25/10/2011
14/11/2010
Saldo Negativo, por Fernando Correia Pina
Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu
que amputar uma perna, a frio, de um africano.
Passa mais fome um francês com três refeições por dia
que um sudanês com um rato por semana.
que um indiano com lepra.
Sofre muito mais uma americana com caspa
que uma iraquiana sem leite para os filhos.
que roubar o pão da boca de um tailandês.
É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça
que queimar uma floresta inteira no Brasil.
que o drama de mil desempregados em Espanha.
É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco
que a de água potável em dez aldeias do Sudão.
que a de insulina nas Honduras.
É mais revoltante um português sem celular
que um moçambicano sem livros para estudar.
que a demolição de um lar na Palestina.
que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês
numa conta sem provisão do Ocidente.
Fernando Correia Pina, poeta português.
04/07/2010
Frase que despercebida passa
e fica, enquanto se caminha a passos leves De rua molhada que seca na brisa Do arrepio do corpo de chão de piche Da atenção a ti que passas, que voltas e que a passar retornará no semblante Esquecido da face que anda e vai No rumo do andar em ritmo de gotas trôpegas No suor que a chuva dá no chão da rua quando cai.
Frase que despercebida passa...
vem que eu vou indo até o esquecimento Que me lembrará de ti a ecoar em mim As falas de seus substratos mais eloquentes e gélidos De sol de frio que arde na tempestade que beija os lábios Transeuntes do corpo que segue escorrendo partículas de ar De tempo veloz num olho e no outro lento.
Frase que despercebida passa...
perco-lhe a hora no intervalo da minha atenção Quando ocupada com o vão das coisas ordinárias ela fica e me trava Os sentidos que arremesso nas fossas que beiram às bordas dos caminhos que sigo Nem cego nem surdo mas quase mudo de lado na rua Que meus pés pisam a busca de andarem sempre.
Emulação do Elixir
É bela a chuva que cai, agora, por sobre a natureza morta.
A rua o barro é o mais vivo no calcanhar que paira à porta.
Mas cadê as flores que não brotam nas rochas da estima?!
E o olhar olha a vida... às visões de mundo... Que lástima!
Qualquer merda de sonho, se não é matéria, é devaneio!
- Bate à porta, monte de estrume! Faz da alma, do peito, frito cortume! O teu lume inteiro te carregará lá pro meio da bosta em que há de atolar toda esperança que se a ter tu te acostumes!
- Vem jantar... Como queiras, à mesa ou ao chão.
- Dispenso todas as falas, e elas me dispensam igualmente.
Ah!, perda de tempo, que tua glória torne a tudo pó a emular o elixir da vida!
14/06/2010
07/03/2010
Poema de quem vai

Por hora é bom se animar.
Passa o tempo, a vida a cantar.
Na hora do gozo, é riso que não cabe,
nem caberá, enfim, no maior esplendor
Cantar as canções que se hão de amar
– que o canto da vida, é vasto, é rir-chorar.
Será que será, que se vai pra ver.
Oxalá!, que se vá, nem que pra ir se for parar.
Vai que vai, que se vai pra passar.
E se for, que se vá o amor de convir(ver),
que querer é o que mais falta
Na alma que para ir se vai de graça
– sobra Veio naquele que chora, tanta graça!
* Poema para Pedro Inácio,
nosso amigo,
Mestre desde antes de o ser academicamente.
** Arte da foto: Tiago Acioli Peixoto.
25/09/2009
Joca na lona
Escondido da vida, Joca bebe cachaça.
Parado ao largo, seu carro de lixo repousa
- Recicla os minutos que perder, Joca não ousa.
Para Joca, fortuna foi parar na bala
Solene (que acompanhou o gole) em sua cara.
E o mundo de Joca escorreu com o sangue e a cachaça
- Para alívio da dor que quase nunca passa.
22/09/2009
Na rua da Amargura
Canta-se loas à dor, no bar da rua.
E como são sorrisos aqueles olhos de bocas tristes!
Certa vez, um ébrio madruguêro
Disse que antes do bar,
Na rua da Amargura tinha um galinheiro...
E volta e meia passava alguém que ficava.
Na casa de Amargô
19/08/2009
Interlúdio do Papangústia
Não, não é.
Será que quando vir a se ser, será?
Vai-te, que me fico no vão!
No delírio oco do meu não
É que teu sim entra assim:
Por um ouvido e sai pelo outro,
Olvido.
11/06/2009
Simplório
Polifonia de si
Estando naquele instante em dois lugares (ao mesmo tempo) em pseudo-observações distantes...Na janela eu fumava pra não conseguir dormir
Ao outro olhava consequente
Desconhecendo a real realidade:
Como seriam aquelas paragens?
O que havia em tais arrabaldes?
A noite demora a findar,
Há de ter nada por lá.
Pelo ocaso da hora
Só vai me restar ir embora.
É justamente Nada
Que se há de considerar;
Por ser o Demiurgo dos acontecimentos;
Só ele, o Nada, possibilita coisas serem:
Investigações labirínticas
Em um universo só devir.
Doravante,
Devia eu ir,
Devido à hora do devir,
Que já me dera nos limites!
Mas minha máscara não cai
Ou melhor, cai na cara do Eu
Lá em baixo da janela
Que olho o Eu que fuma
Na janela
Um trago; um suspiro...
À rua pela qual passara
O poste no lado oposto
A sombra do mesmo poste
Iluminando o mundo
Fez que me lembrasse
Do vizinho morto;
Do emprego
Da luz das luzes; e da
Deusa da luz: a Celpe;
Meus bigodes já não podem ser os mesmos...
(...?...)
Ao passar pela claridade minh’alma esteve...
Teve... Leve...
Com a alta música que tocava ao longo da rua
Causando-me impressionante impressão
De avistar imensa multidão.
O silêncio projeta ecos dentro de si
Causantes de um assombro-de-poço:
Vazio.
E Si
Dentro de Si
Aonde habita na fumaça?
Na sombra?
A sombra do corpo sob a...
Sombra do poste
Projetada na parede
Aludiu a um Outro perverso:
O desconhecido.
Um e outro, em confronto de sombras,
Conjeturaram as mais ébrias lombras
Acerca da tensão de um confronto
Verbal.
O silêncio mantenedor do mister mistério
Assombrara as sombras etéreas,
Cujas máscaras reluzentes
Caíram uma por sobre a outra
Sem mais saber onde começa uma
E acaba a outra
* Tela: Metamorfose de Narciso - Salvador Dali.
13/04/2009
Sexta cinza e santa
A alma, como papel, se desfaz. Dissolve-se em pequenas fatias de cinza
- Em uma cinza sexta santa.
Ao largo, toda alegria espreita a melancolia
- À revelia da alma fria que assa
Taciturno, passa o dia que não houve dia, senão
Nestes dias sem sol a solidão assola.
Triturei-me as carnes da alma, em um moedor
06/04/2009
Das dobras e das obras
As dobras das ondas,
As dobras das obras,
E todas as dobras
Que dobram todas as coisas.
Os espaços dobram,
Como dobram as dobras dos quadrículos,
As dobras das sobras,
Que se dobram
E se redobram.
As obras dobram,
E dobram as possibilidades
De novas dobras,
Infinitas dobras,
Dobras sobre dobras
Que multiplicam as sobras
Que já inteiras
Nunca
Hão
De
Faltar às curvas.
Obra sobre obra, dobra sobre dobra:
O dobro do que sobra vezes o dobro do que falta:
Nada falta, nada sobra:
Dobra sobre dobra
Obra sobre obra.
* Desenho de Iara Sales.
** Acesse o Flickr de Iara Sales:
http://www.flickr.com/photos/iarasales
23/03/2009
O último Grão-de Era
O homem da Ampulheta.
As paredes de vidro
Eram lisas como lodo
- Escorregafrias...
Tudo era estanque
Naquele "ir"...
Que ia sem vir.
Vagarosamente partia.
Mas, era só aparente,
Pois veloz era.
Foi. Pra baixo, foi.
Inevitalvelmente iria...
- Como persona das Eras.
Despejou-se por cima
De toda matéria insólita de baixo,
Que eram todas as Eras que já eram.
Que foram pra baixo.
Que, inevitavelmente, foram.
Pois o destino é ir.
E, esperaram a mão benevolente
Que entornaria a ampulheta;
Mas, esperaram em vão, as Eras.
Em vez de mãos, caíram pés.
Os pés daquele homem
Que deslizara...
Que deslizara inerte,
Indiferente às eras que pisava,
No seu desejo impávido de voltar!
Indiferente ao que havia embaixo,
Olhava desejoso pra cima...
E via o último Grão-de-Era, que vinha...
Que caía...
E o homem da Ampulheta
Bêbado de angústia, atirava pra cima,
Em vão, aquele último grão
Que tornava a cair...
E subir...
E cair...
E subir...
E cair...
08/03/2009
Poética da chuva
10/02/2009
O violinista da rua do Bar Central
A alegria dos homens
É o Violinista da rua...
Que toca Bach entre as mesas do bar.
Toca afetos, entre os desafetos do bar;
Entre os olhares translúcidos
Dos ouvidos lúcidos do ar.
E, mesmo nos ouvidos pouco lúcidos,
Olvidados de qualquer afeto,
Soa, nesse ar, a transposição do século.
Os séculos que foram olvidados não sentiram
O mínimo
Do afeto
Do instante
Do vibrato
Intenso
Do Violinista da rua do Bar Central.
RoLeTra RuSSa
De todas as cores,
Tipos,
Tamanhos.
Um sonho dos mais entranhos,
No qual,
Letras com seus fenótipos
De pessoas
Caminhavam
Desordenadas
- Como bólides
Desgovernadas.
As conjurações mais assonhombrosas
Eram formadas
Aleatoriamente
- Como uma Roleta Russa
Semântica.
14/01/2009
Nem mais, nem menos
Séculos e séculos de melhoramentos
E, onde fomos parar?
Fomos parando...
Ir-se sem alvos supremos
É o supremo desejo
Daqueles que não desejam
Desejos-Supremos.
E, os melhoradores da humanidade
Continuam mediocrizando
os medianos desejos.
E as Grandezas se apequenam,
Plenas de estanques.
Um imenso mais ou menos
Que não contenta nem o Mais nem o Menos...
Poema Frustrado
Quando, intenso, em verdade,
Tudo quer transbordar...
O gozo que estanca na beira do jorro;
O cigarro que apaga na hora do trago
Do penúltimo gole da cerveja
Do copo que caiu e quebrou.
E, a morte
(o vitalício fim),
Comunga com o Espírito do Sim!
O requerido ou ressentido
Enfim,
que assombroso
ou desejoso
É
e não
É.





