaria. Todos os dias, Matos ia. E, todos os dias, passando pela Praça do Derby, cruzava o pedágio para adentrar nas ruas sagradas do Centro. Pagava seu Sagrado compulsório passaporte de entrada (sem saber por quê...) e se ia Matos. Passara-se quase duas semanas e não arrumara emprego. Arranjou um serviço de uma tarde certa vez, mas só lhe deu trabalho – lucro nenhum. O que piorava sua situação era a repetição cotidiana do rosto do cidadão fardado que trabalhava no Pedágio do Derby (do qual tanto comentavam na sua cidade!) olhando imperativamente para Matos, que sacava a carteira e lhe pagava os três reais de entrada, e, ia procurar trabalho andando. No penúltimo dia para completar duas semanas que se jogava ao Centro da Cidade, Matos, no momento em que entregava o dinheiro do pedágio nas mãos do cidadão fardado, puxou de volta sua mão para si, com o dinheiro em punho, e perguntou-lhe: “Haveria por algum acaso algum trabalho para mim?”, ao que lhe respondeu o cidadão fardado: “Por acaso me perguntaste isto antes? Este emprego é seu desde o primeiro dia. Eu não havia lhe dito?” E, entregando-lhe em mãos uma farda semelhante à sua, apenas mais envelhecida, apontou-lhe uma cabine igual à sua ao longe à direita, dizendo-lhe: “Eis a tua cabine ao largo, onde assumirás teu posto de Pedinte-em-experiência do Estado Público. Há muito serviço para nós. Há também um abrigo, caso precises, com sopa rala à noite e bolacha no café. Tenha um bom dia.”