Outro artista latino americano que gostaria de apresentar a vocês é o mexicano José Clemente Orozco (1883–1949). Junto com Diego Rivera e Davi Alfaro Siqueiros (em outras oportunidades farei também apresentações dos dois primeiros), Orozco faz parte do rol de muralistas do México. Vamos ver algumas obras de Orozco.
Deuses do mundo moderno
Retrato de Miguel Hidalgo
Cristo destruindo sua cruz
Cortez e a Cruz
Prometeu
A figura de Quetzalcoatl
Pra quem quiser conhecer outras obras de Orozco, recomendo o link abaixo:
"O fantástico é a indicação súbita que, à margem das leis aristotélicas e da nossa mente racional, existem mecanismos perfeitamente válidos, que nosso cérebro lógico não capta".
Progresso e retrocesso
Inventaram um vidro que deixava passar as moscas. A mosca chegava, empurrava um pouco com a cabeça e pop, já estava do outro lado. Enorme, a alegria da mosca.
Tudo foi estragado por um sábio húngaro, quando descobriu que a mosca podia entrar mas não podia sair, ou vice-versa, por causa de quem sabe lá que besteira na flexibilidade das fibras daquele vidro que era muito fibroso. Em seguida inventaram o caça-moscas com um torrão de açúcar dentro, e muitas moscas morriam desesperadas. Assim acabou toda confraternização possível com estes animais dignos de melhor sorte.
O esmagamento das gotas
Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que a esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore.
Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada de cair e aniquilar-se. Tristes gotas, redondas inocentes gotas. Adeus gotas. Adeus.
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* Pedaço do livro "Histórias de Cronópios e de famas", do escritor Julio Cortázar. Pra quem não conhece, aí vai um pouco sobre Cortázar:
Filho de pai diplomata, Julio Cortázar nasceu por acaso em Bruxelas, no ano de 1914. Com quatro anos de idade foi para a Argentina. Com a separação de seus pais, o escritor foi criado pela mãe, uma tia e uma avó. C
Com o título de professor normal em Letras, iniciou seus estudos na Faculdade de Filosofia e Letras, que teve que abandonar logo em seguida, por problemas financeiros. Para poder viver, deu aulas e diversos colégios do interior daquele país. Por não concordar com a ditadura vigente na Argentina, mudou-se para Paris, em 1951.
Autor de contos considerados como os mais perfeitos no gênero, podemos citar entre suas obras mais reconhecidas “Bestiário” (1951), “Las armas secretas” (1959), ), “Rayuela”, (1963), “Todos los fuegos el fuego” (1966), “Ultimo round” (1969), “Octaedro” (1974), “Pameos y Meopas” (1971), “Queremos tanto a Glenda (1980) e “Salvo el crepúsculo” – póstumo (1984). O escritor morreu em Paris, de leucemia, em 1984.
Essa América Latina... Bora descobrir mais algumas coisas sobre as artes em nosso continente? Dessa vez, trago pra vocês algumas imagens do argentino Antônio Berni. Berni nasceu em 1905, na cidade de Rosário, vindo a falecer em Buenos Aires, em 1981. Se vivo estivesse, estaria completando 104 anos neste dia 14 de maio. Berni foi pintor, gravador, muralista, ilustrador.
Vamos ver algumas obras dele, e no final, dois vídeos.
Cristo en el garage
Las modelos
El gran mundo
Chacareros
Desocupados
Manifestación
La siesta
Juanito Laguna (xilocolagem)
Juanito con pescado (xilografia)
Juanito Laguna... Vale a pena saber mais um pouco sobre esta figura arquetípica criada por Antonio Berni.
Assistam aos vídeos pra saber mais sobre Berni e Juanito.
Olhem este outro vídeo também, sobre a criação de Juanito.
Conheçam mais obras de Antonio Berni, clicando aqui.
A América Latina produz umas coisasque os latinoamericanos não poderiam imaginar... O camarada da foto acima é Oswaldo Guayasamín. Creio que não sejam muitas as pessoas que já ouviram falar dele. Nasceu no dia 6 de julho de 1919, na cidade de Quito, no Equador (Como diz aquela marchinha: "A capital do Equador é sempre Quito". Eita que essa fonética cacofônica brasileira é uma pilantrinha... Guayasamín morreu em 10 de março (aniversário de Pacheco, o velho) de 1979. Mas então. Mãos expressionantemente ossudas. Figuras cadavéricas. Rostidades profundas e sinistras. Olhos que pairam sobre as órbitas. Bocas flamejantes. Esse cara tem umas obras que vou vos mostrar...
Quito de la nube negra
Flores secas
El Dolor
É só olhar. Não preciso escrever coisas sobre a imagem.
Melhor mostrar outras, não? Lá se vão. Beruño
Depois de Beruño a gente pode começar a ver algumas das mais dramáticas de Guayasamín... São muitas; e densas. A série 'Las manos', da coleção "La Edad de la Ira", são muito expressionantes. Las manos del mendigo
Las manos del Terror
Las manos de la protesta
Las manos del silencio
Las manos insaciables
Mais uma?
Arrastre
Agora, o caminho das pedras... Descubram mais de Guayasamín por vos mesmos. Podem visitar o site do artista. O link é o seguinte: http://www.guayasamin.com/pages/index.html Podem também dar uma pesquisada no google imagens. Mas não precisam buscar. Já fiz isso pra vosmecês... Clicai-vos no link - mais de Oswaldo Guayasamín.
Achei este vídeo sobre Guayasamín no youtube. Vale a pena assistir.
Bem, a questão é que eu soube hoje que ele anda um tanto doente. Eu também estou adoentado esta semana, mas é uma simples gripe (não a suína!). Porém, esqueçamos a mim, um poeta de fraudas, e pensemos em Benedetti.
Lendo, há pouco, O Caderno de Saramago - leitura quase diária e obrigatória pra mim - descobri que Mário não vai muito bem da saúde.
Uns versos cativantes de Benedetti:
Síndrome
Todavía tengo casi todos mis dientes casi todos mis cabellos y poquísimas canas puedo hacer y deshacer el amor trepar una escalera de dos en dos y correr cuarenta metros detrás del ómnibus o sea que no debería sentirme viejo pero el grave problema es que antes no me fijaba en estos detalles.
Cometo o infame gesto de traduzir um poema:
Ainda tenho quase todos os meus dentes quase todos os meus cabelos e poucos grisalhos posso fazer e desfazer o amor subir uma escada de dois em dois e correr quarenta metros atrás do ônibus por isso não deveria me sentir velho mas o problema grave é que antigamente não me apegava a estes detalhes.
Outro que gosto bastante é "Si dios fuera una mujer".
Este me recuso a traduzir. Leiam na língua dele os primeiros e últimos versos: Si Dios fuera una mujer
¿y si Dios fuera una mujer? -Juan Gelman
¿Y si Dios fuera mujer? pregunta Juan sin inmutarse, vaya, vaya si Dios fuera mujer es posible que agnósticos y ateos no dijéramos no con la cabeza y dijéramos sí con las entrañas.
(...)
Ay Dios mío, Dios mío si hasta siempre y desde siempre fueras una mujer qué lindo escándalo sería, qué venturosa, espléndida, imposible, prodigiosa blasfemia."
No vídeo acima, Dante Bucci toca Fanfare em um Panart Hang, um instrumento musical que possivelmente é mágico, que vocês deveriam conhecer...
Digamos que seja um "instrumento magical".
Fantasticamente mágico, como alguns versos de Jorge Luis Borges, nos Fragmentos de um Evangelho Apócrifo
3. Desventurado o pobre de espírito, porque debaixo da terra será o que agora é na terra. 4. Desventurado o que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto. 5. Ditosos os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória. 6. Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro. 7. Feliz o que não insiste em ter razão, porque ninguém a tem ou todos a têm. 8. Feliz o que perdoa aos outros e o que se perdoa a si mesmo. 9. Bem-aventurados os mansos, porque não condescendem com a discórdia. 10.Bem-aventurados os que não têm fome de justiça, porque sabem que nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável. 11. Bem aventurados os misericordiosos, porque sua felicidade está no exercício da misericórdia e não na esperança de um prêmio. 12. Bem-aventurados os de limpo coração, porque vêm a Deus. 13. Bem-aventurados os que padecem perseguição por causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça que seu destino humano. 14. Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento de sua vida, não o é. 15. Que a luz de uma lâmpada se acenda, embora nenhum homem a veja, Deus a verá. 16. Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e os que os profetas disseram. 17. O que matar pela causa da justiça, ou pela causa que ele crê justiça, não tem culpa. 18. Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem os céus. 19. Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz. 20. Se te ofender tua mão direita, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma e é árduo, ou impossível, fixar a fronteira que os divide... 24. Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao fim de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes. 25. Não jures, porque todo juramento é uma ênfase. 26. Resiste ao mal, mas sem espanto e sem ira. A quem te ferir na face direita, podes oferecer-lhe a outra, sempre que não te mova o temor. 27. Eu não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão. 28. Fazer o bem a teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens. 29. Fazer o bem a teu inimigo é o melhor modo de comprazer tua vaidade. 30. Não acumules ouro na terra, porque o ouro é pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio. 31. Pensa que os outros são justos ou o serão, e se não é assim, não é teu erro. 32. Deus é mais generoso que os homens e os medirá com outra medida. 33. Dá o santo aos cães, deita tuas pérolas aos porcos; o que importa é dar. 34. Busca pelo agrado de buscar, não pelo de encontrar... 39. A porta é a que escolhe, não o homem. 40. Não julgues a árvore por seus frutos nem ao homem por suas obras; podem ser piores ou melhores. 41. Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia, mas nosso dever é edificar como se fora pedra a areia... 47. Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba. 48. Felizes os valentes, os que aceitam com ânimo semelhante a derrota ou as palmas. 49. Felizes os que guardam na memória palavras de Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias. 50. Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor. 51. Felizes os felizes.
Como dobram as dobras da moça, As dobras das ondas, As dobras das obras, E todas as dobras Que dobram todas as coisas.
Os espaços dobram, Como dobram as dobras dos quadrículos, As dobras das sobras, Que se dobram E se redobram.
As obras dobram, E dobram as possibilidades De novas dobras, Infinitas dobras, Dobras sobre dobras Que multiplicam as sobras Que já inteiras Nunca Hão De Faltar às curvas.
Obra sobre obra, dobra sobre dobra: O dobro do que sobra vezes o dobro do que falta: Nada falta, nada sobra: Dobra sobre dobra Obra sobre obra.
“Toda palavra tem sempre um mais-além, sustenta muitas funções envolve muitos sentidos Atrás do que diz um discurso, há o que ele quer dizer e, Atrás do que quer dizer, há ainda um outro querer dizer, e nada será nunca esgotado.”
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* Texto: Lacan.
** Vídeo-clipe: Explosion in the Sky - A Song for our Fathers.
*** Este post foi inspirado no texto de Ordep Inácio p/ o blog Acerto de Contas - clique no link abaixo p/ ler o texto: "Não-só, mais-ainda!"
Fragmentos de um filme de Kurosawa no reflexo de um espelho. Faz uso do material original com as imagens espelhadas num eixo longitudinal, o qual produz uma sequência de novas e associativas imagens.
As personagens são transformadas em novas formas de vida com capacidades miraculosas que desafiam as leis da gravidade.
O impulso do espectador para interpretar a nova representação como uma história é encorajado pela manutenção sutil de resíduos da narrativa de Kurosawa. A música é da autoria de Autechre.