04/12/2008

Entre o Celo e a Tela

Entre o Celo e a Tela,
O céu e a terra se (como) movem...
Paira, translúcido, o olhar-de-ouvido
Dolorido e Colorido que
Agiganta a pequenez de quem,
Em letras, imprime impressões-de-Tez.

É no silêncio que silencia o sereno;
Desvendando em tom-de-cores,
O tom da música-inimaginável.
Insondável é Sondado o som.
Sua ausência assombra...
À espreita, que acorde ataca?

Ata-se, num gesto, o sono
Da angústia-de-poeta-profundo
Que penetra o ébrio instante da Criação.
Com mil braços cria a mão-frenética!
Asceta do ascetismo servil:
Assim se olvida a vida vil.

No Som-das-Cores, a Arte dança.
Tem Dó de Si, este poeta-Bemol
Que ao Sol se encanta...
Entre o Olho e a Obra,
No ouvido sobra a Sombra-invisível

Do Pincel-batuta que rege-em-Traços...

No tempero da Orquestra-Braços
Tem, pelo menos, mil Laços
O destempero insólito do Celo-Solo.
Ledo engano-de-poeta-Cego-Surdo...
Solo é o poeta-Solitário,
Que desenha no imaginário

O Tom-de-Acordes ao Som-de-Cores


______________________

* Poema-ensaio inspirado e dedicado à tela do pintor Roberto Ploeg, "O Violoncelista" (Óleo sobre tela, 120 x 105).

14/11/2008

A Genialidade da Multidão

Há bastante deslealdade, ódio,
violência,
Absurdo no ser humano
comum
Para suprir qualquer exército em qualquer
dia.
E O Melhor No Assassinato São Aqueles
Que Pregam Contra Ele.
E O Melhor No Ódio São Aqueles
Que Pregam AMOR
E O MELHOR NA GUERRA
--FINALMENTE--SÃO AQUELES QUE
PREGAM
PAZ

Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles Que Pregam PAZ
Não têm paz.
AQUELES QUE PREGAM AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidados com os Sabedores.

Cuidado
Com Aqueles Que
Estão SEMPRE
LENDO
LIVROS

Cuidado Com Aqueles Que Detestam
Pobreza Ou Que São Orgulhosos Dela

CUIDADO Com Aqueles Que Elogiam Fácil
Porque Eles Precisam De ELOGIOS De Volta

CUIDADO Com Aqueles Que Censuram Fácil:
Eles Têm Medo Daquilo Que
Não Conhecem

Cuidado Com Aqueles Que Procuram Constantes
Multidões; Eles Não São Nada
Sozinhos

Cuidado
Com O Homem Comum
Com A Mulher Comum
CUIDADO Com O Amor Deles

O Amor Deles É Comum, Procura
O Comum
Mas Há Genialidade Em Seu Ódio
Há Bastante Genialidade Em Seu
Ódio Para Matar Você, Para Matar
Qualquer Um.

Sem Esperar Solidão
Sem Entender Solidão
Eles Tentarão Destruir
Qualquer Coisa
Que Seja Diferente
Deles Mesmos

Incapazes
De Criar Arte
Eles Não Irão
Compreender Arte

Eles Vão Considerar Sua Falha
Como Criadores
Apenas Como Uma Falha
Do Mundo

Incapazes De Amar Completamente
Eles Vão ACREDITAR Que Seu Amor É
Incompleto
E ELES VÃO ODIAR
VOCÊ

E Seu Ódio Será Perfeito
Como Um Diamante Brilhante
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta

Sua Mais Fina
ARTE

* Poema de Charles Bukowski

23/10/2008

Na Plenitude da Metade


Eu te vi, Século meu!
E, te olhei profundamente...
Olhei-te das aparências às entranhas.
E, senti que te olhar era inútil
– Que nada poderia fazer.

Nem falar, nem tocar, nem gritar-te:
Aonde vais?

Percebi que tu ias mal, Século meu...
Que as coisas em ti não se moviam,
Ao mesmo tempo em que não paravam
Nunca!

Tuas velocidades escondem tuas lerdezas.
E, tu bem gostas, Século meu...
Brincas com cores,
Como velhos com dissabores.

Vejo-te dançar de mãos atadas e olhos vendados
– Mas, sei: tu tens hábeis pés e ouvidos prendados.

Habitas uma redoma, Século meu!
E, ela é de límpido cristal.
Poucos olhos podem vislumbrá-la,
Assim como poucos dedos ousam-te tocar.

Tu definhas
(Não parece, mas tu cais...)

Aonde vais, Século Meu?

17/10/2008

...

"um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lórca um éluard um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores"


"quatro dias sem te ver

e não mudaste nada
falta açúcar na limonada
me perdi da minha namorada
nadei nadei e não dei em nada
sempre o mesmo poeta de bosta
perdendo tempo com a humanidade"

* Pedaços de P. Leminski

11/10/2008

A fome de dias depois

Aquele ser não tinha nome. Nem números. Ouvira certa vez um nome, que já lhe parecia, agora, algo estranho e irreconhecível. De um reconhecimento breve e distante, que não sabia identificar ao certo de onde provinha. Tudo lhe era estranho.

Comia restos quando restava algo nos tambores de plástico que repousavam gordos nos magros asfaltos. Dia a dia, mais menos restos lhe restava. Sobravam-lhe as faltas de resto, que devorava como se fossem belos pratos nobres. Não distinguia gostos, pois os deuses lhe subtraíram as faculdades do paladar.

Sua sorte é que lhe restavam as pernas (apesar de só possuir um braço e meio). Embora magras, serviam-lhes para seu único objetivo: andar em busca de restos de pedaços.

E assim passavam seus dias trôpegos.

Quando, porém, viu-se na metrópole dos desertos, ele já não encontrava nem pedaços de restos. Menos e menos tambores de restos lhe cruzavam o caminho. Sedento de fome (que lhe era o único motor de sua existência), ele caminhava.

E caminhava, caminhava...

Já não tinha resto com que se deleitar. Sobravam-lhe todas as faltas de pedaços. Na falta plena, passou a comer seus próprios produtos: as fezes.

Porém, a cada dia obrava menos. Passou, então, a armazenar os excedentes de sua produção. Estocava-os para comer sempre que sentisse fome. E comia embuído com muita dignidade aquela pasta marrom que acumulava em sacos plásticos envelhecidos pelo calor e pelo tempo.

No entanto, percebeu que a cada dia sua produção diminuía mais e mais. Lembrara-se da única vez que haviam lhe ensinado alguma coisa. Lembrava, ainda que vagamente, uma frase:

"Seus órgãos consomem seus alimentos."

Não sabia ao certo o que eram órgãos. Mas, sabia que essas coisas estavam dentro de seu corpo. Elaborou, entredentes, um plano, chegando à uma conclusão:

"Ou acabo com esses malditos órgãos, ou eles acabam com meus alimentos."

E, assim, detalhou seu plano riscando desenhos no chão das areias-de-seu-deserto.

Assim, iniciou seu plano, rasgando a barriga e retirando pedaços de carne (que sangravam muito). Fora juntando esses pedaços enquanto retirava outros mais. Ao fim do processo, estava tonto e com fome.

Recostou as carnes da barriga, e envolveu-as com um pano velho e sujo que havia preparado especialmente para aquela ocasião.

Ao fim, deitou para descansar um pouco. Minutos depois, acordou, e sentia muita fome. Vendo todas aquelas suculentas carnes que repousavam ainda quentes ao seu lado, devorou-as como nunca antes havia se deleitado...

No dia seguinte, percebeu que de fato sua massa fecal havia aumentado. Percebeu que seu idéia tinha sido genial, e dado mais do que certo.

Passou alguns dias sem andar, pois estava muito fraco. Mas, logo se sentiu revigorado - e obrando como nunca. Jamais tivera banquetes tão ricos.

Ele regressou de seu deserto, para ter com os outros seres. Sua aparência nunca fora das melhores. Agora, então, estava pior que nunca. Envelhecera rapidamente. No seu trajeto, retornando do seu deserto, não encontrara nenhum'alma viva - que dirá corpos...

Desfaleceu-se pouco a pouco, nas bordas de seu deserto. Avistara entre o sol e a sombra, um corpo de homem. Era semelhante a um componente de algum órgão do ministério, pois vestia farda, e estampava um brilhante crachá...

Tal homem, possesso que estava de piedade, resolveu dar cabo no sofrimento que supunha ser o daquele ser, aplicando-lhe golpes certeiros em sua cabeça, com um porrete de pau enorme - em nome de Deus.

Dias depois, estavam alguns outros seres a devorar aquele corpo-sem-órgãos.

O Capitão Fracasso

"Entretanto, se não agarrasse com unhas e dentes tal ocasião, provavelmente nunca lhe ocorreria outra semelhante. Afinal de contas, era nada mais nada menos que o sonho de sua vida."

* Pedaço de "O Capitão Fracasso", de Téophile Gautier. Obs: livro que abdiquei a leitura aos 15 anos; e, agora, resolvi ler - não por destino, nem por acaso...

30/09/2008

30 de setembro de 1888: 1º dia da Nova Era

Por Sr. Anísio
Extraído em (A)berração

Hoje, exatamente, estamos há cento e vinte anos (contados, ainda no falso calendário cristão) que Friedrich Wilhelm Nietzsche declarou o primeiro dia do novo calendário: “O resto nasce a partir daqui”, encerra o último mandamento das novas tábuas.

Não sem uma gota de tristeza olho o retrato morto do poeta; leio sua vivíssima poesia, mais ainda, mais além. nem poeta, nem filósofo, nem filólogo, nem homem, além, mais ainda, mais além.

Entretanto, gostaria de poder falar a ti, meu caríssimo, e, em vez de dar-te boas novas, não, ao contrário, só temos más velhas a contar. a humanidade comportou-se exatamente como teus pesadelos piores não podiam imaginar, o desinteresse da ciência desceu ao senso comum e criou o jornalismo; a moral de rebanho (essa já não tinha aonde descer) infectou o resto da sociedade e no cerne da “opinião”, da “pluralidade”, do “respeito ao próximo”, constrange absolutamente tudo que não lhe é espelho: imagem morta e monótona repetida, e repetida.

O teu Sim! o Grande Sim, hoje, cada vez mais raro, rarefeito e a vida escorre e esparrama-se nas entrelinhas de palavras velhas e desgastadas. comprimida entre máquinas que de longe parecem pessoas, e pessoas que de perto parecem máquinas...

O Grande Sim, o teu sorriso caríssimo ecoa de alturas inimagináveis, o teu zombeteiro Zaratustra, o teu disangelium... Há, mil infernos! como é difícil dizer sim hoje, é difícil saber o que é a vida mesma, pois, ela vive em brechas estreitíssimas, provavelmente invisíveis ao olho – sempre nu e despreparado a ver o que não sabe.

Celebra-se hoje, cento e vinte anos depois, ainda a madrugada do segundo dia.
espera-se, impaciente e ruidoso – ainda demasiado próximo do sonho – a aurora do segundo dia:

“Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário).

Comentário meu:
Amanhã, 1 de outubro, começa nosso 2º dia. Evoé!

25/09/2008

Carta aos Reitores das Universidades Européias

“Senhores Reitores,
Na estreita cisterna que os Srs. chamam de “Pensamento”, os raios espirituais apodrecem como palha.

Chega de jogos da linguagem, de artifícios da sintaxe, de prestidigitações com fórmulas, agora é preciso encontrar a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma lei, uma prisão, mas um guia para o Espírito perdido no seu próprio labirinto.

Além daquilo que a ciência jamais conseguirá alcançar, lá onde os feixes da razão se partem contra as nuvens, existe esse labirinto, núcleo central para o qual convergem todas as forças do ser, as nervuras últimas do Espírito.

Nesse dédalo de muralhas móveis e sempre removidas, fora de todas as formas conhecidas do pensamento, nosso Espírito se agita, espreitando seus movimentos mais secretos e espontâneos, aqueles com um caráter de revelação, essa ária vinda de longe, caída do céu.

Mas a raça dos profetas extinguiu-se. A Europa cristaliza-se, mumifica-se lentamente sob as ataduras das suas fronteiras, das suas fábricas, dos seus tribunais, das suas universidades. O Espírito congelado racha entre lâminas minerais que se estreitam ao seu redor.

A culpa é dos vossos sistemas embolorados, vossa lógica de 2 mais 2 fazem 4; a culpa é vossa, Reitores presos no laço dos silogismos. Os Srs. fabricam engenheiros, magistrados, médicos aos quais escapam os verdadeiros mistérios do corpo, as leis cósmicas do ser, falsos sábios, cegos para o além-terra, filósofos com a pretensão de reconstituir o Espírito. O menor ato de criação espontânea e um mundo mais complexo e revelador que qualquer metafísica.

Deixem-nos pois, os Senhores nada mais são que usurpadores. Com que direito pretendem canalizar a inteligência, dar diplomas ao Espírito?

Os Senhores nada sabem do Espírito, ignoram suas ramificações mais ocultas e essenciais, essas pegadas fósseis tão próximas das nossas próprias origens, rastros que às vezes conseguimos reconstituir sobre as mais obscuras jazidas dos nossos cérebros.

Em nome da vossa própria lógica, voz dizemos: a vida fede, Senhores. Olhem para seus rostos, considerem seus produtos. Pelo crivo dos vossos diplomas passa uma juventude abatida, perdida.

Os Senhores são a chaga do mundo e tanto melhor para o mundo, mas que ele se acredite um pouco menos à frente da humanidade.”


Esta Carta foi excrita por Antonin Artaud.

21/09/2008

Das Mulheres e das Flores

Ah! se mulheres fossem flores!
Mas, não são...

Seriam mais espinhos se menos flores fossem?
Mas, se nem espinhos nem flores,
Com quantas dores
Se conquista uma mulher?

Seriam vós, mulheres, de toda em todas
Amores?
Ou há em vós mais paredes,
Ainda,
D'onde brotam muito mais
Orquídeas?

Em teus cadafalsos
Empunhais
Afiados punhais,
Nos quais demasiados
Pescoços cortais?


E, em quantos pescoços
Não cravejam espinhos?
Pescoços serão como talos
de Rosas-Espinhudas?

Ou serão os pescoços fragéis como homens culpados,
Nos quais despejais tuas sangüinolentas
Punhaladas verborrágicas?

Há, nas Gargantas, nós,
Como há espinhos em vós.


Mas de espinhos só se espera
Perfurações de supefície;
Breves arranhões...

Mais densos e profundos são os cortes

Dos Floristas
Que te doam flores Mortas.

Vós apreciais buquês de mil mortas Flores
Doadas com mil versos copiados
E anexados em cartões comprados
Na papelaria do burguês?


Ou apreciar-te-ias a ti mesmo
Na altivez desses buquês...
Como te aprecias deveras frente ao espelho,
Crendo ser, das flores, a mais
(Segunda mais...) Bela,
Quando passas espinhos de plástico
Por entre as madeixas,
Enquanto as bochechas
Se roseam de Blush-cor-de-rosa-vaidade?

Ah! se mulheres fossem flores!
Mas, não são...
E, isso é ventura!

03/09/2008

VouAndo

Sim. Dormi na calçada.
Na calçada da tua cama.
Nas franjas da tua alçada,
Acordei.

Dei por mim e nada.
Restava apenas meu caco.
Meu pedaço de pedaço.
Levantei.

Hei de partir calado?
Sem verdes?
Nem azuis.
Mas fui - parado...

Sim. Parti de ti.
Sem sair daqui,
Fui para lá:
Insólito.

Meu delito foi pensar.
Pouco fiz.
Tanto faz.
O que foi, foi sem ser.
Sei que não sou,
Sempre estando.
Parado, ando.

E vou...

E ando.
Parado estando
Sempre sou.
Não que sei ser sem.
Foi.
Foi que o faz tanto.
Fiz pouco pensar
- foi delito meu.

E vou...