24/04/2010

"The ringing of the division bell had begun"


High Hopes

Beyond the horizon of the place we lived when we were young
In a world of magnets and miracles
Our thoughts strayed constantly and without boundary
The ringing of the division bell had begun

Along the Long Road and on down the Causeway
Do they still meet there by the Cut?

There was a ragged band that followed in our footsteps
Running before times took our dreams away
Leaving the myriad small creatures trying to tie us to the ground
To a life consumed by slow decay

The grass was greener
The light was brighter
When friends surrounded
The nights of wonder

Looking beyond the embers of bridges glowing behind us
To a glimpse of how green it was on the other side
Steps taken forwards but sleepwalking back again
Dragged by the force of some inner tide
At a higher altitude with flag unfurled
We reached the dizzy heights of that dreamed of world

Encumbered forever by desire and ambition
There's a hunger still unsatisfied
Our weary eyes still stray to the horizon
Though down this road we've been so many times

The grass was greener
The light was brighter
The taste was sweeter
The nights of wonder
With friends surrounded
The dawn mist glowing
The water flowing
The endless river

Forever and ever

20/03/2010

"E tome gravata!..."



"Você que só ganha pra juntar
O que é que há, diz pra mim, o que é que há?
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar

Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Pois é, amigo, como se dizia antigamente, o buraco é mais embaixo... E você com todo o seu baú, vai ficar por lá na mais total solidão, pensando à beça que não levou nada do que juntou: só seu terno de cerimônia. Que fossa, hein, meu chapa, que fossa...

Você que não pára pra pensar
Que o tempo é curto e não pára de passar
Você vai ver um dia, que remorso!
Como é bom parar
Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar

Mas você, que esperança... Bolsa, títulos, capital de giro, public relations (e tome gravata!), protocolos, comendas, caviar, champanhe (e tome gravata!), o amor sem paixão, o corpo sem alma, o pensamento sem espírito (e tome gravata!) e lá um belo dia, o enfarte; ou, pior ainda, o psiquiatra...

Você que só faz usufruir
E tem mulher pra usar ou pra exibir
Você vai ver um dia
Em que toca você foi bulir!

A mulher foi feita
Pro amor e pro perdão
Cai nessa não, cai nessa não

Você, por exemplo, está aí com a boneca do seu lado, linda e chiquérrima, crente que é o amo e senhor do material. E é aí que o distinto está muitíssimo enganado. O mais das vezes, ela anda longe, perdida num mundo lírico e confuso, cheio de canções, aventura e magia. E você nem sequer toca a sua alma. É, as mulheres são muito estranhas, muito estranhas...

Você que não gosta de gostar
Pra não sofrer, não sorrir e não chorar
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar!

Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!"


Vinícius de Moraes
Testamento

13/03/2010

Bob Dylan e a música de conteúdo

Uma bela melodia e uma harmonia bem arranjada faz por si uma boa música. Com "The great Gig in the Sky", Pink Floyd crivou, como nenhuma outra banda, que uma bela música pode dispensar letras. Claro que não foi o Floyd quem inventou isso, mas a citação serve como exemplo - e a uso neste sentido.

Evidentemente que uma bela música também pode vir acompanhada de alguma letra, ou mesmo de um derramamento de versos poéticos pouco ou muito compreensíveis, desde que poéticos. Não estou falando de coesão, mas de beleza, e ninguém aqui é tolo o suficiente para acreditar que qualquer beleza precise, necessariamente, ser coesa.

Quando uma bela melodia e uma bem arranjada harmonia combinam-se com uma letra espetacular, o resultado certamente será bom. Como na música abaixo, de Bob Dylan, "Hurricane".



A canção acima combina tudo isso que falei, e saúda o ouvinte com uma grande história - o tal conteúdo do título deste post.

"Hurricane" (furação) era o codinome do boxeador norte-americano, Rubin Carter, nascido no dia 6 de maio de 1937, e preso em 1966, acusado de um triplo homicídio num bar. Ficou encarcerado durante longos 19 anos, e solto posteriormente, no ano de 1985, inocentado.

A prisão destruiu sua brilhante carreira do "Furacão", já que era favorito pra ganhar o cinturão da categoria Peso Médio em 1966, quando marcava seus 29 anos de idade. O contexto, todos sabem, aqueles anos de luta por direito civis, em que se destacaram figuras como Malcom X e Martin Luther King, mesclados às reminiscências podres de branquelos doentes da Ku Klux Klan e seus simpatizantes microfascistas. O "Furacão" viria a receber a congratulação no ano de 1993, quase 30 anos depois de brilhar nos ringues.

A história de "Hurricane" é uma daquelas sagas judiciais de negros norte-americanos, dignas de filme. E ganhou este filme, sendo representado por Denzel Washington no longa The Hurricane.

A música de Bob Dylan é belíssima. Transplanta ao ouvinte uma vibração muito intensa, com momentos que causam arrepios. Não sei se o brilho é da bela melodia, da harmonia bem colocada, ou do rico conteúdo cantado numa letra forte, que traduz a história aguerrida de Rubin "Hurricane" Carter.

Possivelmente o brilho se deve à mágica combinação de todos esses elementos.

Um brinde ao Furacão e a Bob Dylan!

Hurricane
Bob Dylan e Jacques Levy

Tiros de revólver ressoam na noite dentro do bar
entra Patty Valentine vinda do salão superior
ela vê o garçon numa poça de sangue
solta um grito “Meu Deus, mataram todos eles!”
aí vem a história do Furacão
o homem que as autoridades acabaram culpando
por algo que ele nunca fez
colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
em que podia ter sido o campeão mundial

Três corpos deitados ali é o que Patty vê
e outro homem chamado Bello rodeando misteriosamente
“Eu não fiz isso” ele diz e joga os braços pra cima
“Estava só roubando a registradora, espero que você entenda
eu os vi partindo” ele diz e pára
“É melhor um de nós ligar pros tiras”
e assim Patty chama os tiras
e eles chegam na cena com suas luzes vermelhas piscando
na noite quente de New Jersey

Enquanto isso, bem longe, em outra parte da cidade
Rubin Carter e uns dois amigos estão dando algumas voltas de carro
o pretendente número um à coroa dos pesos-médios
não tinha idéia do tipo de merda que estava para baixar
quando um tira o fez parar no acostamento
igualzinho à vez anterior e à outra vez antes dessa
em Paterson é assim mesmo que as coisas rolam
se você é negro, melhor nem aparecer na rua
a não ser que queira atrair uma batida policial

Alfred Bello tinha um parceiro e ele soltou um papo atrás dos tiras
ele e Arthur Dexter Bradley estavam só fazendo uma ronda
ele disse “Vi dois homens sairem correndo, pareciam pesos-médios
pularam dentro de um carro branco com a placa de outro estado”
e a senhorita Patty Valentine apenas assentiu com a cabeça
um tira disse “Esperem um minuto, rapazes, este aqui não está morto”
então o levaram à enfermaria
e embora esse homem mal pudesse enxergar
disseram a ele que podia identificar os culpados

Às 4 da manhã eles arrastam Ruby consigo
o levam para o hospital e o trazem escada cima
o homem ferido olha pra cima através de seu único olho moribundo
diz ” Por que vocês o trouxeram aqui dentro? Não é esse o cara!”
sim, eis aqui a história do Furacão
o homem que as autoridades acabaram culpando
por algo que ele nunca fez
colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
em que podia ter sido o campeão mundial

Quatro meses depois, os guetos estão em chamas
Rubin está na América do Sul, lutando por seu nome
enquanto Arthur Dexter Bradley continua no ramo do assalto
e os tiras estão apertando-o
procurando alguém pra culpar
“Lembra daquele assassinato que aconteceu num bar?”
“Lembra que você disse ter visto o carro fugitivo?”
“Você acha que está a fim de brincar com a lei?”
“Não acha que talvez tenha sido aquele lutador
que você viu correndo pela noite?”
“Não se esqueça de que você é branco”

Arthur Dexter Bradley disse “Não tenho muita certeza”
os tiras disseram “Um rapaz como você precisa de uma folga da polícia
te pegamos por aquele serviço no motel
e agora estamos conversando com seu amigo Bello
agora,você não querter de voltar pra cadeia
seja um sujeito legal
Você estará fazendo um favor a sociedade
aquele filho-da-puta é valente e está ficando cada vez mais
nós queremos botar o rabo dele pra fritar
queremos pregar esse triplo assassinato nele
o cara não é nenhum cavalheiro”

Rubin podia nocautear um cara com apenas um soco
mas nunca gostou muito de falar sobre isso
“É meu trabalho”, diria, “E eu o faço para ser pago
e quando isso termina, prefiro cair fora o mais rápido possível
na direção de algum paraíso
onde riachos de trutas correm e o ar é ótimo
e andar a cavalo ao longo de uma trilha”
Mas aí o levaram para a cadeia
onde tentaram transformar um homem num rato

Todas as cartas de Rubin já estavam marcadas
o julgamento foi um circo de porcos, ele não teve a menor chance
o juiz fez das testemunhas de Rubin bêbados das favelas
e para os brancos que assistiam, ele era um vagabundo revolucionário
e para os negros, apenas mais um crioulo maluco
ninguém duvidava que ele tinha apertado o gatilho
e embora não conseguissem produzir a arma
o promotor público disse que era ele o responsável
e o juri, todos de brancos, concordou

Rubin Carter foi falsamente julgado
o crime foi de assassinato “em primeiro grau”
adivinha quem testemunhou?
Bello e Bradley, e ambos mentiram descaradamente
e os jornais, todos pegaram uma carona nessa onda
como pode a vida de um homem desses
ficar na palma da mão de algum tolo?
Vê-lo obviamente condenado numa armação
não teve outro jeito a não ser me fazer sentir vergonha
de morar numa terra onde a justiça é um jogo

Agora todos os criminosos em seus paletós e gravatas
estão livres para beber martinis e assitir o sol nascer
enquanto Rubin fica sentado como Buda em uma cela de 3 metros
um inocente num inferno vivo
essa é a história do Furacão
mas não terá terminado enquanto não limparem seu nome
e devolverem a ele o tempo que serviu
colocado numa cela de prisão, mas houve um tempo
em que podia ter sido o campeão mundial

12/03/2010

As rosas e o Pavão



Nelson Gonçalves acima, Edinardo abaixo, em plena sexta-feira, depois de duas semanas intensas de trabalheira danada.

07/03/2010

Poema de quem vai


Oxe, menino, que chora.
Por hora é bom se animar.
Passa o tempo, a vida a cantar.

Na hora do gozo, é riso que não cabe,
nem caberá, enfim, no maior esplendor
Cantar as canções que se hão de amar

– que o canto da vida, é vasto, é rir-chorar.

Será que será, que se vai pra ver.
Oxalá!, que se vá, nem que pra ir se for parar.
Vai que vai, que se vai pra passar.

E se for, que se vá o amor de convir(ver),
que querer é o que mais falta
Na alma que para ir se vai de graça

– sobra Veio naquele que chora, tanta graça!


__________________________________


* Poema para Pedro Inácio,
nosso amigo,
Mestre desde antes de o ser academicamente.

** Arte da foto: Tiago Acioli Peixoto.

23/02/2010

Uma escultura que vai pra cima...

Achei a imagem acima no blog A Poção de Panoramix, dos amigos Andrei Barros, Olívia Gomes e Severiano Miranda. Vou reproduzir abaixo o texto do post, antes que o servidor da Poção apronte mais uma daqueles de capitalismo das cavernas com os amigos, e suma com o conteúdo... (muito embora sinta que isso não mais vai acontecer, pois abandonaram, graças aos deuses-dos-bonssensos, o UOLHost - vulgo, "uólhorrost").

"Escadaria para o Paraíso, de Eugenio Merino"


A escultura Escadaria para o paraíso, de Eugenio Merino, foi exposta na ARCO 2010, uma Feira de Arte Contemporânea em Madri. É óbvio que visa a provocar polêmica, colocando, um em cima do outro, religiosos islamita, católico e judeu.

Não me pareceu plasticamente bonita a escultura, mas a idéia é interessante. O escultor, candidamente, diz que visou a representar as religiões no seu desejo da subida ao divino. Explicação boba e dissimulada, a meu ver.

As reações têm sido muitíssimo evidentes. A embaixada de Israel reclamou, associações islâmicas e um e outro sacerdote católicos reclamaram. Era isso que Merino queria, está claro, reações evidentes contra algo que, no fundo, não constitui ofensa alguma. Afinal, esses senhores referem-se todos ao mesmo deus!

Extraído em: http://apocaodepanoramix.com/2010/02/21/escadaria-para-o-paraiso-de-eugenio-merino-2/

21/02/2010

Entre Pirandello e Copérnico

O vídeo acima foi escolhido para acompanhar musicalmente este post. A música é Libertango, de Astor Piazzola, executada pelo violoncelista Yo Yo Ma. Recomendo que se inicie a música junto ao texto transcrito mais abaixo.

Há uns seis meses escrevi um ensaio sobre a quantidade imensa de inutilidades que são escritas por aí, em jornais e, mesmo, na academia. À guisa de tanta inutilidade, aqui neste post vai mais uma – que, ao menos, se pretende descontraída e não sem um pouco de humor e reflexão sobre a nossa posição no Universo.

Possivelmente alguns usarão um dos trechos da citação em mesas de bares, sobretudo o da “boa desculpa para bêbados”, e se o fizerem, tanto melhor, que o post não será de todo inútil – ou, pelo menos, menos inútil que muitas “obras” acadêmicas e jornalísticas que por aí se perde tempo a ler. E, se este post é inútil, no mínimo é um pouco menos por citar uma obra merecedora de atenção, embalada por uma bela música, além de expôr alguma reflexão sobre nós mesmos e nossos costumes.

É que descobri que na sexta-feira, dia 19/02, fez 537 anos que nasceu o astrônomo polonês Nicolau Copérnico, o homem que demonstrou que a terra girava em torno do sol, e que o planeta é redondo. A primeira relação que minha mente colocou em evidência foi o nome do escritor italiano, Luigi Pirandello. Mas o que um teria que ver com o outro? Bem, dentre muitas respostas, a que me soa pertinente, aqui, é uma passagem do livro O falecido Mattia Pascal, do próprio Pirandello.

Segue a passagem, de refinada ironia e profundidade marcante – do autor da também memorável obra Seis personagens à procura de um autor -, no contexto da arrumação que o Padre Elígio Pellegrinotto dava à biblioteca doada pelo Monsenhor Boccamazza ao seu município.

Vale alguns risos e qualquer reflexão para um fim de semana como o que se inicia hoje, sexta-feira, junto ao ano de 2010, que para muitos começa apenas na semana que vem.

“Assim, aos poucos, tomei gosto por esse tipo de leituras. Agora, Padre Elígio diz-me que meu livro deveria seguir o modelo desses que ele vai desencantando na biblioteca, isto é, ter o especial sabor que eles têm. Eu dou de ombros e respondo que não é tarefa para mim. E outra coisa ainda me retém.

Todo suado e empoeirado, padre Elígio desce da escada e vem respirar um pouco de ar fresco, na pequena horta que conseguiu fazer nascer aqui, atrás da abside, protegida, em toda a volta, por fasquias e puas de madeira.

- Ora, meu reverendo amigo – digo-lhe, sentado na mureta, o queixo apoiado no castão da bengala, enquanto ele cuida de suas alfaces. – Não me parece mais, o atual, tempo de escrever livros, nem por brincadeira. No que diz respeito à literatura, como a tudo o mais, devo repetir meu costumeiro estribilho: “Maldito seja Copérnico!

- Oh, oh, oh, que tem Copérnico a ver com isso?! – exclama Padre Elígio, erguendo o busto, o rosto afogueado sob o grande chapéu de palha.

- Tem, sim, Padre Elígio. Porque, quando a Terra não girava…

- Ora esta! Mas se sempre girou!

- Não é verdade. O homem não sabia disso e, portanto, era como se não girasse. Para muitos, ela continua a não girar também agora. Disse que girava, no outro dia, a um velho camponês; sabe o que ele me respondeu? Que era uma boa desculpa para bêbados. Aliás, o senhor também, tenha paciência, não pode pôr em dúvida que Josué fez o sol parar. Mas deixemos isto. Digo que, quando a Terra não girava e o homem, vestido de grego ou de romano, nela fazia boa figura, formando tão elevado conceito de si e comprazendo-se tanto com sua própria dignidade, acredito perfeitamente que pudesse ter acolhida favorável uma narração minuciosa e repleta de inúteis pormenores. Lê-se ou não se lê em Quintiliano, como o senhor me ensinou, que a História devia ser feita para narrar e não para demonstrar?

- Não nego – responde Padre Elígio -, mas, também, é verdade que nunca se escreveram tantos livros, tão pormenorizados, ou melhor, tão carregados das mais secretas minudências, como desde quando, no seu modo de dizer, a Terra começou a girar.

- Está bem: o senhor conde levantou-se cedo, às oito horas e meia em pontoA senhora condessa pôs um vestido lilás, ricamente guarnecido de rendas no pescoçoTerezinha estava morrendo de fomeLucrécia consumia-se de amor… Oh meu Deus do céu! Que importância isso pode ter para mim? Estamos ou não estamos num invisível piãozinho, para o qual um fio de sol serve de chicote, num grãozinho de areia enlouquecido, que gira e continua a girar, sem saber por quê, sem chegar nunca a destinação, como se achasse muito divertido girar assim, para fazer-nos sentir ora um pouco mais de calor, ora um pouco mais de frio, e, no fim, fazer-nos morrer (a miúdo, com a consciência de ter cometido uma série de pequenas tolices), após cinquenta ou sessenta giros? Copérnico, Copérnico, meu caro Padre Elígio, estragou a humanidade irremediavelmente. Agora, todos já nos adaptamos, aos poucos, à nova concepção de nossa infinita pequenez e a nos considerarmos menos do que nada, no Universo, com todas as nossas lindas descobertas e invenções. Que valor quer, então, que tenham as notícias, já não digo das misérias privadas, mas das nossas calamidades gerais? Histórias de minhocas, as nossas, agora. Leu a respeito daquele pequeno desastre nas Antilhas? Nada de importante. A Terra, coitada, cansada de girar, como quer aquele cônego polonês, sem qualquer finalidade, teve um pequeno movimento de impaciência e soprou um pouco de fogo por uma de suas muitas bocas. Sabe-se lá o que foi que lhe agitou essa espécie de bílis! Talvez a estupipez dos homens, que nunca foram tão cacetes como agora. Resultado: vários milhares de minhocas torradas. E toca para a frente! Quem fala mais nisso?

Padre Elígio Pellegrinotto, porém, faz-me observar que, por mais esforços que empreguemos no cruel intento de arrancar, de destruir as ilusões que a previdente natureza criou para o nosso bem, não o conseguimos. Por sorte, o homem distrai-se facilmente.

Isso lá é verdade. Nosso Município, em certas noites marcadas na folhinha, não manda acender os lampiões e, com frequência, se o tempo é nublado, nos deixa no escuro.

E isso significa, no fundo, que nós, ainda hoje, acreditamos que a lua esteja no céu tão-só para dar-nos luz à noite, tal como o sol de dia, e as estrelas, somente para oferecer-nos um maravilhoso espetáculo. Pronto. E, com muita frequência, esquecemos que somos átomos infinitesimais, passamos a respeitar-nos e admirar-nos reciprocamente e somos capazes de engalfinhar-nos por um pedacinho de terra ou de queixar-nos de certas coisas que, se estivéssemos compenetrados do que somos realmente, deveriam parecer-nos desprezíveis misérias.”

Trecho de “O Falecido Mattia Pascal”
Pág. 15-17 (Abril Culrural, 1978)

- Luigi Pirandello

17/02/2010

"Qual flor de uma estação"



Essa música, só porque é bonita.

Mata Virgem
Raul Seixas
Composição: Raul Seixas e Tânia Menna Barreto

Você é um pé de planta
Que só dá no interior
No interior da mata
Coração do meu amor
Você é roubar manga
Com os moleques no quintal
É manga rosa, espada
Guardiã no matagal
Qual flor de uma estação
Botão fechado eu sou
Se amadurecendo
Pra se abrir pro meu amor
Qual flor de uma estação
Botão fechado eu sou
Se amadurecendo
Pra se abrir pro meu amor
Úmida de orvalho
Que o sol não enxugou
Você é mata virgem
Pela qual ninguém passou
É capinzal noturno
Escuro e denso protetor
De um lago leve e morno
Teu oásis seu amor
Qual flor de uma estação
Botão fechado eu sou
Se amadurecendo
Pra se abrir pro meu amor
qual flor de uma estação
Botão fechado eu sou
Se amadurecendo
Pra se abrir pro meu amor
Úmida de orvalho
Que o sol não enxugou
Você é mata virgem
Pela qual ninguém passou
É capinzal noturno
Escuro e denso protetor
De um lago leve e morno
Teu oásis seu amor.

02/02/2010

Bob Dylan e a mudança dos tempos



Esse vídeo aí é raro. Aproveitem enquanto ele ainda está disponível... Rodei muito até achar uma versão dessa música que não estivesse com a incorporação desativada (o que impede de ouvir fora do youtube).

A música, "The times they are a-changin", está na bela trilha sonora do excelente filme Watchmen. A melodia é bonita, e a letra tem aquele tom político de um Bob Dylan embriagado de vaticínios de transformações sociais. Em termos de forma, a poesia assemelha-se um tanto aos repentes, centrados em um mote de fim de estrofe. Nesse caso, cada uma das 5 estrofes possui 10 versos e um 11º onde se repete o mote da "mudança dos tempos" - for the times they are a-changin...

"The times they are a-changin"

Come gather 'round people
Wherever you roam
And admit that the waters
Around you have grown
And accept it that soon
You'll be drenched to the bone.
If your time to you
Is worth savin'
Then you better start swimmin'
Or you'll sink like a stone
For the times they are a-changin'.

Come writers and critics
Who prophesize with your pen
And keep your eyes wide
The chance won't come again
And don't speak too soon
For the wheel's still in spin
And there's no tellin' who
That it's namin'.
For the loser now
Will be later to win
For the times they are a-changin'.

Come senators, congressmen
Please heed the call
Don't stand in the doorway
Don't block up the hall
For he that gets hurt
Will be he who has stalled
There's a battle outside
And it is ragin'.
It'll soon shake your windows
And rattle your walls
For the times they are a-changin'.

Come mothers and fathers
Throughout the land
And don't criticize
What you can't understand
Your sons and your daughters
Are beyond your command
Your old road is
Rapidly agin'.
Please get out of the new one
If you can't lend your hand
For the times they are a-changin'.

The line it is drawn
The curse it is cast
The slow one now
Will later be fast
As the present now
Will later be past
The order is
Rapidly fadin'.
And the first one now
Will later be last
For the times they are a-changin'.

Bob Dylan

PS:
Uma tradução de internet? Aqui.
Assista um trailler de Watchmen com a música, aqui.

Um curta: Tarantino's Mind



Se você gosta dos filmes de Tarantino, não pode deixar de assistir o curta aí de cima. Roteiro e direção: 300 ml. Atuações impagáveis de Selton Melo e Seu Jorge. Realizado em 2006.