29/03/2009

Autobiografia sem factos

"Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê.

E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus.

Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado.

Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade.

Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não- significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal.

Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais."
____________________

* Pedaço de Fernando Pessoa. In: "Livro do Desassossego".

23/03/2009

O último Grão-de Era

Deslisou nas paredes
Do tempo que escorria,
O homem da Ampulheta.


As paredes de vidro

Eram lisas como lodo

- Escorregafrias...


Tudo era estanque

Naquele "ir"...

Que ia sem vir.


Vagarosamente partia.

Mas, era só aparente,

Pois veloz era.


Foi. Pra baixo, foi.

Inevitalvelmente iria...

- Como persona das Eras.

Despejou-se por cima

De toda matéria insólita de baixo,

Que eram todas as Eras que já eram.


Que foram pra baixo.

Que, inevitavelmente, foram.

Pois o destino é ir.


E, esperaram a mão benevolente

Que entornaria a ampulheta;

Mas, esperaram em vão, as Eras.


Em vez de mãos, caíram pés.

Os pés daquele homem

Que deslizara...


Que deslizara inerte,

Indiferente às eras que pisava,

No seu desejo impávido de voltar!


Indiferente ao que havia embaixo,

Olhava desejoso pra cima...

E via o último Grão-de-Era, que vinha...


Que caía...

E o homem da Ampulheta

Bêbado de angústia, atirava pra cima,

Em vão, aquele último grão

Que tornava a cair...

E subir...

E cair...

E subir...

E cair...

08/03/2009

Poética da chuva

"Às vezes, é na tempestade que a visão fica mais limpa."
_______________________
* Foto: Hassan Farahani

13/02/2009

Salvador Dali e o seu coelhinho

Estava sentado nas bordas da vida, na Praça da Saudade. Chovia. Chovia deveras. A água caia sobre minhas pálpebras como o choro divino quando o sol enruga a Estátua.

Chovia e eu sorria em prantos inefáveis… ‘Como é bom estar triste’ - pensava.

No manto dos meus dedos derretiam-se as gotas do orvalho solar. E como balançavam os cabelos daquela estátua! - Semelhantes eram às dores das geladeiras vazias.

A autoria do texto acima eu desconheço. Acabo de escrever e não me reconheço nele - mas, em alguns detalhes, fica-me a dúvida se não é de fato de minha autoria…

Saiu de meus dedos, mas não de mim. Brotou de minha inconsciência, que pertence mais a mim que eu mesmo - embora me seja estranha, assombrosa e irreconhecível, em muitas ocasiões.

Bem, o que danado isso tudo tem a ver com o título do post? E com a tela acima, de Dali?

Nada em especial. Apenas um arroto de imagens.

“André está louco”, podem pensar… Não, não estou louco. Apenas inspirado. Se isso significa estar louco, então, reconheço, estou louco.

Há alguns dias me deparei com a morte de um amigo de infância (caso queiram, leiam sobre Glauber, o viandante dos Cabelos de ‘Pedro de Lara’, clicando aqui).

Mas, não é sobre a morte do meu amigo que vou falar. Aliás, não vou falar de morte alguma, nem da morte de Salvador Dali - que há 20 anos abraçou o pintor surrealista. Ele foi ter com os deuses no dia 23 de janeiro de 1989.

Em verdade, caros leitores, perdoem-me, mas não vou falar de nada em específico… Seria uma afronta ao meu próprio juízo falar sobre Dali e praticar o surrealismo de uma forma estriadamente racional, sem um pouco de inventividade, leveza e derretimento do inconsciente.

Minha memória não falha neste momento. Persiste, sim, a lembrança dos coelhinhos. Vocês conhecem a estória do homem que vomitava coelhinhos? E a do homem que levava consigo, para onde quer que fosse, um coelhinho?

Angustiado com o fato de vomitar coelhinhos, alvos coelhinhos brancos (do tamanho de coelhinhos de chocolate), plantava pequenos trevos para entreter os bichinhos que provinham (não se sabe ao certo de onde), das suas entranhas.

Retirava-os com os dedos, e eles ficavam contentes.

E como fazia cócegas em sua garganta! no momento em que mais um coelhinho brotava, com seus alvos pêlos, saltando para a vida - onde habitariam aquele apartamento de uma senhorita que estava em Paris, deixando o imóvel a encargo de seu amigo (ela não sabia, até então, que ele vomitava coelhinhos…).

Na carta, a afamada carta que escrevera a uma senhorita em Paris, justificava:

“Mas não lhe escrevo por isso, envio esta carta por causa dos coelhinhos, parece-me justo informá-la; e porque gosto de escrever cartas, e talvez porque chove.”

Não, os coelhinhos não estavam vestidos de gaiola, como certa mulher…

Apesar de, inicialmente, habitarem um armário, conforme cresciam, iam-se em disparada por todo o apartamento, divertindo-se com os objetos daquele lar.

Desconfio produndamente que os danos foram de fato reparados, de forma satisfatória…

Não. Não. Não sei se fui convencido com essa versão. Tenho para mim que o homem que vomitou os coelhinhos estava dando alguma justificativa, e uma espécie de conforto para Andrée.

O fato é que eram muito bonitos e brincalhões. Tudo bem, as brincadeiras por vezes poderiam ter sérias consequências para o apartamento de Andrée - a senhorita que estava em Paris.

Mas, fulguravam como uma constelação de estrelas brancas, movimentos de um lado para o outro, e isso já era o suficiente (embora nem todos estivessem presentes - o que preocupasse um pouco).

“São dez. Quase todos brancos. Levantam a morna cabeça para as lâmpadas do salão, os três sóis imóveis do seu dia, eles que amam a luz porque sua noite não tem lua nem estrelas nem lampiões. Olham seu triplo sol e estão contentes. Por isso, pulam no tapete, pelas cadeiras, dez suaves manchas se movimentam como uma constelação móvel, de um lado para outro, embora eu quisesse vê-los quietos, vê-los a meus pés e quietos - um pouco o sonho de todo deus, Andrée, o sonho jamais realizado dos deuses (…)”

Como eu disse. Desconfio seriamente da versão do autor. Mas, o que é inegável de minha parte, é que os coelhinhos pareciam ser realmente afáveis.

Não só com os trevinhos, os móveis e os livros corroídos (inclusive, ao que parece, uma história argentina, de Lopez), mas eram afáveis também (com aquela indeferença inata a todos os coelhinhos brancos) com o homem que os vomitara.

Quando sucedeu de vomitar um coelhinho preto e um coelhinho cinza, estranhou - mas, não tardou para amar a todos com a misericórdia de um deus-pai.

Além dos elefantes, bastante presentes no imaginário de Salvador Dali, também habitava, em sua mente, um coelhinho, embora Dali se esquivasse - talvez por defesa própria, para se guardar de possíveis lembranças não muito felizes, ou para confundir os críticos de arte.

Não sei bem.

Mas, Dali também foi acometido, à sua maneira, um tanto pitoresca, por um coelhinho. Não os vomitava. Mas, tinha sim um coelhinho, que carregava para onde quer que fosse.

Ele era casado com Helena Diakonova. Quando se mudaram para um determinado apartamento, não sabiam mais o que fazer com o bichinho.

Seria danoso à sua saúde dividir o mesmo ambiente com as tintas. Não sei se o coelhinho tinha ciúme das tintas (haja vista o amor de Dali por elas) e dos pincéis. O que parece certo, segundo suposições de especialistas, é que não seria nada bom a convivência deles.

A esposa de Dali, Diakonova, então, teve uma solução. Fez um ensopado com o coelhinho, e deu de jantar para ele.

O pintor se deliciou com o bichinho - à sua revelia, claro.

Tanto que, terminada a refeição, perguntou por ele.

“Onde está o coelhinho?” A resposta foi simples: “Está com você.”

Agora, acabara-se o problema. Dali levaria consigo, para onde quer que fosse, o seu coelhinho.

10/02/2009

O violinista da rua do Bar Central

Nem Jesus, nem Deus.

A alegria dos homens

É o Violinista da rua...


Que toca Bach
entre as mesas do bar.

Toca afetos
, entre os desafetos do bar;
Entre os olhares translúcidos
Dos ouvidos lúcidos do ar.


E, mesmo nos ouvidos pouco lúcidos,

Olvidados de qualquer afeto,

Soa, nesse ar, a transposição
do século.

Os séculos que foram olvidados
não sentiram
O mínimo

Do afeto

Do instante

Do vibrato

Intenso

Do Violinista
da rua do Bar Central.

RoLeTra RuSSa

Sonhara naquele noite
Com letras.
De todas as cores,

Tipos,

Tamanhos.


Um sonho dos mais entranhos,

No qual,

Letras com seus fenótipos

De pessoas
Caminhavam

Desordenadas

- Como bólides

Desgovernadas.

As conjurações mais assonhombrosas

Eram formadas

Aleatoriamente

- Como uma Roleta Russa

Semântica.

02/02/2009

Instalação infantil

Ontem fui questionado por um amigo sobre qual a obra de arte mais intrigante que eu já teria visto. Na hora, não soube responder direito. Citei um conto de Jorge Luís Borges, "Tlön, Uqbar, Orbius Tertius", do livro Ficções.

Pensando bem agora, reconciliado com minha memória, recordo-me de uma outra obra de arte ainda mais intrigante. Eu a vi há alguns anos atrás, quando estava visitando parentes na cidade de São Paulo. Não me lembro o nome do lugar, mas era uma pequena galeria de arte.

A obra era uma instalação. O título não me recordo também, mas era algo do tipo: "As crianças e o espaço." Fui ver a instalação à convite de uma amiga, artista plástica pouco famosa.

Não consigo descrever o assombro que tomou conta de mim quando me deparei com a instalação. Um misto de pavor, excitação e desinteresse. Curiosa sensação...

Mas, vamos à instalação.


A entrada da galeria era uma porta bastante discreta. Dentro, as luzes eram poucas, e vinham do chão. Passei por uma saleta de entrada, onde havia um livro de assinaturas. Exitei, depois assinei e entrei na sala principal.

A primeira imagem foi assustadora. Dezenas de crianças penduradas no teto e pregadas na parede. Umas choravam, gritando alto que queria ver suas mães; outras gostariam de ir ao banheiro.

O teto tinha um papel de parede que reproduzia as nuvens de algum céu qualquer.

Como estavam pregadas e penduradas, faziam suas necessidades ali mesmo. Todas estavam vestidas com roupas iguais, como fardas de uma escola.

Fui olhando o rosto daquelas crianças, umas rosadas, outras mais bronzeadas; algumas com um semblante de pavor, outras calmamente sorriam.

As da primeira fileira, estavam penduradas por um fino cabo de aço preso à cintura - como um lustre de lâmpadas - e pareciam se divertir com a aparente ausência de gravidade.

As da segunda fileira estavam amarradas pelos pés, e tinham um semblante mais apovorado que as da terceira fileira, que estavam penduradas pelos braços, e chacoalhavam as pernas, aparentemente irritadas com aquela situação.

As da quarta fileira, não me recordo bem, mas acho que estavam penduradas por um pé e uma mão - como se fizessem aquele passo de ginástica chamado "estrelinha". Suas faces eram de resignação, enfezadas como crianças abandonadas.

Elas todas estavam a cerca de 4 metros do chão.

Fui andando por baixo daquelas crianças até a última fileira, que deveria ser a décima segunda. Era, digamos, o "fundão" da sala. Essas do fundão não estavam penduradas, mas pregadas na parede do fundo. Umas de lado, outras de cabeça para baixo, outras de frente, braços e pernas abertas, como uma estrela.


Sorriam dos outros. Ou de si mesmas. Talvez sorrissem de mim - o certo é que sorriam, seja lá do que for, e olhavam para mim.

Bem, logo depois eu fui embora. Olhei meu nome assinado naquele livro. Sai pela mesma porta que entrei, acendi um cigarro e fui tentar ver um Van Gogh no Masp.

26/01/2009

A Cidade e os Mortos: Laudômia

"Laudômia, como todas as cidades, tem a seu lado uma outra cidade em que os habitantes possuem os mesmos nomes: é a Laudômia dos mortos, o cemitério. Mas a característica particular de Laudômia é a de ser, mais do que dupla, tripla; isto é, de compreender uma terceira Laudômia, que é a dos não-nascidos.

As prosperidades da cidade dupla são conhecidas. Quanto mais a Laudômia dos vivos se povoa e se dilata, mais aumenta a quantidade de tumbas do lado de fora da muralha. As ruas da Laudômia dos mortos são largas apenas o bastante para que transite o carro fúnebre, e são ladeadas por edifícios desprovidos de janelas; mas o traçado das ruas e a seqüência das moradias repetem os da Laudômia viva e, assim como nesta, as famílias são cada vez mais comprimidas em compactos nichos sobrepostos. Nas tardes ensolaradas, a população vivente visita os mortos e decifra os próprios nomes nas lajes de pedra: da mesma forma que a cidade dos vivos, esta comunica uma história de sofrimentos, irritações, ilusões, sentimentos; só que aqui tudo se tornou necessário, livre do acaso, arquivado, posto em ordem. E, para se sentir segura, a Laudômia viva precisa procurar na Laudômia dos mortos a explicação de si própria, não obstante o risco de encontrar explicações a mais ou a menos: explicações para mais de uma Laudômia, para cidades diferentes que poderiam ter existido mas não existiram, ou razões parciais, contraditórias, enganosas.

Muito justa, Laudômia confere um domicílio igualmente vasto àqueles que ainda vão nascer; claro que o espaço não é proporcional ao seu número, que se supõe infinito, mas, sendo um lugar vazio, circundado por uma arquitetura repleta de nichos e reentrâncias e cavidades, e podendo-se atribuir aos não-nascidos a dimensão que se deseja, imaginá-los do tamanho de um rato ou de um bicho-da-seda, ou de uma formiga, ou de um ovo de formiga, nada impede de visualizá-los eretos ou agachados em cada um dos suportes ou estantes que ressaem das paredes, em cada um dos capitéis ou plintos, em fila ou esparralhados, atentos às incumbências de suas vidas futuras, e de contemplar numa veia do mármore Laudômia inteira daqui a cem ou mil anos, apinhada de multidões vestidas de modo jamais visto, todos, por exemplo, com barreganas cor de berinjela, ou todos com plumas de peru nos turbantes, e de reconhecer os próprios descendentes e os das famílias aliadas ou inimigas, dos devedores e credores, que vão e vêm perpetuando os negócios, as vinganças, os matrimônios por amor ou por interesse. Os viventes de Laudômia freqüentam a casa dos não-nascidos, interrogando-os; os passos ressoam sob os tetos vazios; as questões são formuladas em silêncio: e é sempre deles próprios que perguntam os vivos, não daqueles que virão; alguns se preocupam em deixar uma ilustre memória de si, outros em encobrir as suas vergonhas; todos gostariam de seguir o fio das conseqüências dos próprios atos, mas, quanto mais aguçam o olhar, menos reconhecem um traço contínuo; os nascituros de Laudômia aparecem pontilhados como grãos de poeira, afastados do antes e do depois.

A Laudômia dos não-nascidos não transmite, como a dos mortos, qualquer segurança aos habitantes da Laudômia viva, só apreensão. Nos pensamentos dos visitantes, acabam por se abrir dois caminhos e não se sabe qual reserva maior angústia: ou se pensa que o número de nascituros supera grandemente o de todos os vivos e de todos os mortos, e, nesse caso, em cada poro de pedra acumulam-se multidões invisíveis, amontoadas nas encostas do funil como nas arquibancadas de um estádio, e, uma vez que a cada geração a descendência de Laudômia se multiplica, em cada funil se abrem centenas de funis, cada qual com milhões de pessoas que devem nascer e esticam os pescoços e abrem a boca para não sufocar; ou então se pensa que Laudômia também desaparecerá, não se sabe quando, e todos os seus habitantes desaparecerão com ela, isto é, as gerações se sucederão até uma certa cifra e desta não passarão, e por isso a Laudômia dos mortos e a dos não-nascidos são como as duas ampolas de uma ampulheta que não se vira, cada passagem entre o nascimento e a morte é um grão de areia que atravessa o estreitamento, e nascerá um último habitante de Laudômia, um último grão a cair que, no momento, está aguardando no alto da pilha."

____________________________

* Pedaço de As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino.

19/01/2009

Glauber, o Pedro the Lara

"Procuremos alguma desolada sombra
e em lágrimas tristes aliviemos nossos corações."
Shakeaspeare - in: Macbeth

Nunca mais as calçadas de Barra de Jangada sentirão o peso do corpo de Glauber, nas noites infinitas e gloriosas de Violão, Vinho, Vida e Verve Poética.

Nunca mais as ruas de Barra servirão de tapete para o passar daquele Cara que por tantas vezes por ali passou, a trabalho ou a passeio, desde a mais tenra idade.

Nunca mais as gargalhadas altas e belamente debochadas de Glauber ecoarão por aqueles ares e pelas ruas de barro de Barra.

Foram memoráveis todas aquelas idas, junto com a rapaziada, à Caverna de Pontezinha, para nossas celebrações da Vida dos Espíritos Criadores!

Foram-se eternamente aqueles momentos de tédio em que, na falta do que fazer, ria-se um da cara dos outros.


Está agora em minhas mãos aquela fita do Led Zeppelin, que tu, Glauber, me fizestes proprietário, com a gravação do nosso saudoso e querido "The Songs Remains the Same!", com Stairway to Heaven e No Quarter ...
(os títulos das músicas estão com links para seus vídeos no Youtube)

"Há uma senhora que acha
Que tudo o que reluz é ouro
E ela está comprando uma escada para o paraíso"
Stairway to Heaven

"Andamos lado a lado com a Morte e
O mal nos espreita a cada passo"
No Quarter

Aqueles sons que soavam grandiosos entre todas aquelas noites de Barra, sob as luas encandecentes das silentes noites, acompanhadas de nossos Violões e nossas Almas Criativas, que se harmonizavam com os Espíritos de todas as Madrugadas Inefáveis!

Nunca mais hei de ver meu amigo, Glauber - e, essa é uma fatalidade que só aos deuses compete explicar.

NUNCA MAIS.

"Nada na vida é para sempre", diz a poética popular.
- Eu digo: a morte é pra sempre.

Vitalícia ocasião.


Ela, a morte, beijou nosso insubstituível e fiel amigo, Glauber.

NUNCA MAIS.

Nunca mais, meu Amigo, tocaremos juntos nossas músicas, plenas de criatividade, repletas das mais belas melodias e harmonias.

Mas, no meu Espírito de Criação ainda existe o Teu.

Agora, resta-nos a ausência dos teus solos irretocáveis e virtuosos, cheios de ímpetos e Espírito Criador. Tua presença sempre discretamente notável.

Como nós, tuas crias também hão de sentir tua falta!


Glauber sempre foi um apaixonado pela Vida, pelos Filhos, pela Música e pelos Amigos!

Teu espírito de Criador (socialmente um homem do trabalho e Pai de Filhos, que teve seu Espírito Criador em ebulição quando de nossa juventude, que ainda nos acompanha, Espírito Grande que tantas vezes foi feito pequeno por circunstâncias sócio-econômicas, sugado que era pelo trabalho), dividido que foi durante toda a vida entre a Verve Criadora e a vã e vil necessidade do trabalho suado e cotidiano - a grande e histórica Vala das Almas Belas, por onde se perdem tantos Espíritos da Virtuosa Criação Artística!

São os efeitos das exigências de nossa sociedade de consumo, medíocre, mediana e meritocraticamente ordeira,
"Abjetas das Vencedorias"; alheia aos Desejos mais Supremos dos Criadores de Mundos!

Pois foram precisamente os desejos inferiores do consumo alheio que te sugaram a vida
- nesta bosta de morte estúpida!

Choro, meu amigo. Choro nesta noite e sei que muitas mais ainda por vir!

Choro por NUNCA MAIS em vida poder ver o teu sorriso,
Nem as tuas lágrimas de choro.


Choro por não poder NUNCA MAIS compartilhar alegrias e sofrimentos com você, meu véio!

"Dies irae, dies illa
Solvet saeclum in favilla"
"Dia de ira, aquele dia,
No qual os séculos se desfarão em cinzas"
Réquiem de Mozart

Acabei de achar escrito em um caderno antigo, uma Letra-Texto de música escrita por Glauber, no mês de abril de 2000.

Reproduzo para tod@s:


"Foi mamãe que me ensinou
Quase tudo que
Eu sei.

Me enfiando na escola influências de vocês,
aprendendo o que não queria,
fui obrigado a isso,
Eu sei.

Aprendi o socialismo;
vi quem são os 'falsos reis'.
Mastiguei toda a imundície
Pra sobreviver,
Eu sei.

Engolindo essa mentira,
foi aí que eu encherguei:
será que é preciso ser hipócrita pra viver?
Sendo assim, não me conformo.

Antes não queria nascer.
Mas, já que nasci,
Eu prefiro morrer.

Morrendo não adianta...
Tenho que viver
Pra mostrar pra vocês
Como deve ser.

E daí o quê vai adiantar?

Acho que nunca vou vencer...

Mas, tenho meus amigos para me entender."

O texto acima foi escrito por Glauber,
o viandante dos Cabelos de 'Pedro de Lara',
sob a Lua e os Vinhos
de uma noite de abril do ano 2000

"Qual foi, meu irmão, tu tá ligado que a história de cada um de nós diz mais do que a história do mundo todo, né!
E, tu tá ligado por quê?
Porque a história do mundo quem faz é a gente, né não, brother?!
E mesmo se a gente se for... , a gente continua existindo nas idéias dos nossos amigos, tá ligado?"

"Às vezes sentimos coisas fortes, pensamentos irreconhecíveis. E, quando nos defrontamos com esses sentimentos, nos vemos tão fortes e ao mesmo tempo tão fracos, a ponto de nos acharmos crianças nas palmatórias de nossas mães.
É esse tipo de coisa que nos torna fortes; porém, se incontrolável, ficamos perdidos em nosso próprio mundo e, para nos acharmos, basta ter simplicidade e meditar.
O mundo que vos falo é o nosso coração."

Glauber, o Pedro The Lara

Escrito em meu caderno.


14/01/2009

Nem mais, nem menos


Séculos e séculos de
melhoramentos
E, onde fomos parar?

Fomos parando...

Ir-se sem alvos supremos
É o supremo desejo
Daqueles que não desejam
Desejos-Supremos.

E, os melhoradores da humanidade
Continuam mediocrizando
os medianos desejos.


E as Grandezas se apequenam,
Plenas de estanques.

Um imenso mais ou menos
Que não contenta nem o Mais nem o Menos...