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25/10/2011

Greve de jornalistas, radialistas e gráficos de PE



Tá.
Eu sei.
Essa greve foi em 1990 - não foi decretada hoje.

Mas, né?: recordar é viver, e uma trolladinha histórica não mal faz a ninguém...

Afinal, tem amigo jornalista que nem sequer lembra que tem direito de fazer greve.

13/10/2010

Algo de Fela Kuti



Fela Kuti é uma figura excepcional que fundou, na década de 1970, uma república autônoma dentro da Nigéria. Escrevi brevemente sobre ele há tempos no blog acerto de contas. Ultimamente, tenho escutado muito suas músicas, e coloco algumas aqui. No velho post do Acerto, escrevi o seguinte:

Conheci a música e a história de Fela Kuti há uns 3 anos, através de um amigo que me mostrou um disco e contou algumas histórias. O som é muito bom, contagiante. Além disso, Fela foi uma grande figura.

Nascido no ano de 1938, em uma família de classe média da Nigéria, foi estudar medicina em Londres, em 1958, mas seu destino era mesmo a música. Estudou no Trinity College of Music.

Sua história de vida é repleta de passagens insólitas.

No início da década de 1970, quando retornou à Nigéria, Fela fundou a chamada República Kalakuta – que era um estúdio e casa para as pessoas ligadas à sua banda (Afrika 70) e, posteriormente, ele proclamou independência à comuna.

Consta que certa vez, em 1974, a polícia ‘plantou’ um cigarrinho de maconha pra prendê-lo (ele era odiado pelo governo), mas ele acabou o comendo, pra livrar-se do flagrante. A polícia o levou mesmo assim, sob custódia, para fazer um exame de fezes e provar que havia maconha em posse de Fela.

Mas ele conseguiu a ajuda de outros detentos, e pegou um punhado de cocô emprestado e o entregou à polícia. Daí ele conseguiu ser libertado. Foi então que nasceu Expensive Shit (“merda cara”).

Mas a insolitude de sua vida não se resume a este caso.

O lançamento de Zombie (que era uma metáfora para designar criticamente os soldados das forças armadas da Nigéria) provocou muito tumulto. O sucesso do álbum enfureceu o governo e resultou num ataque feroz à República. Em 1978, Fela casou-se com 27 mulheres (muitas ligadas à banda dele, como dançarinas ou vocalistas). O evento marcava o aniversário do ataque à República Kalakuta.

Fela ainda se candidatou à presidência, em 1979, mas sua candidatura foi recusada.

A biografia do camarada é interessantíssima, marcada por uma politização que buscava lutar contra preconceitos, atingir liberdades individuais e difundir a consciência dos direitos do povo negro no mundo.

Sua música também é muito interessante. Mesclando vários ritmos como o Funk, o Jazz e cânticos africanos, criou uma Black Music original para expressar suas ideias e seus sentimentos.

Confiram mais alguns vídeos:

Zombie


Water no get enemy


Expensive Shit

04/07/2010

A Roberto Piva, um Elegíaco na forma

"Fernando, vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã, enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado."

O verso acima, do poema Ode a Fernando Pessoa, de Roberto Piva - tenho essa impressão -, deve ser um dos únicos (senão o único) que trago gravado na cabeça - decorado, como se diz. É belo por muitas paralaxes, prismas, mas é belo principalmente pela simplicidade da imagem. Pela beleza da evocação.

Há um certo tempo, e por uma certa duração que já não dura mais, também memorizara os versos inteiros de Momento num Café, de Bandeira.

Li no site do Estadão (mas quem primeiro noticiou foi a Folha) que falecera, ontem, aos 72 anos, o poeta Roberto Piva. Nada de dolorificar-me, ausente de falseadas "dores" estou, e seria pantomima dizer coisas deste gênero das dolorências. A notícia não me causou choque. Piva já vinha adoentado há algum tempo, e estava internado no Incor desde maio.

Conheci alguns de seus versos depois de trocar ideias com Renata D'Elia, há uns anos. D'Elia escreveu sobre Piva no seu blog, Magic on Sundays, depois de trabalhar o tema da poesia marginal na São Paulo da década de 1960. Recomendo a leitura do post da D'Elia (aqui), para quem desejar ir a mais nas coisas do Piva.

Falei com a ela agora há pouco, pela internet (que pessoalmente não a conheço - ela, que deve a si mesma uma visita ao Recife...) e ela me disse que acabara de chegar do velório, onde fora cremado o poeta, seu amigo - e, em suas palavras, "seu último herói magnético".

Contrariando o habitual, ela pareceu-me lacônica. Imagino-a ocupada para falar mais, porém talvez esteja um tanto abatida. Não sei. Não dei o trabalho a mim e a canseira à ela, de pergungar sobre isso, que é desimportante. D'Elia, que é jornalista e escritora, também deu uma entrevista à Folha de S.Paulo - a matéria está neste
link.

***

Debochado. Pervertido. Erudito. Eu diria apenas (não sei se existia essa palavra antes de eu grafá-la, depois do parênteses à frente) um Elegíaco.

É. Um "Elegíaco", soa-me bem, isso. Mas sem o peso das dolorências. Elegíaco nas formas.

"Fernando, vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã, enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado."

Bela!, Piva, tua Ode.

E não só.

"A Piedade"



"Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos"

******

"Ode a Fernando Pessoa"

Roberto Piva (1962)


O rádio toca Stravinsky para homens surdos e eu recomponho na minha imaginação
a tua vida triste passada em Lisboa.
Ó Mestre da plenitude da Vida cavalgada em Emoções,
Eu e meus amigos te saudamos!
Onde estarás sentindo agora?
Eu te chamo do meio da multidão com minha voz arrebatada,
A ti, que és também Caeiro, Reis, Tu-mesmo, mas é como Campos que vou
saudar-te, e sei que não ficarás sentido por isso.
Quero oferecer-te o palpitar dos meus dias e noites,
A ti, que escutaste tudo quanto se passou no universo,
Grande Aventureiro do Desconhecido, o canto que me ensinaste foi de libertação.
Quando leio teus poemas, alastra-se pela minh'alma dentro um comichão de
saudade da Grande Vida,
Da Grande Vida batida de sol dos trópicos,
Da Grande Vida de aventuras marítimas salpicada de crimes,
Da grande vida dos piratas, Césares do Mar Antigo.
Teus poemas são gritos alegras de Posse,
Vibração nascida com o Mundo, diálogos contínuos com a Morte,
Amor feito a força com toda Terra.

Sempre levo teus poemas na alma e todos os meus amigos fazem o mesmo.
Sei que não sofres fisicamente pelos que estão doentes de Saudade, mas de
Madrugada; quando exaustos nos sentamos nas praças, Tu estás conosco, eu
sei disso, e te respiramos na brisa.
Quero que venhas compartilhar conosco as orgias da meia-noite, queremos ser
para ti mais do que para o resto do mundo.
Fernando Pessoa, Grande Mestre, em que direção aponta tua loucura esta noite?
Que paisagens são estas?
Quem são estes descabelados com gestos de bailarinos?

Vamos, o subúrbio da cidade espera nossa aventura,
As meninas já abandonaram o sono das famílias,
Adolescentes iletrados nos esperam nos parques.
Vamos com o vento nas folhagens, pelos planetas, cavalgando vaga-lumes cegos até o Infinito.
Nós, tenebrosos vagabundos de São Paulo, te ofertamos em turíbulo para uma
bacanal em espuma e fúria.
Quero violar todas as superfícies e todos os homens da superfície, Vamos viver para além da burguesia triste que domina meu país alegremente
Antropófago.
Todos os desconhecidos se aproximam de nós.
Ah, vamos girar juntos pela cidade, não importa o que faças ou quem sejas, eu te
abraço, vamos!
Alimentar o resto da vida com uma hora de loucura, mandar à merda todos os deveres, chutar os padres quando passarmos por eles nas ruas, amar os
pederastas pelo simples prazer de traí-los depois,
Amar livremente mulheres, adolescentes, desobedecer integralmente uma ordem
por cumprir, numa orgia insaciável e insaciada de todos os propósitos-
Sombra.
Em mim e em Ti todos os ritmos da alma humana, todos os risos, todos os olhares,
todos os passos, os crimes, as fugas, Todos os êxtases sentidos de uma vez,
Todas as vidas vividas num minuto Completo e Eterno,
Eu e Tu, Toda a Vida!
Fernando, vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã,
enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado.
Vamos percorrer as vielas do centro aos domingos quando toda a gente decente
dorme, e só adolescentes bêbados e putas encontram-se na noite.
Tu, todas as crianças vivazes e sonolentas,
Carícia obscena que o rapazito de olheiras fez ao companheiro de classe e o
professor não vê;
Tu, o Ampliado, latitude-longitude, Portugal África Brasil Angola Lisboa São
Paulo e o resto do mundo,
Abraçado com Sá-Carneiro pela Rua do Ouro acima, de mãos dadas com Mário de Andrade no Largo do Arouche.
Tu, o rumor dos planaltos, tumulto do tráfego na hora do ¿rush¿, repique dos
sinos de São Bento, hora tristonha do entardecer visto do Viaduto do Chá,
Digo em sussurro teus poemas ao ouvido do Brasil, adolescente moreno empinando papagaios na América.
Vamos ver a luz da Aurora chispando nas janelas dos edifícios, escorrendo pelas
águas do Amazonas, batendo em chapa na caatinga nordestina, debruçando
no Corcovado,
Ouçamos a bossa-nova deitados na palma da mão do Cristo e a batucada vinda
diretamente do coração do morro.
Tu, a selvagem inocência nos beijos dos que se amam,
Tu o desengajado, o repentino, o livre.
Agora, vem comigo ao Bar, e beberemos de tudo nunca passando pela caixa,
Vamos ao Brás beber vinho e comer pizza no Lucas, para depois vomitarmos
tudo de cima da ponte,
Vem comigo, eu te mostrarei tudo: o Largo do Arouche à tarde, o Jardim da Luz
pela manhã, veremos os bondes gingando nos trilhos da Avenida, assaltaremos o Fasano, iremos ver ¿as luzes do Cambuci pelas noites de crime¿,
onde está a menina-moça violada por nós num dia de Chuva e Tédio,
Não te levarei ao Paissandu para não acordarmos o sexo do Mário de Andrade
(ai de nós se ele desperta!),
Mas vamos respirar a Noite do alto da Serra do Mar: quero ver as estrelas refletidas
em teus olhos.
Sobre as crianças que dormem, tuas palavras dormem; eu deles me aproximo e
dou-lhes um beijo familiar na face direita.
Teu canto para mim foi música de redenção,
Para tudo e todos a recíproca atração de Alma e Corpo.
Doce intermediário entre nós e a minha maneira predileta de pecar.
Descartes tomando banho-maria, penso, logo minto, na cidade futura, industrial
e inútil.
Mundo, fruto amadurecido em meus braços arqueados de te embalar,
Resumirei para Ti a minha história:
Venho aos trambolhões pelos séculos,
Encarno todos os fora da lei e todos os desajustados,
Não existe um gangster juvenil preso por roubo e nenhum louco sexual que eu
não acompanhe para ser julgado e condenado;
Desconheço exame de consciência, nunca tive remorsos, sou como um lobo
dissonante nas lonjuras de Deus.
Os que me amam dançam nas sepulturas.
Da vidraça aberta olho as estrelas disseminadas no céu; onde estás, Mestre Fernando?
Foste levar a desobediência aos aplicados meninos do Jardim América?
Dás um lírio para quem fugir de casa?
Grande indisciplinador, é verdade?

Vamos ao norte amar as coisas divinamente rudes.
Vamos lá, Fernando, dançar maxixe na Bahia e beber cerveja até cair com um
baque surdo no centro da Cidade Baixa.
Sabes que há mais vida num beco da Bahia ou num morro carioca do que em
toda São Paulo?
São Paulo, cidade minha, até quando serás o convento do Brasil?
Até teus comunistas são mais puritanos do que padres.
Pardos burocratas de São Paulo, vamos fugir para as praias?
Ó cidade das sempiternas mesmices, quando te racharás ao meio?
Quero cuspir no olho do teu Governador e queimar os troncos medrosos da floresta
humana.
Ó Faculdade de Direito, antro de cavalgaduras eloqüentes da masturbação transferida!
Ó mocidade sufocada nas Igrejas, vamos ao ar puro das manhãs de setembro!
Ó maior parque industrial do Brasil, quando limparei minha bunda em ti?
Fornalha do meu Tédio transbordando até o Espasmo.
Horda de bugres galopando a minha raiva!
Sei que não há horizontes para a minha inquietação sem nexo,
Não me limitem, mercadores!
Quero estar livre no meio do Dilúvio!
Quero beber todos os delírios e todas as loucuras, mais profundamente que
qualquer Deus!
Põe-te daqui para fora, policiamento familiar da alma dos fortes: eu quero ser
como um raio para vós!
Violência sincopada de todos os "boxeurs"!
Brasileira do Chiado em dias de porre de absinto.
Arcabouço de todas as náuseas da vida levada em carícias de Infinito.
Tudo dói na tua alma, Nando, tudo te penetra, e eu sinto contigo o íntimo tédio
de tudo.
Realizarei todos os teus poemas, imaginando como eu seria feliz se pudesse estar
contigo e ser tua Sombra.

30/06/2010

Erik Satie, música para lugares

Dia 1º de julho de 2010: 85 anos da morte do compositor e pianista francês Erik Satie. Expoente durante o período das vanguardas europeias, conviveu e influenciou figuras como Debussy e Ravel. Satie conceituou a composição de música para lugares, em vez do trivial "música para pessoas".

A primeira série de vídeos deste post compõe a
Gymnopedie, composição publicada em três partes, a partir de 1888. As melodias são belíssimas - bem ao estilo minimalista de Satie, de ritornelos infindos daquelas folhas de papel que parecem cair num precipício ainda mais sem-fim...







A série abaixo compõe as Gnossienne.













PS: Quer baixar algumas músicas de Satie?
Oráit,
here...

18/06/2010

Dedicatória a Saramago - ao trago d'aguardente



Hoje está sendo uma espécie de "Dia Internacional de Saramago". No Twitter, até o CALA A BOCA GALVAO foi superado pelo sábio... Sua partida é notícia em tudo quanto é lugar dessa birosca chamada internet.

O vídeo acima é uma pequena homenagem nonsense ao autor do Conto da Ilha Desconhecida e A Jangada de Pedra - que não era crioulo, e passou longe de ser doido!

Nonsense pelo fato de que não tem ligação linear com José, está apenas harmoniomelodizando as lapadinhas de cana que tomo e releituras que faço de passagens de seus escritos neste meu começo de noite. Por isso a sem-sentido dedicatória do sambinha ao trago d'aguardente.

Ao sábio, "...com a atenção devida, ..."

13/03/2010

Bob Dylan e a música de conteúdo

Uma bela melodia e uma harmonia bem arranjada faz por si uma boa música. Com "The great Gig in the Sky", Pink Floyd crivou, como nenhuma outra banda, que uma bela música pode dispensar letras. Claro que não foi o Floyd quem inventou isso, mas a citação serve como exemplo - e a uso neste sentido.

Evidentemente que uma bela música também pode vir acompanhada de alguma letra, ou mesmo de um derramamento de versos poéticos pouco ou muito compreensíveis, desde que poéticos. Não estou falando de coesão, mas de beleza, e ninguém aqui é tolo o suficiente para acreditar que qualquer beleza precise, necessariamente, ser coesa.

Quando uma bela melodia e uma bem arranjada harmonia combinam-se com uma letra espetacular, o resultado certamente será bom. Como na música abaixo, de Bob Dylan, "Hurricane".



A canção acima combina tudo isso que falei, e saúda o ouvinte com uma grande história - o tal conteúdo do título deste post.

"Hurricane" (furação) era o codinome do boxeador norte-americano, Rubin Carter, nascido no dia 6 de maio de 1937, e preso em 1966, acusado de um triplo homicídio num bar. Ficou encarcerado durante longos 19 anos, e solto posteriormente, no ano de 1985, inocentado.

A prisão destruiu sua brilhante carreira do "Furacão", já que era favorito pra ganhar o cinturão da categoria Peso Médio em 1966, quando marcava seus 29 anos de idade. O contexto, todos sabem, aqueles anos de luta por direito civis, em que se destacaram figuras como Malcom X e Martin Luther King, mesclados às reminiscências podres de branquelos doentes da Ku Klux Klan e seus simpatizantes microfascistas. O "Furacão" viria a receber a congratulação no ano de 1993, quase 30 anos depois de brilhar nos ringues.

A história de "Hurricane" é uma daquelas sagas judiciais de negros norte-americanos, dignas de filme. E ganhou este filme, sendo representado por Denzel Washington no longa The Hurricane.

A música de Bob Dylan é belíssima. Transplanta ao ouvinte uma vibração muito intensa, com momentos que causam arrepios. Não sei se o brilho é da bela melodia, da harmonia bem colocada, ou do rico conteúdo cantado numa letra forte, que traduz a história aguerrida de Rubin "Hurricane" Carter.

Possivelmente o brilho se deve à mágica combinação de todos esses elementos.

Um brinde ao Furacão e a Bob Dylan!

Hurricane
Bob Dylan e Jacques Levy

Tiros de revólver ressoam na noite dentro do bar
entra Patty Valentine vinda do salão superior
ela vê o garçon numa poça de sangue
solta um grito “Meu Deus, mataram todos eles!”
aí vem a história do Furacão
o homem que as autoridades acabaram culpando
por algo que ele nunca fez
colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
em que podia ter sido o campeão mundial

Três corpos deitados ali é o que Patty vê
e outro homem chamado Bello rodeando misteriosamente
“Eu não fiz isso” ele diz e joga os braços pra cima
“Estava só roubando a registradora, espero que você entenda
eu os vi partindo” ele diz e pára
“É melhor um de nós ligar pros tiras”
e assim Patty chama os tiras
e eles chegam na cena com suas luzes vermelhas piscando
na noite quente de New Jersey

Enquanto isso, bem longe, em outra parte da cidade
Rubin Carter e uns dois amigos estão dando algumas voltas de carro
o pretendente número um à coroa dos pesos-médios
não tinha idéia do tipo de merda que estava para baixar
quando um tira o fez parar no acostamento
igualzinho à vez anterior e à outra vez antes dessa
em Paterson é assim mesmo que as coisas rolam
se você é negro, melhor nem aparecer na rua
a não ser que queira atrair uma batida policial

Alfred Bello tinha um parceiro e ele soltou um papo atrás dos tiras
ele e Arthur Dexter Bradley estavam só fazendo uma ronda
ele disse “Vi dois homens sairem correndo, pareciam pesos-médios
pularam dentro de um carro branco com a placa de outro estado”
e a senhorita Patty Valentine apenas assentiu com a cabeça
um tira disse “Esperem um minuto, rapazes, este aqui não está morto”
então o levaram à enfermaria
e embora esse homem mal pudesse enxergar
disseram a ele que podia identificar os culpados

Às 4 da manhã eles arrastam Ruby consigo
o levam para o hospital e o trazem escada cima
o homem ferido olha pra cima através de seu único olho moribundo
diz ” Por que vocês o trouxeram aqui dentro? Não é esse o cara!”
sim, eis aqui a história do Furacão
o homem que as autoridades acabaram culpando
por algo que ele nunca fez
colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
em que podia ter sido o campeão mundial

Quatro meses depois, os guetos estão em chamas
Rubin está na América do Sul, lutando por seu nome
enquanto Arthur Dexter Bradley continua no ramo do assalto
e os tiras estão apertando-o
procurando alguém pra culpar
“Lembra daquele assassinato que aconteceu num bar?”
“Lembra que você disse ter visto o carro fugitivo?”
“Você acha que está a fim de brincar com a lei?”
“Não acha que talvez tenha sido aquele lutador
que você viu correndo pela noite?”
“Não se esqueça de que você é branco”

Arthur Dexter Bradley disse “Não tenho muita certeza”
os tiras disseram “Um rapaz como você precisa de uma folga da polícia
te pegamos por aquele serviço no motel
e agora estamos conversando com seu amigo Bello
agora,você não querter de voltar pra cadeia
seja um sujeito legal
Você estará fazendo um favor a sociedade
aquele filho-da-puta é valente e está ficando cada vez mais
nós queremos botar o rabo dele pra fritar
queremos pregar esse triplo assassinato nele
o cara não é nenhum cavalheiro”

Rubin podia nocautear um cara com apenas um soco
mas nunca gostou muito de falar sobre isso
“É meu trabalho”, diria, “E eu o faço para ser pago
e quando isso termina, prefiro cair fora o mais rápido possível
na direção de algum paraíso
onde riachos de trutas correm e o ar é ótimo
e andar a cavalo ao longo de uma trilha”
Mas aí o levaram para a cadeia
onde tentaram transformar um homem num rato

Todas as cartas de Rubin já estavam marcadas
o julgamento foi um circo de porcos, ele não teve a menor chance
o juiz fez das testemunhas de Rubin bêbados das favelas
e para os brancos que assistiam, ele era um vagabundo revolucionário
e para os negros, apenas mais um crioulo maluco
ninguém duvidava que ele tinha apertado o gatilho
e embora não conseguissem produzir a arma
o promotor público disse que era ele o responsável
e o juri, todos de brancos, concordou

Rubin Carter foi falsamente julgado
o crime foi de assassinato “em primeiro grau”
adivinha quem testemunhou?
Bello e Bradley, e ambos mentiram descaradamente
e os jornais, todos pegaram uma carona nessa onda
como pode a vida de um homem desses
ficar na palma da mão de algum tolo?
Vê-lo obviamente condenado numa armação
não teve outro jeito a não ser me fazer sentir vergonha
de morar numa terra onde a justiça é um jogo

Agora todos os criminosos em seus paletós e gravatas
estão livres para beber martinis e assitir o sol nascer
enquanto Rubin fica sentado como Buda em uma cela de 3 metros
um inocente num inferno vivo
essa é a história do Furacão
mas não terá terminado enquanto não limparem seu nome
e devolverem a ele o tempo que serviu
colocado numa cela de prisão, mas houve um tempo
em que podia ter sido o campeão mundial

21/02/2010

Entre Pirandello e Copérnico

O vídeo acima foi escolhido para acompanhar musicalmente este post. A música é Libertango, de Astor Piazzola, executada pelo violoncelista Yo Yo Ma. Recomendo que se inicie a música junto ao texto transcrito mais abaixo.

Há uns seis meses escrevi um ensaio sobre a quantidade imensa de inutilidades que são escritas por aí, em jornais e, mesmo, na academia. À guisa de tanta inutilidade, aqui neste post vai mais uma – que, ao menos, se pretende descontraída e não sem um pouco de humor e reflexão sobre a nossa posição no Universo.

Possivelmente alguns usarão um dos trechos da citação em mesas de bares, sobretudo o da “boa desculpa para bêbados”, e se o fizerem, tanto melhor, que o post não será de todo inútil – ou, pelo menos, menos inútil que muitas “obras” acadêmicas e jornalísticas que por aí se perde tempo a ler. E, se este post é inútil, no mínimo é um pouco menos por citar uma obra merecedora de atenção, embalada por uma bela música, além de expôr alguma reflexão sobre nós mesmos e nossos costumes.

É que descobri que na sexta-feira, dia 19/02, fez 537 anos que nasceu o astrônomo polonês Nicolau Copérnico, o homem que demonstrou que a terra girava em torno do sol, e que o planeta é redondo. A primeira relação que minha mente colocou em evidência foi o nome do escritor italiano, Luigi Pirandello. Mas o que um teria que ver com o outro? Bem, dentre muitas respostas, a que me soa pertinente, aqui, é uma passagem do livro O falecido Mattia Pascal, do próprio Pirandello.

Segue a passagem, de refinada ironia e profundidade marcante – do autor da também memorável obra Seis personagens à procura de um autor -, no contexto da arrumação que o Padre Elígio Pellegrinotto dava à biblioteca doada pelo Monsenhor Boccamazza ao seu município.

Vale alguns risos e qualquer reflexão para um fim de semana como o que se inicia hoje, sexta-feira, junto ao ano de 2010, que para muitos começa apenas na semana que vem.

“Assim, aos poucos, tomei gosto por esse tipo de leituras. Agora, Padre Elígio diz-me que meu livro deveria seguir o modelo desses que ele vai desencantando na biblioteca, isto é, ter o especial sabor que eles têm. Eu dou de ombros e respondo que não é tarefa para mim. E outra coisa ainda me retém.

Todo suado e empoeirado, padre Elígio desce da escada e vem respirar um pouco de ar fresco, na pequena horta que conseguiu fazer nascer aqui, atrás da abside, protegida, em toda a volta, por fasquias e puas de madeira.

- Ora, meu reverendo amigo – digo-lhe, sentado na mureta, o queixo apoiado no castão da bengala, enquanto ele cuida de suas alfaces. – Não me parece mais, o atual, tempo de escrever livros, nem por brincadeira. No que diz respeito à literatura, como a tudo o mais, devo repetir meu costumeiro estribilho: “Maldito seja Copérnico!“

- Oh, oh, oh, que tem Copérnico a ver com isso?! – exclama Padre Elígio, erguendo o busto, o rosto afogueado sob o grande chapéu de palha.

- Tem, sim, Padre Elígio. Porque, quando a Terra não girava…

- Ora esta! Mas se sempre girou!

- Não é verdade. O homem não sabia disso e, portanto, era como se não girasse. Para muitos, ela continua a não girar também agora. Disse que girava, no outro dia, a um velho camponês; sabe o que ele me respondeu? Que era uma boa desculpa para bêbados. Aliás, o senhor também, tenha paciência, não pode pôr em dúvida que Josué fez o sol parar. Mas deixemos isto. Digo que, quando a Terra não girava e o homem, vestido de grego ou de romano, nela fazia boa figura, formando tão elevado conceito de si e comprazendo-se tanto com sua própria dignidade, acredito perfeitamente que pudesse ter acolhida favorável uma narração minuciosa e repleta de inúteis pormenores. Lê-se ou não se lê em Quintiliano, como o senhor me ensinou, que a História devia ser feita para narrar e não para demonstrar?

- Não nego – responde Padre Elígio -, mas, também, é verdade que nunca se escreveram tantos livros, tão pormenorizados, ou melhor, tão carregados das mais secretas minudências, como desde quando, no seu modo de dizer, a Terra começou a girar.

- Está bem: o senhor conde levantou-se cedo, às oito horas e meia em ponto… A senhora condessa pôs um vestido lilás, ricamente guarnecido de rendas no pescoço… Terezinha estava morrendo de fome… Lucrécia consumia-se de amor… Oh meu Deus do céu! Que importância isso pode ter para mim? Estamos ou não estamos num invisível piãozinho, para o qual um fio de sol serve de chicote, num grãozinho de areia enlouquecido, que gira e continua a girar, sem saber por quê, sem chegar nunca a destinação, como se achasse muito divertido girar assim, para fazer-nos sentir ora um pouco mais de calor, ora um pouco mais de frio, e, no fim, fazer-nos morrer (a miúdo, com a consciência de ter cometido uma série de pequenas tolices), após cinquenta ou sessenta giros? Copérnico, Copérnico, meu caro Padre Elígio, estragou a humanidade irremediavelmente. Agora, todos já nos adaptamos, aos poucos, à nova concepção de nossa infinita pequenez e a nos considerarmos menos do que nada, no Universo, com todas as nossas lindas descobertas e invenções. Que valor quer, então, que tenham as notícias, já não digo das misérias privadas, mas das nossas calamidades gerais? Histórias de minhocas, as nossas, agora. Leu a respeito daquele pequeno desastre nas Antilhas? Nada de importante. A Terra, coitada, cansada de girar, como quer aquele cônego polonês, sem qualquer finalidade, teve um pequeno movimento de impaciência e soprou um pouco de fogo por uma de suas muitas bocas. Sabe-se lá o que foi que lhe agitou essa espécie de bílis! Talvez a estupipez dos homens, que nunca foram tão cacetes como agora. Resultado: vários milhares de minhocas torradas. E toca para a frente! Quem fala mais nisso?

Padre Elígio Pellegrinotto, porém, faz-me observar que, por mais esforços que empreguemos no cruel intento de arrancar, de destruir as ilusões que a previdente natureza criou para o nosso bem, não o conseguimos. Por sorte, o homem distrai-se facilmente.

Isso lá é verdade. Nosso Município, em certas noites marcadas na folhinha, não manda acender os lampiões e, com frequência, se o tempo é nublado, nos deixa no escuro.

E isso significa, no fundo, que nós, ainda hoje, acreditamos que a lua esteja no céu tão-só para dar-nos luz à noite, tal como o sol de dia, e as estrelas, somente para oferecer-nos um maravilhoso espetáculo. Pronto. E, com muita frequência, esquecemos que somos átomos infinitesimais, passamos a respeitar-nos e admirar-nos reciprocamente e somos capazes de engalfinhar-nos por um pedacinho de terra ou de queixar-nos de certas coisas que, se estivéssemos compenetrados do que somos realmente, deveriam parecer-nos desprezíveis misérias.”

Trecho de “O Falecido Mattia Pascal”
Pág. 15-17 (Abril Culrural, 1978)

- Luigi Pirandello

02/02/2010

Bob Dylan e a mudança dos tempos



Esse vídeo aí é raro. Aproveitem enquanto ele ainda está disponível... Rodei muito até achar uma versão dessa música que não estivesse com a incorporação desativada (o que impede de ouvir fora do youtube).

A música, "The times they are a-changin", está na bela trilha sonora do excelente filme Watchmen. A melodia é bonita, e a letra tem aquele tom político de um Bob Dylan embriagado de vaticínios de transformações sociais. Em termos de forma, a poesia assemelha-se um tanto aos repentes, centrados em um mote de fim de estrofe. Nesse caso, cada uma das 5 estrofes possui 10 versos e um 11º onde se repete o mote da "mudança dos tempos" - for the times they are a-changin...

"The times they are a-changin"

Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin'
Then you better start swimmin'
Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won't come again
And don't speak too soon
For the wheel's still in spin
And there's no tellin' who
That it's namin'.
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin'.

Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside
And it is ragin'.
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'.
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'.

The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.

Bob Dylan

PS:
Uma tradução de internet? Aqui.
Assista um trailler de Watchmen com a música, aqui.

24/01/2010

Paulo Diniz, Seu Zé.



Quantos churrascos e feijoadas e dobradinhas, Paulo Diniz não embalou em todas nestas últimas dæcadas? E quantos churrascos e feijoadas e dobradinhas, ou uma simples cerveja numa beira de lugar o grande Paulo Diniz ainda não há de soar canções n'outras dæcadas?

Apenas um Lugar Comum...



Nas estradas....



Um Chopp...



Ela passou,
Deixando um sorriso no chão
Deu um banho de beleza nos meus olhos
E aí começou o verão
Mil cores pintando o painel
Copacabana...

Ela parou,
Na loja de discos e escutou
A canção que eu fiz pra ela
A minha mensagem de amor
É tudo que eu tenho pra dar
Chorei de amor,
Eu sei, chorei de amor
E um chopp pra distrair...

Um chopp pra distrair,
Um chopp,chopp, pra distrair..

'Um chopp pra distrair'
Paulo Diniz
(em homenagem a seu aniversário)

16/01/2010

405 anos de Dom Quixote!

Acabei de descobrir, por acaso e ventura, que hoje está completando 405 anos da primeira publicação de Dom Quixote de la Mancha. Segundo o Oráculo do XXI, o wikipédia:

"Dom Quixote de La Mancha (Don Quijote de la Mancha em castelhano) é um livro escrito pelo escritor espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616). O título e ortografia originais eram El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha, com sua primeira edição publicada em Madrid no ano de 1605. É composto por 126 capítulos, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615."
Não sei se a data 16 de janeiro é precisa. Já os anos 1605 e 1615, são. Mas isso é desimportante, aqui. Vejam o facsímile da primeira edição, que beleza:

Nos últimos dias tenho cogitado não ler absolutamente mais nada de "novo", por um bom tempo. Apenas reler tudo que já li até hoje. Quer dizer, "tudo", não. Mas, tudo aquilo que me foi significativo. E Dom Quixote está em primeiro lugar na minha lista. Não sei se serei bem-sucedido nessa empreitada, porque é a típica promessa que não se cumpre. Mas vou tentar, nem que seja em vão.

Com esse pensamento em riste, comecei a reler Dom Quixote. Nunca cogitei que a experiência de reler essa obra fosse ser tão boa. Dentro daquela linguagem travosa, difícil, pra poucos, nesse objeto de 609 páginas amarelecidas pelo tempo, de pequenas letras negras de serifas, tenho observado que esse livro é mais-mais (me falta um adjetivo) do que eu imaginei quando li a primeira vez, há 8 anos.

Antes de começar a releitura, abri uma página ao acaso. Cai na página 351, capítulo XI, da minha edição da Abril Cultural, intitulado "DA ESTRANHA AVENTURA QUE SUCEDEU AO VALOROSO DOM QUIXOTE COM O CARRO OU CARRETA DAS CORTES DA MORTE".

Logo no início, Sancho Pança mostra toda a sua espirituosidade. E Cervantes dá prova de que sua obra é merecedora do título de Literatura Universal.

"Extremamente pensativo, ia Dom Quixote seguindo o seu caminho e considerando na burla que lhe tinham pregado os nigromantes, com o transformarem a sua Senhora Dulcinéia na desastrada figura duma aldeã, e não imaginava que remédio se podia empregar para que voltasse ao seu primeiro ser; e estes pensamentos punham-no tão fora de si, que, sem dar por isso, soltou as rédeas a Rocinante, o qual, sentindo a liberdade que lhe concediam, a cada passo se detinha para pastar a verde relva que por aqueles campos abundava. Tirou-o Sancho Pança da sua distração, dizendo-lhe:
- Senhor, as tristezas não se fizeram para os brutos, e sim para os homens; mas se os homens sentem demasiadamente, embrutecem;"

Não sei se reler será melhor do que ler, porque a descoberta desse livro me criou um modo diverso de perceber as coisas todas do mundo, e foi uma leitura muito transformadora para mim.

Não apenas nos conteúdos, mas nas formas, mesmo, que é um livro de linguagem difícil, de colocações pronominais estranhas e de léxico não muito simples - esses elementos demandam um bom dicionário sempre ao lado, e leveza de leitura para não travar nas formas pouco usuais dos pronomes.

Certamente será uma experiência marcante, e os entendimentos podem ser mais profundos agora, tanto das formas quanto dos conteúdos - e vice-versa, que forma em si também é conteúdo.

Bem, se eu viver, verei.

09/01/2010

"Uma Faca só Lâmina"

(OU: SERVENTIA DAS IDÉIAS FIXAS)

por João Cabral de Mello Neto

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

A

Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.

Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,

nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

(1955)

08/12/2009

A John Lennon



Hoje faz 29 anos que John Lennon morreu. Instant Karma, no vídeo acima.

"Instant Karma's gonna get you..."

No vídeo abaixo, God.



"Deus é um conceito com o qual medimos nossa dor..."

God

God is a concept,
By which we measure
Our pain.
I'll say it again.
God is a concept,
By which we measure
Our pain.
I don't believe in magic
I don't believe in I-Ching
I don't believe in Bible
I don't believe in Tarot
I don't believe in Hitler
I don't believe in Jesus
I don't believe in Kennedy
I don't believe in Buddha
I don't believe in Mantra
I don't believe in Gita
I don't believe in Yoga
I don't believe in Kings
I don't believe in Elvis
I don't believe in Zimmerman
I don't believe in Beatles
I just believe in me
Yoko and me
And that's reality.
The dream is over,
What can I say?
The dream is over
Yesterday
I was the dreamweaver,
But now I'm reborn.
I was the walrus,
But now I'm John.
And so dear friends,
You just have to carry on
The dream is over.

A Jim Morrison



Se estivesse vivo, o poeta James Douglas Morrison completaria, hoje (8 de dezembro), 66 anos. Além de poeta, Jim Morrison foi vocalista do The Doors. Vai aí um poema do cara.

O PALÁCIO DO EXÍLIO

Durante sete anos habitei no livre Palácio do Exílio
Jogando estranhos jogos com as raparigas da ilha
Agora estou de volta à terra dos justos
E dos fortes e dos sábios
Irmãos e irmãs da pálida floresta
Crianças da noite
Quem de entre vós fugirá com a caça?
Agora a noite chega com a sua legião púrpura
Metam-se nas vossas tendas e nos vossos sonhos
Amanhã entramos na cidade do meu nascimento
Quero estar preparado.

30/09/2009

Samba do Crioulo Doido



Faleceu há 41 anos (30/09/68) o autor do Samba do Crioulo Doido, Sérgio Porto - ou, Stanislaw Ponte Preta.

Stanislaw (pseudônimo de Sérgio) escreveu o famoso Febeapa (Festival de Besteiras que Assola o País). No livro, são relatadas estórias memoráveis, como por exemplo, a seguinte:

Disse Stanislaw no Febeapa 2:

“É difícil ao historiador precisar o dia em que o Festival de Besteira começou a assolar o País. Pouco depois da “redentora”, cocorocas de diversas classes sociais e algumas autoridades que geralmente se dizem “otoridades”, sentindo a oportunidade de aparecer, já que a “redentora”, entre outras coisas, incentivou a política do dedurismo (corruptela de dedo-durismo, isto é, a arte de apontar com o dedo um colega, um vizinho, o próximo enfim, como corrupto ou subversivo — alguns apontavam dois dedos duros, para ambas as coisas), iniciaram essa feia prática, advindo daí cada besteira que eu vou te contar”

(...)

“Os jornalistas deveriam apanhar da polícia não só durante a passeata, mas antes também. Eles são incapazes de reconhecer o valor da polícia. Os fotógrafos, por exemplo, nunca fotografam os estudantes batendo no policial”. Essa declaração foi feita pelo Secretário de Segurança de Minas Gerais, coronel Joaquim Gonçalves."

Do Feneapa 1, uma clássica:

“Foi então que estreou no Teatro Municipal de São Paulo a peça clássica “Electra”, tendo comparecido ao local alguns agentes do DOPS para prender Sófocles, autor da peça e acusado de subversão, mas já falecido em 406 a.C.”

Que os deuses salvem os homens cultos da nossa ditadura militar!

Se desejar conhecer um pouco da biografia de Sérgio Porto, clique aqui.

05/09/2009

Um pouco de Jorge Luis Borges

Em sua Literatura, Jorge Luis Borges mexeu com a realidade como quem rabisca garatujas no ar. Mas não qualquer garatuja, em sua acepção própria, dessas desordenadas e desconexas, pueris, casuais e horrendas. Pelo contrário, garatujas assombrosamente elaboradas, de construções tão complexas, finas e verossímeis, que, se levadas ao extremo, o leitor corre sério risco de não saber mais onde se assenta o real e onde se inicia o fantástico naquelas linhas.

Certamente a impressão de garatujas dos contos fantásticos de Borges se esvai quando o leitor entra em contato mais profundo e umbilical com tais construções, intragáveis ou incompreensíveis numa primeira vista. Uma outra sensação de mundo é experimentada. Outras dimensões, mais abrangentes, amplas, para tudo aquilo que os olhos parecem cegos.

A realidade outra, fantástica, que se apresenta diante dos olhos faz-se tão original, tão real, que a própria realidade se torna minúscula, e o fantástico palpável e palatável. E quem, depois de cruzar-se com Borges nos labirintos da existência, refletir-se em seus infinitos espelhos, perder-se entre os hexágonos da biblioteca de Babel, ousará dizer que não é?!

Gostaria de apresentar Borges aos leitores do Acerto de Contas. Certo é que se trata de uma vasta e difícil tarefa. Como fazer isso dizendo que ele nasceu em 24 de agosto de 1899, na cidade de Buenos Aires? Ou que este ano faria 110 anos? Ou, ainda, que adentrou as portas da infinitude em Genebra, no dia 14 de junho de 1986?

Isso não faz muito sentido. E, se acaso fizer algum sentido, aqui, não é tão importante quanto saborear suas próprias linhas. São elas que deixarei aos leitores.

Não correrei o risco de psicologizar vulgarmente o meu escritor preferido. Muito menos de biografá-lo pateticamente – ele que se autobiografou tão bem em tão poucas páginas.

Em vez dessas coisas triviais, exibo diante de vocês dois escritos de Borges.

Primeiro, The Unending Gift (que costumo traduzir como “O Presente Eterno”), onde os olhos miram o infinito das promessas, dos deuses, dos homens, dos presentes, terno e eterno.

Segundo, o conto que encerra um dos mais belos livros que já li em minha vida, até aqui. O conto se chama O Livro de Areia, extraído do livro que ostenta o mesmo belíssimo título.

A Jorge Luis Borges, dedico este post, simples e honesto, com a promessa de um dia fazê-lo com maior esmero.

*****

“THE UNENDING GIFT”

Um pintor prometeu-nos um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como
outras vezes, a tristeza de compreender que somos como
um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)

Pensei em um lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa
mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da
casa; agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer
forma e qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma
Música e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa
Há algo imortal.)

*****

“O LIVRO DE AREIA”


A linha consta de um número infinito de pontos, o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos, o hipervolume, de um número infinito de volumes… Não, decididamente não é este, more geométrico, o melhor modo de iniciar meu relato.

Afirmar que é verídico é, agora, uma convenção de todo relato fantástico; o meu, no entanto, é verídico.

Vivo só, num quarto andar da Rua Belgrano. Faz alguns meses, ao entardecer ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto, de traços mal conformados. Talvez minha miopia os visse assim. Todo seu aspecto era de uma pobreza decente. Estava de cinza e trazia uma valise cinza na mão. Logo senti que era estrangeiro. A princípio achei-o velho; logo percebi que seu escasso cabelo ruivo, quase branco, à maneira escandinava, me havia enganado. No decorrer de nossa conversa, que não duraria uma hora, soube que procedia das Orcadas.

Apontei-lhe uma cadeira. O homem demorou um pouco a falar. Exalava melancolia, como eu agora.

- Vendo bíblias – disse.

Não sem pedantismo respondi-lhe:

- Nesta casa há algumas bíblias inglesas, inclusive a primeira, a de John Wiclif. Tenho também a de Cipriano de Valera, a de Lutero, que literariamente é a pior, e um exemplar latino da Vulgata. Como o senhor vê, não são precisamente bíblias o que me falta.

Ao fim de um silêncio respondeu:

- Não vendo apenas bíblias. Posso mostrar-lhe um livro sagrado que talvez lhe interesse. Eu o adquiri nos confins de Bikanir.

Abriu a valise e o deixou sobre a mesa. Era um volume em oitavo, encadernado em pano. Sem dúvida, havia passado por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado me surpreendeu. Na lombada dizia Hali Writ e, abaixo, Bombay.

- Será do século dezenove – observei.

- Não sei. Não soube nunca – foi a resposta.

Abri-o ao acaso. Os caracteres me eram estranhos. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas, como uma bíblia. O texto era apertado e estava ordenado em versículos. No ângulo superior das páginas, havia cifras arábicas. Chamou-me a atenção que a página par levasse o número (digamos) 40.514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso estava numerado com outra cifra. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso nos dicionários: uma âncora desenhada à pena, como pela desajeitada mão de um menino.

Foi então que o desconhecido disse:

- Olhe-a bem. Já não a verá nunca mais.

Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz.

Fixei-me no lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Em vão busquei a figura da âncora, folha por folha.Para ocultar meu desconcerto, disse:

- Trata-se de uma versão da Escritura em alguma língua indostânica, não é verdade?

- Não – replicou.

Logo baixou a voz como que para me confiar um segredo:

- Adquiri-o em uma povoação da planície, em troca de algumas rupias e da Bíblia. Seu possuidor não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra sem contaminação. Disse que seu livro se chamava o Livro de Areia, porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim.

Pediu-me que procurasse a primeira folha.

Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o dedo polegar quase pegado ao indicador. Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro.

- Agora procure o final.

Também fracassei; apenas consegui balbuciar com uma voz que não era minha:

- Isto não pode ser.

Sempre em voz baixa o vendedor de bíblias me disse:

- Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número.

Depois, como se pensasse em voz alta:

- Se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.

Suas considerações me irritaram. Perguntei:

- O senhor é religioso, sem dúvida?

- Sim, sou presbiteriano. Minha consciência está limpa. Estou seguro de não ter ludibriado o nativo quando lhe dei a Palavra do Senhor em troca de seu livro diabólico.

Assegurei-lhe que nada tinha a se recriminar e perguntei-lhe se estava de passagem por estas terras. Respondeu que dentro de alguns dias pensava em regressar à sua pátria. Foi então que soube que era escocês, das ilhas Orcadas. Disse-lhe que a Escócia eu estimava pessoalmente por amor de Stevenson e de Hume.

- E de Robbie Burns – corrigiu.

Enquanto falávamos eu continuava explorando o livro infinito. Com falsa indiferença perguntei:

- O senhor se propõe a oferecer este curioso espécime ao Museu Britânico?

- Não. Ofereço-o ao senhor – replicou e fixou uma soma elevada.

Respondi, com toda a verdade, que essa soma era inacessível para mim e fiquei pensando. Ao fim de poucos minutos, havia urdido meu plano.

- Proponho-lhe uma troca – disse. O senhor obteve este volume por algumas rupias e pela Escritura Sagrada; eu lhe ofereço o montante de minha aposentadoria que acabo de cobrar, e a Bíblia de Wiclif em letras góticas. Herdei-a de meus pais.

- A black letter Wiclif! – murmurou.

Fui ao meu dormitório e trouxe-lhe o dinheiro e o livro. Virou as páginas e estudou a capa com fervor de bibliófilo.

- Trato feito – disse.

Assombrou-me que não regateasse. Só depois compreenderia que havia entrado em minha casa com a decisão de vender o livro. Não contou as notas e guardou-as.

Falamos da Índia, das Orcadas e dos Jarls noruegueses que as governaram. Era noite quando o homem se foi. Não voltei a vê-lo nem sei o seu nome.

Pensei em guardar o Livro de Areia no vão que havia deixado o Wiclif, mas optei finalmente por escondê-lo atrás de uns volumes desemparelhados de As mil e uma Noites.

Deitei-me e não dormi. Às três ou quatro da manhã, acendi a luz. Procurei o livro impossível e virei suas folhas. Em uma delas vi gravada uma máscara. O ângulo levava uma cifra, já não sei qual, elevada à nona potência.

Não mostrei a ninguém meu tesouro. À ventura de possuí-lo se agregou o temor de que o roubassem e, depois, o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Estas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia. Restavam-me alguns amigos; deixei de vê-los. Prisioneiro do Livro, quase não saía à rua. Examinei com uma lupa a lombada gasta e as capas e rechacei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as em uma caderneta alfabética, que não demorei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro.

O verão declinava e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade.

Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse o planeta de fumaça.

Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à mão direita do vestíbulo, uma escada curva se some no sótão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos empregados para perder o Livro de Areia em uma das úmidas prateleiras. Tratei de não me fixar em que altura, nem a que distância da porta.

Sinto um pouco de alívio, mas não quero nem passar pela Rua México.

Jorge Luis Borges

26/08/2009

Cortázar - Progresso e retrocesso

"Inventaram um vidro que deixava passar as moscas. A mosca chegava, empurrava um pouco com a cabeça e pop, já estava do outro lado.

Enorme, a alegria da mosca.


Tudo foi estragado por um sábio húngaro, quando descobriu que a mosca podia entrar mas não podia sair, ou vice-versa, por causa de quem sabe lá que besteira na flexibilidade das fibras daquele vidro que era muito fibroso.

Em seguida inventaram o caça-moscas com um torrão de açúcar dentro, e muitas moscas morriam desesperadas. Assim acabou toda confraternização possível com estes animais dignos de melhor sorte."


_____________________________

* No dia 26 de agosto de 1914,
vinha à face da vida Julio Cortázar.

25/08/2009

Zaratustra no Outro Canto do Baile

"O Outro canto do Baile"

I

"Acabo de te olhar nos olhos, vida; vi
reluzir outro nos teus olhos noturnos, e
essa voluptuosidade paralisou−me o
coração: vi brilhar uma barca dourada
que se submergia em águas noturnas,
uma barca dourada que se submergia e
reaparecia fazendo sinais!

Tu dirigias um olhar aos meus pés,
doidos por dançar, um olhar acariciador,
terno, risonho e interrogador.

Duas vezes apenas agitaste com as
mãos as tuas castanholas, e já os pés
me pulavam, ébrios.

Os calcanhares erguiam−se; os dedos
escutavam para te compreender; não
tem o dançarino os ouvidos nos dedos
dos pés?

Saltei ao teu encontro; tu retrocedeste
ao meu impulso, e até a mim serpeava a
tua voadora e fugidia cabeleira.

Num pulo me afastei de ti e das tuas
serpentes: já tu te erguias com os olhos
cheios de desejos.

Com lânguidos olhares me mostras
sendas tortuosas; por tortuosas sendas
aprende astúcias o meu pé.

Receio−te quando te aproximas, amo−te
quando estás longe; a tua fuga

atrai−me; as tuas diligências detêm−me.
Sofro; mas, por ti, que não sofreria eu?
Ó, tu cuja frialdade incendeia, cujo ódio
seduz, cuja fuga prende, cujos enganos
comovem!

Quem te não odiará, grande carcereira,
sedutora, esquadrinhadora e
descobridora! Quem te não amará,
inocente, impaciente, arrebatadora
pecadora de olhos infantis!

Aonde me arrastas agora, indômito
prodígio? E já me tornas a fugir, doce
esquiva, doce ingrata!

Dançando sigo as tuas menores
pisadas. Onde estás? Dá−me a mão!
Ou um dedo sequer!

Há por aí cavernas e bosques;
extraviar−nos−emos. Pára! Detém−te!
Não vês revoarem corujas e morcegos?
Eh! lá, coruja! Morcego! Quereis brincar
comigo? Onde estamos? Com os cães
aprendestes a uivar e a rosnar.

Mostravas−me graciosamente os
brancos dentes, e os teus malvados
olhos asseteavam−me por entre as
frisadas madeixas.

Que correria por montes e vales! Eu sou
o caçador; queres tu ser o meu cão?
Agora, a meu lado! e depressa,
invejável solitária! Acima agora! Ó! Ao
voltar, cai. Olha como estou aqui
estendido! Olha, altaneira, como imploro
o teu socorro! Quereria continuar
contigo... por caminhos mais
agradáveis! pelos caminhos do amor,

através de esmaltados ou pelos que
marginam o lago, onde nadam e saltam
dourados peixes! Estás cansada,
agora? Ali em baixo há ovelhas e
vespertinos arrebóis. Não é tão bom
adormecer ao som da flauta dos
pastores?

Então, estás assim cansada? Vou−te
levar lá; ao menos deixa pender os
braços. E tens sede?... Poderia dar−te
qualquer coisa...Mas a tua boca não
quer beber.

Que maldita serpente esta, feiticeira
fugidia, veloz e ágil. Aonde te meteste?
Sinto na cara dois sinais da tua mão,
dois sinais vermelhos!

Estou deveras farto de te seguir sempre
como ingênuo cordeirinho! Feiticeira, até
agora cantei para ti: agora, para mim
deves tu... gritar! Deves dançar e gritar
ao compasso de meu látego!

Esquecê−lo−ia eu? Não!"

II

Eis o que então respondeu a vida,
tapando os delicados ouvidos:
"Ó! Zaratustra! Não vibres tão
espantosamente o látego? Bem sabes
que o ruído assassina os
pensamentos... e assaltam−me agora
pensamentos tão ternos!

Nós não somos bons nem maus para
nada! Além do bem e do mal
encontramos a nossa ilha e o nosso
verde prado: só nos dois o
encontramos! Por isso nos devemos
amar um ao outro!

E conquanto nos não amemos de todo o
coração, será caso para nos
enfadarmos? Enfadam−se as pessoas
por não se amarem de todo o coração?
É que eu te amo, te amo muitas vezes
com excesso, sabei−o demais, a razão
é que estou ciosa da tua sabedoria. Ah,
que velha louca é a sabedoria!

Se alguma vez a tua sabedoria te
deixasse, também logo o meu amor te
deixaria".

Então a vida olhou pensativa para trás e
em torno de si, e disse em voz baixa:
"Ó, Zaratustra não me és bastante fiel!
Ainda falta muito para me teres o amor
que dizes; sei que pensas deixar−me
breve.

Há um velho bordão pesado
pesadíssimo, que ressoa de noite até lá
acima, à tua caverna; quando ouves
esse sino dar a meia−noite, pensas −
bem o sei, Zaratustra − pensas
deixar−me breve!".

"Assim é,,, respondi titubeando, "mas tu
também sabes..." E disse−lhe uma coisa
ao ouvido colado à sua emaranhada
cabeleira, às suas douradas e
revoltadas madeixas.

"Tu sabes isso, Zaratustra? Ninguém
sabe isso..." Olhamo−nos, e dirigimos o
nosso olhar para o verde prado por
onde corria a frescura da tarde, e
choramos juntos. Mas então a vida era
para mim mais cara do que jamais o foi
toda minha sabedoria".

Assim falou Zaratustra
_________________________

* Há 109 anos, Nietzsche partia com a indesejada das gentes.

11/06/2009

Entrevista: João Cabral de Melo Neto

Abaixo, alguns trechos de uma entrevista com João Cabral de Melo Neto, concedida em 1986. O poeta dispensa maiores apresentações.

- Por que o senhor tem tanta prevenção contra a subjetividade? Há um conceito mais ou menos generalizado de que a poesia é uma manifestação extremada da subjetividade...

João Cabral: "Há uma diferença. Tenho aversão à subjetividade. Em primeiro lugar, tenho a impressão de que nenhum homem é tão interessante para se dar em espetáculo aos outros permanentemente. Em segundo lugar, tenho a impressão de que a poesia é uma linguagem para a sensibilidade, sobretudo. Uma palavra concreta, portanto, tem mais força poética do que a palavra abstrata. As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer "eu estou triste". Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do "eu estou triste".

(...)

- O senhor diz que a poesia que faz não é para ser amada. Não é porque o senhor não quer ou o senhor gostaria que suas poesias fossem amadas?

João Cabral: "Não gostaria. O escritor corre o grande risco de se baratear. A popularidade é uma coisa terrível, nesse sentido. A popularidade acaba cercando o escritor e o artista de um mundo artificial e um interesse inteiramente artificial. O sujeito acaba fazendo aquilo que sente que o público gosta, em vez de fazer aquilo que acha que deve ser feito. Eu lembro de quando Manuel Bandeira fez oitenta anos. Havia quase manifestações populares, nas homenagens que fizeram a ele. Mas você acha que aquele pessoal algum dia leu Manuel Bandeira?".

- O senhor se considera, então, o quê? Um poeta popular ou um poeta conhecido? O senhor é conhecidíssimo, mas deve achar que só conhecem o nome João Cabral, não a obra ...

João Cabral: "É difícil dizer. O êxito teatral de "Morte e Vida Severina" é que tornou o meu nome conhecido. Mas não creio que minha poesia seja popular".

- O senhor sempre diz que não gosta de fazer poesia dada a emoções porque o que se chama comumente de emoção é algo feito à base de um sentimentalismo fácil e barato. O senhor diz, pelo contrário, que "emoção é outra coisa". Mas nunca ficou exatamente clara a definição que o senhor tem de "emoção". Dá para explicar - de uma vez por todas?

João Cabral: "Minha definição de emoção não é nada de especial. É o que todos chamam de "emoção". O que acontece é que me recuso a explorar essa coisa diretamente. O interesse do poeta não é descrever suas emoções e criar emoções, é criar um objeto - se é poeta, um poema; se é pintor, um quadro - que provoque - emoções no espectador. Mas não explorar nem descrever a própria emoção. Quando digo que sou contra emoção é exatamente neste sentido: o de usar a minha emoção para fazer com ela uma obra, descrevê-Ia primariamente e construir, com ela, um poema".

- Quer dizer, afinal, que o senhor não é exatamente contra a emoção: é contra a exploração da emoção...

João Cabral: "Exatamente! (Faz ar de alívio, como se a charada estivesse resol- vida). Quanto a esse descrever da emoção e da sentimentalidade, a grande maioria da poesia que se escreve no mundo é assim. A obrigação do poeta, repito, é criar um objeto, um poema, que seja capaz de provocar emoção no leitor".

- O que é que o senhor chama de "emoção intelectual"? Já vi o senhor usando esta expressão..:

João Cabral: "Um grande crítico americano uma vez disse o seguinte de uma poetisa americana, Edna Miller: que ele não gostava da poesia que ela fazia porque não tinha interesse intelectual. É nesse sentido que eu digo. Você pode ver perfeitamente quais são os escritores que têm um interesse intelectual e quais são os que não têm. Confesso que o escritor que não tem interesse intelectual não me interessa.

A mim, me interessa enormemente a poesia de Joaquim Cardozo, mas nunca me interessou a poesia de Emílio Moura - de Minas Gerais. Eu sinto que não tinha interesse intelectual. Não só a poesia de Emílio Moura, mas a grande maioria dos poetas brasileiros. Aliás, dos poetas brasileiros, não, mas do que se chama no mundo todo de poesia. Um homem de mediana inteligência não vê interesse intelectual naquilo. Tenho a impressão de que pode ser um defeito meu. Mas confesso. A atividade intelectual é uma coisa que seduz. Vivo para ela. Quando leio um poeta que só é capaz de provocar essas emoções correntes, como saudade, melancolia ou tristeza, essa coisa não me interessa. Ora, se tenho minhas emoções, para que vou buscar emoções semelhantes numa outra coisa?".

- Quando o senhor se auto-intitula um "poeta artificial", o senhor se refere ao trabalho quase artesanal que tem com a poesia?

João Cabral: "Não apenas. Os assuntos que uso na poesia são "tirados pelos cabelos", como se diz. Fiz um poema sobre o ato de catar feijão. Você não imagina Alfonso de Guimarães, o pai, grande simbolista, fazendo um poema sobre o ato de catar feijão..."

O resultado poético do trabalho do senhor é obviamente sofisticado, sob o ponto de vista intelectual. Isso contradiz a intenção de fazer uma coisa simples? A que é que o senhor atribui esta defasagem entre a intenção de fazer uma coisa simples e o resultado - que é indiscutivelmente sofisticado?

João Cabral: "A coisa simples que quero não é fazer uma coisa boboca. O simples que almejo é chegar a uma forma que os outros entendam. Consigo raramente. e difícil traduzir as coisas de que falo de uma maneira acessível a todo mundo. Minha luta é esta: tentar botar uma coisa mais complexa numa linguagem mais simples possível. Confesso que geralmente eu fracasso".

"Minha luta é tentar botar coisas complexas numa linguagem simples.
Geralmente, fracasso"