09/08/2008

Aos solitários desertos

Estar em casa numa noite tão agradável como a de hoje pode parecer um absurdo. É possível que seja. E, se for, de fato, que tal Absurdo seja absurdamente mais agradável que a própria noite!

SIM. SÓ.


Só assim se abraça com ímpeto a Solidão. Os Desertos são plenos, quando a Solidão assola. Parece tão difícil amar a solidão. Pois amo a minha como amam os crentes a sua crença.

Acredito na beleza desértica das solidões de espíritos solitários. Gostaria de poder cantar como Björk: " Eu me sinto em casa sempre que o desconhecido me cerca", mas é apenas nas sendas da minha solidão que me sinto em casa - e, mais ainda quando é em casa que estou só.

O resto... é deleite de estranhamento.

Estranho deleite esse de solidificar a solidão e os próprios desertos. Pois é aí que se revelam as maiores auto-paixões. Sim, adoro-me como adoro minha solidão, e detesto-me como detesto a frieza dos desertos, pois que o meu corpo fora habituado ao calor desta cidade que acolho como uma extensão de meu próprio deserto, de minha própria solidão.

Sim, sou amigo de minha solidão. As linhas nietzscheanas certamente fizeram-me ver com mais clareza a escuridão de meus desertos.

"O deserto cresce. Ai! daquele que oculta desertos."

As leituras que tenho feito de Rilke também estão me fazendo bem: ajudam-me a suportar, e até mesmo gostar, da minha solidão, que pesa.

"... se perceber então que a solidão é grande, alegre-se com isso; pois o que (pergunte a si mesmo) seria uma solidão sem grandeza? Existe apenas uma solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar. Acabam chegando as horas em que quase todos gostariam de trocá-la por uma união qualquer, por mais banal e sem valor que seja, trocá-la pela aparência de uma mínima concordância com o próximo, mesmo que com a pessoa mais indigna... No entanto, talvez sejam justamente essas as horas em que a solidão cresce, pois o seu crescimento é doloroso como o crescimento de um menino e triste como o início da primavera. Mas, isso não deve confundi-lo. O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso."

5 comentários:

Dimas disse...

A experiencia do vazio absoluto pesa como chumbo. é como se o sangue que circula pelas veias mudasse sua consistencia, ficando pesado como chumbo. é preciso torná-lo incrivelmente mais leve, bem como como as dunas do deserto que grão a grão faz-se brotar em novos territorios.

Karol disse...

As vezes,a solidão é um bem mais que necessário.um encontro íntimo como você mesmo ou uma perda total...
uma página em branco,onde só você tem o lápis,só você pode escrever...o perigo ocorre quando você não sabe o que escrever ou pior não sabe escrever...e se perde na imensidão da solidão.
Eu gosto da minha solidão,tem vezes que ela é a melhor companheira,como tem vezes que não.
Tudo depende,tudo existe.

:)

df disse...
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Andréa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Andréa disse...

Os desertos têm a reputação de serem capazes de sustentar pouca vida. Comparando-se com regiões mais úmidas isto pode ser verdade, porém, examinando-se mais detalhadamente, os desertos freqüentemente abrigam uma riqueza de vida que normalmente permanece escondida...

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Não te posso prometer que no meu mundo nunca haverá um deserto...

Mas tentarei ser sempre um Oásis.