19/12/2009

Corrente de ouro num bucho faminto de desejo

No Rio de Janeiro, uma dona-de-casa de 52 anos desejava tanto uma corrente de ouro, que a furtou de uma joalheria, engolindo-a. A notícia parece corriqueira. Poucas peripécias nos surpreendem nesse paraíso da rapina chamado Brasil.

Moacyr Scliar, dos melhores escritores brasileiros vivos, deu um ‘tratamento’ literário na notícia acima, e lhe concedeu outras dimensões, novas perspectivas. Relatado em forma de carta-depoimento pela acusada do furto, o caso abandona as dimensões meramente jornalísticas ou policiais do acontecimento, revelando as próprias limitações da linguagem jornalística (e o quanto carecemos de ir além), além de tocar nas profundidades da condição humana.

Adentra os meandros das corruptelas políticas, dos panetones de engodo, das imoralidades do dinheiro na cueca, e, para além disso, as configurações da má distribuição de renda no País, num platô da economia do desejo.

Tais proporções alcançadas por Scliar fogem das vulgaridades linguísticas de um tal “jornalismo profissional” a que estamos habituados; tal habituação também cinge o próprio hábito da leitura, do entendimento, trancafiado nas portas das delimitações de significados. Tais proporções se afastam dos nossos padrões de pressupostos morais (no sentido mesmo de justificar o absurdo do acontecimento), tangendo, não sem certa maestria, nuances dos escritos de Albert Camus – especialmente de O Estrangeiro, onde um assassínio é explicado pela luminosidade do sol na face, que ofusca a vista de um homem com uma arma em punho.

A narrativa abaixo revela não a purulência de uma alma criminosa. Revela as nossas sujeições à uma condição humana limitada por uma ordem jurídica e social que, ao mesmo tempo, pune com rigor moral e penal uma senhora que desejava uma corrente de ouro, e recalca-se às vistas grossas para o câncer da grande corrupção política.

Uma ordem que permite o indivíduo assistir com passividade os seguidos escândalos da política nacional, sem que o salte da alma a disposição impetuosa de levantar o traseiro da poltrona para fazer qualquer coisa que seja, no sentido da cidadania e da vigilância política.

Espera-se cerimoniosamente a hora da próxima novela, ou da próxima Copa do Mundo…

“A corrente da vida”

por Moacyr Scliar
para a Folha de S.Paulo

Mulher é presa após engolir corrente de ouro em joalheria. Uma dona-de-casa de 52 anos foi presa após engolir uma corrente de ouro numa joalheria do centro do Rio. Ela foi indiciada por tentativa de furto. Uma radiografia confirmou que a corrente está em seu estômago. Quando expelir a peça, a mulher será encaminhada à cadeia. Segundo a polícia, Fátima Carceiro foi a uma joalheria e pediu para ver joias. Enquanto tirava peças da vitrine, o vendedor percebeu o sumiço de uma corrente. Ele desconfiou e chamou a polícia. Fátima admitiu o furto.

“SENHOR” delegado, antes de mais nada, e ao contrário de outras pessoas acusadas que clamam inocência, quero lhe dizer que admito minha transgressão. Mais: sempre soube que acabaria presa. É um destino que está no meu nome. Quem se chama Carceiro, senhor delegado, dificilmente escapará ao cárcere, não é mesmo?

Isto posto, quero dizer que não estou arrependida. Ao contrário, sinto-me perfeitamente tranquila. Fiz o que queria fazer. Há muito tempo eu cobiçava esta corrente de ouro, senhor delegado. Era a joia da minha vida, feita por um artista joalheiro especialmente para mim. Prova disso é que ficou exposta um tempão e ninguém a levou. A corrente de ouro estava à minha espera.

Mas havia um problema: eu não tinha dinheiro para comprá-la. Essa desigual distribuição de renda, o senhor sabe… Uma coisa que precisa ser corrigida, e decidi tomar a iniciativa neste sentido. Resolvi apossar-me da corrente. Não foi difícil: entrei na joalheria, pedi para ver pulseiras, anéis, colares. E a corrente. Enquanto o vendedor tirava uma joia da vitrine eu, mais que depressa, engoli a corrente. Engoli sem água, em seco, e olhe que uma corrente não é um comprimido qualquer. Mas é que a corrente queria ser engolida, sabe? Queria, por assim dizer, pular para dentro de mim.

Agora: tive um pequeno azar. Eu esperava que o vendedor, tendo colocado tanta coisa sobre o balcão, não desse falta da corrente. Mas era um obsessivo esse vendedor. Sabia de cada joia da loja, e assim imediatamente perguntou pela corrente. Chamou a polícia e aqui estou. Muito contente, senhor delegado. Fiz o que podia fazer. Eu não sou daquelas pessoas que escondem dinheiro na cueca, em primeiro lugar porque não tenho contato com certos políticos e porque não uso cueca, só calcinha, que não serve para essas coisas. Depois, engoli algo que vale a pena. Não foi um panetone vagabundo, desses que os políticos distribuem no Natal. Foi uma corrente de ouro. Que está dentro de mim, quietinha e feliz.

Por pouco tempo, acha o senhor. E é aí que o senhor se engana, senhor delegado. Porque sofro de prisão de ventre: posso passar dias sem evacuar. Isto, que sempre foi um transtorno, agora revela-se um benefício, permitindo que eu fique mais tempo com a minha corrente. Se e quando ela sair, não será mais a mesma corrente. Algo dela, uma pequena partícula que seja, terá se desprendido e terá sido incorporada a meu organismo. Eu e a corrente seremos uma coisa só, senhor delegado. A corrente da vida levou-me à vitória, deu-me uma recompensa que ninguém jamais me arrebatará.”

* MOACYR SCLIAR é escritor.
moacyr.scliar@uol.com.br

08/12/2009

A John Lennon



Hoje faz 29 anos que John Lennon morreu. Instant Karma, no vídeo acima.

"Instant Karma's gonna get you..."

No vídeo abaixo, God.



"Deus é um conceito com o qual medimos nossa dor..."

God

God is a concept,
By which we measure
Our pain.
I'll say it again.
God is a concept,
By which we measure
Our pain.
I don't believe in magic
I don't believe in I-Ching
I don't believe in Bible
I don't believe in Tarot
I don't believe in Hitler
I don't believe in Jesus
I don't believe in Kennedy
I don't believe in Buddha
I don't believe in Mantra
I don't believe in Gita
I don't believe in Yoga
I don't believe in Kings
I don't believe in Elvis
I don't believe in Zimmerman
I don't believe in Beatles
I just believe in me
Yoko and me
And that's reality.
The dream is over,
What can I say?
The dream is over
Yesterday
I was the dreamweaver,
But now I'm reborn.
I was the walrus,
But now I'm John.
And so dear friends,
You just have to carry on
The dream is over.

A Jim Morrison



Se estivesse vivo, o poeta James Douglas Morrison completaria, hoje (8 de dezembro), 66 anos. Além de poeta, Jim Morrison foi vocalista do The Doors. Vai aí um poema do cara.

O PALÁCIO DO EXÍLIO

Durante sete anos habitei no livre Palácio do Exílio
Jogando estranhos jogos com as raparigas da ilha
Agora estou de volta à terra dos justos
E dos fortes e dos sábios
Irmãos e irmãs da pálida floresta
Crianças da noite
Quem de entre vós fugirá com a caça?
Agora a noite chega com a sua legião púrpura
Metam-se nas vossas tendas e nos vossos sonhos
Amanhã entramos na cidade do meu nascimento
Quero estar preparado.

04/12/2009

Curta um curta aí - : Denegação

"No mais..."


Quando ainda adolescente, aprendi a tocar violão com as músicas de Zé Ramalho, enquanto outros amigos aprendiam com Nirvana e Legião Urbana. Gostava das duas últimas bandas também, mas por Zé eu ficava realmente admirado. Meu pai, o Nelson, que canta como ninguém, ensinou-me uns primeiros passos de violão, além de me fazer gostar de música e literatura desde criança.

Aos 15 anos abandonei a escola e me apeguei aos livros de Júlio Verne e Erich von Däniken. Aos 16 me abracei ao violão dado por meu pai e aos discos de Zé Ramalho e Geraldo Azevedo, da minha mãe.Aos 17 voltei à escola pra depois me formar no bacharelado de história. Ter voltado a estudar pode ter sido o meu maior erro...

Ainda mais História, que só dá trabalho e tristeza!

Mas a tristeza também é boa, e isso me remete a Rilke (sempre ele...), que faria aniversário hoje (4 de dezembro), caso não fosse vivo só nas suas palavras, que romperam as barreiras do tempo, e vieram, também, cair em pedaços dispersos aqui neste blog.

"Há meros devaneios tolos..."

01/12/2009

"O Verão vem."

"O tempo, neste caso, não é uma medida. Um ano não conta, dez anos não são nada. Ser artista é não contar, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva, que resiste, confiante, aos grandes ventos da Primavera, sem temer que o Verão possa não vir. O Verão vem. Mas só vem para aqueles que sabem esperar, tão calmos como se tivessem na frente a eternidade. Aprendo-o todos os dias à custa de sofrimentos que bendigo: a paciência é tudo."

Pedaço de "Cartas a um jovem poeta", de Rilke.

23/11/2009

Da paixão alheia



"- Zézinho, tudo é tão belo com você! As estrelas, furtacor, são como planetas mil pra sermos eternos! E eu te amo tanto, meu amor!..."

Acabou a energia. A TV desligou e José ficou no escuro. Resignado, resolveu mecher-se na divã-poltrona, após cerca de seis horas e 56 segundos. Suas pernas já dormentes relutaram em obedecer ao pensamento de José, que desistiu do movimento e continuou sentado no divã-poltrona e escuro fazia quando voltou a luz novamente.

"- Oh! Mariazinha, é tão bom te ter só minha!"

...

, José agora mudou de canal. Dessa vez a TV mostrava uma séria reportagem sobre atos do governo, de viés econômico misturado com fenômenos naturais, como "tempestades", "abalos", "céu nublado do mercado", e mais alguns substantivos que José já nem sequer diferenciava-os mais; e mais ainda quando moveu as pernas já não muito dormentes de seu divã-poltrona para levantar-se um pouco depois daqueles mais de seis horas sentado, como que afundado, no divã-poltrona.

Ele levantou e foi-se à cozinha apanhar um copo com água. José esqueceu-se do copo d'água e preparou-se um cafezinho. Como ele gostava... Com bastante açúcar... - escondido, já que José sabia que os outros sabiam de sua propensão ao diabetes.

Justapostas agruras

A tarde findava sua queda, e o dia se faria noite em breve. Também Ícaro caía, em taciturnas lágrimas, afundando no sofá.

No silêncio de um dos becos do cais, um pobre cego defecava, às escuras, pronunciando suas agruras pra ninguém.

No calor do acolchoado sofá, sob a luz do abajur, Ícaro aquecia seu pranto discreto. O motivo do seu choro era irrisório: apenas a humanidade.

16/11/2009

Indo pra Brasília logo menos...

Partindo pra Brasília daqui a pouco. Cobrir o 4º Encontro Nacional da Indústria pelo blog Acerto de Contas.

Honestamente, tenho mais medo de circular por Brasília do que em Brasília Teimosa...


Isso, se o avião não cair antes de chegar...

Buuuu!!!!!!!!!!

04/10/2009

Omeleti - o vizinho interino

Entre um café e uma broa, trocava palavras com meu amigo Nabucão, que me contou uma história curiosa que anda acontecendo lá da Rua das Bananeiras, número 239. A casa, de paredes azul-bandeira e um alto muro amarelo-gema, não deixa ver com exatidão o que se passa em seu interior. Pela afobação de Nabucão, percebi que se tratava de algo que ele de fato não entendia direito.

Meu amigo balbuciava frases desconexas, das quais pude compreender apenas algumas. Dizia, por exemplo, que na casa de amarelo muro e paredes azuis não se via mais o seu proprietário há um bom tempo. Nabucão supunha com quase certeza, entre uma dentada na broa, um gole no café, um pigarro chuviscador de farinha de broa e a queixa pelo quase-fim de sua garrafa de conhaque, que o antigo morador havia sido expulso da sua casa por uma gangue de saqueadores do bairro de arrabalde.

A única dúvida de Nabucão parecia dizer respeito à condição do novo ocupante da residência. Meu amigo não sabia ao certo se classificava o sr. Omeleti como seu vizinho interino ou seu vizinho de fato. Daí surgiu o gravíssimo problema nas formas dispensadas por Nabucão ao se referir ao seu novo vizinho. Na dúvida, optava pela sinceridade e o chamava de Cara-de-Ovo – ou, simplesmente, Omeleti.

Leitor habitual de Bukowski e Pirandello, Nabucão parecia mais preocupado mesmo era em comprar outra garrafa de conhaque, pois que a sua já em breve findaria, e ele ainda não estava em teores suficientes que o legitimassem a colocar no pobre diabo do Copérnico os efeitos de sua impressão física de que a Terra era redonda, e realmente girava.

30/09/2009

Samba do Crioulo Doido



Faleceu há 41 anos (30/09/68) o autor do Samba do Crioulo Doido, Sérgio Porto - ou, Stanislaw Ponte Preta.

Stanislaw (pseudônimo de Sérgio) escreveu o famoso Febeapa (Festival de Besteiras que Assola o País). No livro, são relatadas estórias memoráveis, como por exemplo, a seguinte:

Disse Stanislaw no Febeapa 2:

“É difícil ao historiador precisar o dia em que o Festival de Besteira começou a assolar o País. Pouco depois da “redentora”, cocorocas de diversas classes sociais e algumas autoridades que geralmente se dizem “otoridades”, sentindo a oportunidade de aparecer, já que a “redentora”, entre outras coisas, incentivou a política do dedurismo (corruptela de dedo-durismo, isto é, a arte de apontar com o dedo um colega, um vizinho, o próximo enfim, como corrupto ou subversivo — alguns apontavam dois dedos duros, para ambas as coisas), iniciaram essa feia prática, advindo daí cada besteira que eu vou te contar”

(...)

“Os jornalistas deveriam apanhar da polícia não só durante a passeata, mas antes também. Eles são incapazes de reconhecer o valor da polícia. Os fotógrafos, por exemplo, nunca fotografam os estudantes batendo no policial”. Essa declaração foi feita pelo Secretário de Segurança de Minas Gerais, coronel Joaquim Gonçalves."

Do Feneapa 1, uma clássica:

“Foi então que estreou no Teatro Municipal de São Paulo a peça clássica “Electra”, tendo comparecido ao local alguns agentes do DOPS para prender Sófocles, autor da peça e acusado de subversão, mas já falecido em 406 a.C.”

Que os deuses salvem os homens cultos da nossa ditadura militar!

Se desejar conhecer um pouco da biografia de Sérgio Porto, clique aqui.

25/09/2009

Joca na lona

Na carroça de Joca o tempo não passa.
Escondido da vida, Joca bebe cachaça.
Parado ao largo, seu carro de lixo repousa
- Recicla os minutos que perder, Joca não ousa.

Para Joca, fortuna foi parar na bala
Solene (que acompanhou o gole) em sua cara.
E o mundo de Joca escorreu com o sangue e a cachaça
- Para alívio da dor que quase nunca passa.

22/09/2009

Na rua da Amargura

Há um bar na rua da Amargura.
Canta-se loas à dor, no bar da rua.
E como são sorrisos aqueles olhos de bocas tristes!

Certa vez, um ébrio madruguêro
Disse que antes do bar,
Na rua da Amargura tinha um galinheiro...

E volta e meia passava alguém que ficava.

Na casa de Amargô

Amargô morava com as irmãs Agrura, Feiura, Mistura e Belezura. Suas filhas Pintura e Caricatura eram prostitutas do antigo galinheiro da rua da Amargura. Até que um dia, seu pai, Pindura, abriu um bar.

21/09/2009

João o tinha


João da Silva se ia às pressas rumo à sua casa, que a hora já lhe dera nos limites há mais de hora. À espera do pão, e de João, esposa e filhos repousavam em frente à tevê. Às pressas, João pegou seu carro e foi-se para o lar incomodado a cada esquina por fregueses perguntando se ele tinha o disco novo do Saia de Fogo.

João o tinha.

Então perguntavam de quanto era o disco, e o pai dos meninos se atrasava mais uns minutinhos - e eram muitos os minutinhos a cada rua que passava... A novela já terminando na tevê de casa fazia a mulher de João ir-se afobando. Até que numa esquina qualquer acabaram-se os discos de Saia de Fogo, e João pode - pôde de sujo - seguir direto pra casa, onde sua mulher perguntaria, como todos os dias, entre os olhares apreensivos de seus filhos, se João vendera ou não o estoque completo da erva que plantavam no quintal dos fundos de sua casa.

João o tinha.

05/09/2009

Um pouco de Jorge Luis Borges

Em sua Literatura, Jorge Luis Borges mexeu com a realidade como quem rabisca garatujas no ar. Mas não qualquer garatuja, em sua acepção própria, dessas desordenadas e desconexas, pueris, casuais e horrendas. Pelo contrário, garatujas assombrosamente elaboradas, de construções tão complexas, finas e verossímeis, que, se levadas ao extremo, o leitor corre sério risco de não saber mais onde se assenta o real e onde se inicia o fantástico naquelas linhas.

Certamente a impressão de garatujas dos contos fantásticos de Borges se esvai quando o leitor entra em contato mais profundo e umbilical com tais construções, intragáveis ou incompreensíveis numa primeira vista. Uma outra sensação de mundo é experimentada. Outras dimensões, mais abrangentes, amplas, para tudo aquilo que os olhos parecem cegos.

A realidade outra, fantástica, que se apresenta diante dos olhos faz-se tão original, tão real, que a própria realidade se torna minúscula, e o fantástico palpável e palatável. E quem, depois de cruzar-se com Borges nos labirintos da existência, refletir-se em seus infinitos espelhos, perder-se entre os hexágonos da biblioteca de Babel, ousará dizer que não é?!

Gostaria de apresentar Borges aos leitores do Acerto de Contas. Certo é que se trata de uma vasta e difícil tarefa. Como fazer isso dizendo que ele nasceu em 24 de agosto de 1899, na cidade de Buenos Aires? Ou que este ano faria 110 anos? Ou, ainda, que adentrou as portas da infinitude em Genebra, no dia 14 de junho de 1986?

Isso não faz muito sentido. E, se acaso fizer algum sentido, aqui, não é tão importante quanto saborear suas próprias linhas. São elas que deixarei aos leitores.

Não correrei o risco de psicologizar vulgarmente o meu escritor preferido. Muito menos de biografá-lo pateticamente – ele que se autobiografou tão bem em tão poucas páginas.

Em vez dessas coisas triviais, exibo diante de vocês dois escritos de Borges.

Primeiro, The Unending Gift (que costumo traduzir como “O Presente Eterno”), onde os olhos miram o infinito das promessas, dos deuses, dos homens, dos presentes, terno e eterno.

Segundo, o conto que encerra um dos mais belos livros que já li em minha vida, até aqui. O conto se chama O Livro de Areia, extraído do livro que ostenta o mesmo belíssimo título.

A Jorge Luis Borges, dedico este post, simples e honesto, com a promessa de um dia fazê-lo com maior esmero.

*****

“THE UNENDING GIFT”

Um pintor prometeu-nos um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como
outras vezes, a tristeza de compreender que somos como
um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)

Pensei em um lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa
mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da
casa; agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer
forma e qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma
Música e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa
Há algo imortal.)

*****

“O LIVRO DE AREIA”


A linha consta de um número infinito de pontos, o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos, o hipervolume, de um número infinito de volumes… Não, decididamente não é este, more geométrico, o melhor modo de iniciar meu relato.

Afirmar que é verídico é, agora, uma convenção de todo relato fantástico; o meu, no entanto, é verídico.

Vivo só, num quarto andar da Rua Belgrano. Faz alguns meses, ao entardecer ouvi uma batida na porta. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto, de traços mal conformados. Talvez minha miopia os visse assim. Todo seu aspecto era de uma pobreza decente. Estava de cinza e trazia uma valise cinza na mão. Logo senti que era estrangeiro. A princípio achei-o velho; logo percebi que seu escasso cabelo ruivo, quase branco, à maneira escandinava, me havia enganado. No decorrer de nossa conversa, que não duraria uma hora, soube que procedia das Orcadas.

Apontei-lhe uma cadeira. O homem demorou um pouco a falar. Exalava melancolia, como eu agora.

- Vendo bíblias – disse.

Não sem pedantismo respondi-lhe:

- Nesta casa há algumas bíblias inglesas, inclusive a primeira, a de John Wiclif. Tenho também a de Cipriano de Valera, a de Lutero, que literariamente é a pior, e um exemplar latino da Vulgata. Como o senhor vê, não são precisamente bíblias o que me falta.

Ao fim de um silêncio respondeu:

- Não vendo apenas bíblias. Posso mostrar-lhe um livro sagrado que talvez lhe interesse. Eu o adquiri nos confins de Bikanir.

Abriu a valise e o deixou sobre a mesa. Era um volume em oitavo, encadernado em pano. Sem dúvida, havia passado por muitas mãos. Examinei-o; seu peso inusitado me surpreendeu. Na lombada dizia Hali Writ e, abaixo, Bombay.

- Será do século dezenove – observei.

- Não sei. Não soube nunca – foi a resposta.

Abri-o ao acaso. Os caracteres me eram estranhos. As páginas, que me pareceram gastas e de pobre tipografia, estavam impressas em duas colunas, como uma bíblia. O texto era apertado e estava ordenado em versículos. No ângulo superior das páginas, havia cifras arábicas. Chamou-me a atenção que a página par levasse o número (digamos) 40.514 e a ímpar, a seguinte, 999. Virei-a; o dorso estava numerado com outra cifra. Trazia uma pequena ilustração, como é de uso nos dicionários: uma âncora desenhada à pena, como pela desajeitada mão de um menino.

Foi então que o desconhecido disse:

- Olhe-a bem. Já não a verá nunca mais.

Havia uma ameaça na afirmação, mas não na voz.

Fixei-me no lugar e fechei o volume. Imediatamente o abri. Em vão busquei a figura da âncora, folha por folha.Para ocultar meu desconcerto, disse:

- Trata-se de uma versão da Escritura em alguma língua indostânica, não é verdade?

- Não – replicou.

Logo baixou a voz como que para me confiar um segredo:

- Adquiri-o em uma povoação da planície, em troca de algumas rupias e da Bíblia. Seu possuidor não sabia ler. Suspeito que no Livro dos Livros viu um amuleto. Era da casta mais baixa; as pessoas não podiam pisar sua sombra sem contaminação. Disse que seu livro se chamava o Livro de Areia, porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim.

Pediu-me que procurasse a primeira folha.

Apoiei a mão esquerda sobre a portada e abri com o dedo polegar quase pegado ao indicador. Tudo foi inútil: sempre se interpunham várias folhas entre a portada e a mão. Era como se brotassem do livro.

- Agora procure o final.

Também fracassei; apenas consegui balbuciar com uma voz que não era minha:

- Isto não pode ser.

Sempre em voz baixa o vendedor de bíblias me disse:

- Não pode ser, mas é. O número de páginas deste livro é exatamente infinito. Nenhuma é a primeira; nenhuma, a última. Não sei por que estão numeradas desse modo arbitrário. Talvez para dar a entender que os termos de uma série infinita admitem qualquer número.

Depois, como se pensasse em voz alta:

- Se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.

Suas considerações me irritaram. Perguntei:

- O senhor é religioso, sem dúvida?

- Sim, sou presbiteriano. Minha consciência está limpa. Estou seguro de não ter ludibriado o nativo quando lhe dei a Palavra do Senhor em troca de seu livro diabólico.

Assegurei-lhe que nada tinha a se recriminar e perguntei-lhe se estava de passagem por estas terras. Respondeu que dentro de alguns dias pensava em regressar à sua pátria. Foi então que soube que era escocês, das ilhas Orcadas. Disse-lhe que a Escócia eu estimava pessoalmente por amor de Stevenson e de Hume.

- E de Robbie Burns – corrigiu.

Enquanto falávamos eu continuava explorando o livro infinito. Com falsa indiferença perguntei:

- O senhor se propõe a oferecer este curioso espécime ao Museu Britânico?

- Não. Ofereço-o ao senhor – replicou e fixou uma soma elevada.

Respondi, com toda a verdade, que essa soma era inacessível para mim e fiquei pensando. Ao fim de poucos minutos, havia urdido meu plano.

- Proponho-lhe uma troca – disse. O senhor obteve este volume por algumas rupias e pela Escritura Sagrada; eu lhe ofereço o montante de minha aposentadoria que acabo de cobrar, e a Bíblia de Wiclif em letras góticas. Herdei-a de meus pais.

- A black letter Wiclif! – murmurou.

Fui ao meu dormitório e trouxe-lhe o dinheiro e o livro. Virou as páginas e estudou a capa com fervor de bibliófilo.

- Trato feito – disse.

Assombrou-me que não regateasse. Só depois compreenderia que havia entrado em minha casa com a decisão de vender o livro. Não contou as notas e guardou-as.

Falamos da Índia, das Orcadas e dos Jarls noruegueses que as governaram. Era noite quando o homem se foi. Não voltei a vê-lo nem sei o seu nome.

Pensei em guardar o Livro de Areia no vão que havia deixado o Wiclif, mas optei finalmente por escondê-lo atrás de uns volumes desemparelhados de As mil e uma Noites.

Deitei-me e não dormi. Às três ou quatro da manhã, acendi a luz. Procurei o livro impossível e virei suas folhas. Em uma delas vi gravada uma máscara. O ângulo levava uma cifra, já não sei qual, elevada à nona potência.

Não mostrei a ninguém meu tesouro. À ventura de possuí-lo se agregou o temor de que o roubassem e, depois, o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Estas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia. Restavam-me alguns amigos; deixei de vê-los. Prisioneiro do Livro, quase não saía à rua. Examinei com uma lupa a lombada gasta e as capas e rechacei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui anotando-as em uma caderneta alfabética, que não demorei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que a insônia me concedia, sonhava com o livro.

O verão declinava e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade.

Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse o planeta de fumaça.

Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. Antes de me aposentar trabalhava na Biblioteca Nacional, que guarda novecentos mil livros; sei que à mão direita do vestíbulo, uma escada curva se some no sótão, onde estão os periódicos e os mapas. Aproveitei um descuido dos empregados para perder o Livro de Areia em uma das úmidas prateleiras. Tratei de não me fixar em que altura, nem a que distância da porta.

Sinto um pouco de alívio, mas não quero nem passar pela Rua México.

Jorge Luis Borges

03/09/2009

De como se perder num dicionário

No princípio, era mister buscar mais uma cerveja.

- O que é mister?
- As caixas de som, são mister.
- Não. Pergunto o que é mister?
- Mister é isso. A caixa de som e a cerveja.
- Ai!, meus deuses! Quero saber o que significa a palavra "mister"!

Foi nesse momento que adentram-se os labiríntos profundos dos dicionários, pois era mister saber o que era "mister".

Mister:
Substantivo masculino

1. atividade profissional; ofício, profissão

Ex.: o alfaiate era o melhor no seu mister

2. estado ou condição do que necessita de (algo); necessidade, precisão, exigência.
- Mas como se pronuncia "mister"?
- Tu queres saber qual a ortoépia da palavra.
- E o que é ortoépia?
- ...
Ortoépia:
Substantivo feminino / Rubrica: gramática.
1. estudo tradicional e normativo que determina os caracteres fônicos, considerados cultos e relevantes, ou seja, e a boa pronúncia.
- Então... a ortoépia de mister, qual que é?
- É "é".
- É?
- É.
- Ah. Tá certo.

Entre olhos, surgiu a pergunta:
- Tu sabes o que significa a palavra infâmia?
- Vejamos...

Infâmia:
Substantivo feminino
1. perda da fama, do crédito, da honra; descrédito, desonra, ignomínia
2. o que fere a honra, o nome de alguém, de uma instituição, etecetera.
3. atitude infame, vergonhosa, vil
Ex.: Quantas infâmias são cometidas em nome da falsa moral?
4. dito contra a reputação ou a honra de (pessoa, instituição); calúnia
Ex.: Blasfemava, falava infâmias contra seus familiares.
5. estado, condição, caráter de (pessoa ou ação infame)
Ex.:
- Que palavra imensa José!
- Num é?
- É.
- Tem maiores. Tem maiores.
- Jura?
- Juro pelos deuses!
- Eu só não entendi o que sigfnifica "ignomínia"...
- Vejamos...
Ignomínia:
Substantivo feminino
1. grande desonra infligida por um julgamento público; degradação social; opróbrio
Ex.: O pobre homem se viu exposto à ignomínia.
2. caráter daquilo que degrada, humilha; ação, palavra que desonra, que envergonha
Ex.:
<é uma ignomínia como são tratadas as pessoas idosas neste país!>
- Humm. Mas, o que danado é "opróbrio"?
- Vamos ver...

Opróbrio:
Substantivo masculino

1. grande desonra pública; degradação social; ignomínia, vergonha, vexame

Ex.: Exposto ao opróbrio, o infeliz matou-se...

2. caráter daquilo que humilha, degrada; estado ou condição que revela alto grau de baixeza, torpeza; abjeção, degradação

Ex.: O opróbrio de uma condenação.
3. ação ou dito que desonra, avilta, revela falta de apreço ou consideração; afronta, desprezo
- É. Por onde foi que a gente começou mesmo?
- Na cerveja e no som.
- Não. Não. Começamos no mister.
- Dá no mesmo.
- É.
- Isso só depende do tempo a gente perdure nesse dicionário fantástico...
- Fantástico? Como assim?
- Fantástico assim, olha:
Fantástico:
Adjetivo e substantivo masculino

1. que ou aquilo que só existe na imaginação, na fantasia.

2. que tem caráter caprichoso, extravagante

Ex.: O espetáculo lançava na parede grandes sombras fantásticos

3. que é fora do comum; extraordinário, prodigioso

Ex.: Possuía um talento fantásticos.

4. que não tem nenhuma veracidade; falso, inventado

Ex.: Como suas alegações de defesa eram fantásticos, foi condenado

5. Rubrica: literatura. Diz-se de obras do gênero fantástico

Ex.: Só escrevia contos fantásticos.

Um pouco de Hermeto Pascoal


No vídeo acima, Hermeto Pascoal toca Música da Lagoa. No de baixo, Viagem.

31/08/2009

Apresento-vos aqui no Desterritório: "A poção de Panoramix"

31/08 é o dia do Blog. Como rezava uma antiga lenda céltica, perpetradas por nobres druídas e sinistros feiticeiros, cada um dos blogueiros do mundo deverão indicar, neste dia, um blog desconhecido aos seus navengantes.

Aqueles que não seguirem o mandamento da lenda poderão ser acometidos por um terrível mal: o Nada. Poderá acontecer nada a quem não fizer o agenciamento blogosferiano. O que é bastante temeroso...

Aos que passarem por este Desterritório, que se vão para A Poção de Panoramix, adentrando sem receios pela doravante porta http://www.apocaodepanoramix.com/

26/08/2009

Cortázar - Progresso e retrocesso

"Inventaram um vidro que deixava passar as moscas. A mosca chegava, empurrava um pouco com a cabeça e pop, já estava do outro lado.

Enorme, a alegria da mosca.


Tudo foi estragado por um sábio húngaro, quando descobriu que a mosca podia entrar mas não podia sair, ou vice-versa, por causa de quem sabe lá que besteira na flexibilidade das fibras daquele vidro que era muito fibroso.

Em seguida inventaram o caça-moscas com um torrão de açúcar dentro, e muitas moscas morriam desesperadas. Assim acabou toda confraternização possível com estes animais dignos de melhor sorte."


_____________________________

* No dia 26 de agosto de 1914,
vinha à face da vida Julio Cortázar.

25/08/2009

Zaratustra no Outro Canto do Baile

"O Outro canto do Baile"

I

"Acabo de te olhar nos olhos, vida; vi
reluzir outro nos teus olhos noturnos, e
essa voluptuosidade paralisou−me o
coração: vi brilhar uma barca dourada
que se submergia em águas noturnas,
uma barca dourada que se submergia e
reaparecia fazendo sinais!

Tu dirigias um olhar aos meus pés,
doidos por dançar, um olhar acariciador,
terno, risonho e interrogador.

Duas vezes apenas agitaste com as
mãos as tuas castanholas, e já os pés
me pulavam, ébrios.

Os calcanhares erguiam−se; os dedos
escutavam para te compreender; não
tem o dançarino os ouvidos nos dedos
dos pés?

Saltei ao teu encontro; tu retrocedeste
ao meu impulso, e até a mim serpeava a
tua voadora e fugidia cabeleira.

Num pulo me afastei de ti e das tuas
serpentes: já tu te erguias com os olhos
cheios de desejos.

Com lânguidos olhares me mostras
sendas tortuosas; por tortuosas sendas
aprende astúcias o meu pé.

Receio−te quando te aproximas, amo−te
quando estás longe; a tua fuga

atrai−me; as tuas diligências detêm−me.
Sofro; mas, por ti, que não sofreria eu?
Ó, tu cuja frialdade incendeia, cujo ódio
seduz, cuja fuga prende, cujos enganos
comovem!

Quem te não odiará, grande carcereira,
sedutora, esquadrinhadora e
descobridora! Quem te não amará,
inocente, impaciente, arrebatadora
pecadora de olhos infantis!

Aonde me arrastas agora, indômito
prodígio? E já me tornas a fugir, doce
esquiva, doce ingrata!

Dançando sigo as tuas menores
pisadas. Onde estás? Dá−me a mão!
Ou um dedo sequer!

Há por aí cavernas e bosques;
extraviar−nos−emos. Pára! Detém−te!
Não vês revoarem corujas e morcegos?
Eh! lá, coruja! Morcego! Quereis brincar
comigo? Onde estamos? Com os cães
aprendestes a uivar e a rosnar.

Mostravas−me graciosamente os
brancos dentes, e os teus malvados
olhos asseteavam−me por entre as
frisadas madeixas.

Que correria por montes e vales! Eu sou
o caçador; queres tu ser o meu cão?
Agora, a meu lado! e depressa,
invejável solitária! Acima agora! Ó! Ao
voltar, cai. Olha como estou aqui
estendido! Olha, altaneira, como imploro
o teu socorro! Quereria continuar
contigo... por caminhos mais
agradáveis! pelos caminhos do amor,

através de esmaltados ou pelos que
marginam o lago, onde nadam e saltam
dourados peixes! Estás cansada,
agora? Ali em baixo há ovelhas e
vespertinos arrebóis. Não é tão bom
adormecer ao som da flauta dos
pastores?

Então, estás assim cansada? Vou−te
levar lá; ao menos deixa pender os
braços. E tens sede?... Poderia dar−te
qualquer coisa...Mas a tua boca não
quer beber.

Que maldita serpente esta, feiticeira
fugidia, veloz e ágil. Aonde te meteste?
Sinto na cara dois sinais da tua mão,
dois sinais vermelhos!

Estou deveras farto de te seguir sempre
como ingênuo cordeirinho! Feiticeira, até
agora cantei para ti: agora, para mim
deves tu... gritar! Deves dançar e gritar
ao compasso de meu látego!

Esquecê−lo−ia eu? Não!"

II

Eis o que então respondeu a vida,
tapando os delicados ouvidos:
"Ó! Zaratustra! Não vibres tão
espantosamente o látego? Bem sabes
que o ruído assassina os
pensamentos... e assaltam−me agora
pensamentos tão ternos!

Nós não somos bons nem maus para
nada! Além do bem e do mal
encontramos a nossa ilha e o nosso
verde prado: só nos dois o
encontramos! Por isso nos devemos
amar um ao outro!

E conquanto nos não amemos de todo o
coração, será caso para nos
enfadarmos? Enfadam−se as pessoas
por não se amarem de todo o coração?
É que eu te amo, te amo muitas vezes
com excesso, sabei−o demais, a razão
é que estou ciosa da tua sabedoria. Ah,
que velha louca é a sabedoria!

Se alguma vez a tua sabedoria te
deixasse, também logo o meu amor te
deixaria".

Então a vida olhou pensativa para trás e
em torno de si, e disse em voz baixa:
"Ó, Zaratustra não me és bastante fiel!
Ainda falta muito para me teres o amor
que dizes; sei que pensas deixar−me
breve.

Há um velho bordão pesado
pesadíssimo, que ressoa de noite até lá
acima, à tua caverna; quando ouves
esse sino dar a meia−noite, pensas −
bem o sei, Zaratustra − pensas
deixar−me breve!".

"Assim é,,, respondi titubeando, "mas tu
também sabes..." E disse−lhe uma coisa
ao ouvido colado à sua emaranhada
cabeleira, às suas douradas e
revoltadas madeixas.

"Tu sabes isso, Zaratustra? Ninguém
sabe isso..." Olhamo−nos, e dirigimos o
nosso olhar para o verde prado por
onde corria a frescura da tarde, e
choramos juntos. Mas então a vida era
para mim mais cara do que jamais o foi
toda minha sabedoria".

Assim falou Zaratustra
_________________________

* Há 109 anos, Nietzsche partia com a indesejada das gentes.

19/08/2009

Interlúdio do Papangústia

É.
Não, não é.
Será que quando vir a se ser, será?
Vai-te, que me fico no vão!
No delírio oco do meu não
É que teu sim entra assim:
Por um ouvido e sai pelo outro,
Olvido.

17/08/2009

Escrever e ler: uma reflexão

"A imprensa, agora abolida,
foi um dos piores males do homem,
já que tendeu a multiplicar até a vertigem
textos desnecessários."

Jorge Luis Borges

Há algumas semanas, a sociedade brasileira presenciou uma verdadeira vertigem de publicações e leituras sobre a extinção da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Não quero, neste breve ensaio, falar do assunto em específico, nem tampouco lançar mais uma opinião nesse vasto e vertiginoso mercado de opiniões.

A mim, particularmente, pouco importa se o diploma será ou não obrigatório. A decisão do STF, a meu ver, lança um outro debate, que está plenamente ausente de todos os textos publicados no seio do burburinho da recente decisão jurídica.

Duas questões se colocam em evidência, e se fazem necessárias de reflexão:

1 – Qual a necessidade de se publicar/ler tanto?

2 – Não estaria a imprensa, com suas repetições seriadas de notícias, publicando para o esquecimento?

Não pretendo responder as questões acima de forma cabal. Apenas lançar direções de reflexão. A primeira questão traz à tona não apenas as publicações de textos jornalísticos. Mas também de artigos e periódicos acadêmicos. Aqui, a questão é: o que de fato é fundamental e o que é trivial no mundo das publicações?

A sociedade contemporânea fundou uma entidade etérea chamada Lattes. Nesta plataforma, pode-se dizer que quem publica mais está na frente. Existem também os sistemas fantasmagóricos das qualificações (Qualis). Tudo isto contribui, ao que me parece, para a publicação de trivialidades dispensáveis.

Questiono se, com a formatação dessas entidades ‘platônicas’, a obrigatoriedade de publicações periódicas dos pesquisadores estariam correspondendo às demandas da sociedade, ou apenas às demandas acadêmicas dos doutores?

Dessa forma, pergunto: não estariam nossos eméritos acadêmicos publicando apenas para satisfazer suas necessidades de créditos e pontuações nas plataformas platônicas?

Pode-se dizer mesmo que a finalidade dessas publicações não é o leitor – no sentido estrito da palavra. Criou-se um leitor-outro, leitor prévio, cuja função é apenas determinar a qualificação daquela publicação. Pouco importa se a “obra” será lida no seio da sociedade. O que importa é estar publicada. Constar como. Assim, a publicação se torna trivial. Desnecessária. Já que tais textos não são escritos para serem lidos.

Evidentemente, essa “regra” também é passível de suas exceções. Então, o que proponho como alvo de reflexão é a necessidade de saber distinguir o que é fundamental e o que é trivial – levando em conta suas nuances.

É preciso estar atento quando uma publicação tem apenas um mero valor de troca curricular do acadêmico, de quando a publicação se torna uma leitura imprescindível à sociedade. A publicação cuja única virtude é o valor curricular, não passa de uma mercadoria com valor estritamente virtual.

Cito trecho do conto Utopia de um homem que está cansado, de Jorge Luis Borges, na tentativa de rechear minhas ensaísticas reflexões para esta questão, que poderia ir muito além, e mais ainda:

“Em meu curioso ontem – respondi – prevalecia a superstição de que cada tarde e cada manhã ocorrem fatos que é uma vergonha ignorar. O planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá, o Brasil, o Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém sabia a história anterior desses entes platônicos, ma sim os mais ínfimos pormenores do último congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações mensagens que os presidentes mandavam, elaboradas pelo secretário do secretário com a prudente imprecisão que era própria do gênero.”

Há que se distinguir entre o que é trivial e o que é fundamental. Entre o que tem valor meramente de mercadoria, e o que tem valor humanístico e social.

Concluo, provisoriamente, que é preciso não deixar cair nos calabouços da inteligência as perspectivas históricas, os tempos de reflexão e o entendimento profundo daquilo que se lê, das fundamentações dos problemas, sua importância para o desenvolvimento da sociedade humana, e não para o mero preenchimento do Lattes.

A segunda questão está vinculada com as atividades jornalísticas. Também para ela, Borges nos servirá de guia. Mais que responder, gostaria de perguntar.

Observa-se facilmente que os jornais repetem interminavelmente as mesmas notícias. Aliás, essa é a finalidade das “agências de notícias”: distribuir ao mundo seus pequenos textos para que sejam reproduzidos vasta e vertiginosamente.

Logo que são publicadas, essas informações são surrupiadas por outras, dia a dia, minuto a minuto, num movimento estanque realmente vertiginoso de apagamento e escrituração, onde uma tem como função apagar a outra.

Tal movimento é comparável ao paradoxo de Zenão de Eléia.

Neste, segundo palavras do próprio Borges, “uma flecha não pode chegar a sua meta porque antes tem que passar por um ponto intermediário, antes por outro ponto intermediário, e assim sucessivamente temos um número infinito de pontos onde a flecha em cada momento está imóvel no ar, e somando imobilidades não se chega nunca ao movimento.”

Assim, é como se os jornais (e também textos acadêmicos) escrevessem para o esquecimento.

Walter Benjamin escreveu que a utilidade da “literatura jornalística” é precária, já que em um dia se lê, e no outro dia, aquele suporte de papel serve apenas para embrulhar peixe. Nos dias de hoje, poder-se-ia dizer que servem para outras coisas, como para animais domésticos fazerem suas necessidades fisiológicas.

As matizes do pensamento educacional costumam dizer: “leiam, leiam tudo e de tudo”. Parece que esqueceram (se é que souberam um dia!) dos benefícios da releitura, da leitura cuidadosa, analítica, crítica, aprofundada.

Mas, quem há de reler notícias? Sua finalidade é ser lida uma vez, e só. Sua meta, como no paradoxo, é a ausência de metas – muito embora a meta mercadológica seja latente; mas não é sobre ela que escrevo.

Não há pra quê ficar lendo e relendo uma nota, um notícia-pílula. É pura perda de tempo, num mundo onde o tempo é raro.

“Leia. Quanto mais você ler, melhor.”

Pergunto: será mesmo? Aplicando essa prática, será que estamos lendo de verdade? Quantos desses textos que lemos diáriamente são de fato necessários, fundamentais? E são necessários pra quem/pra quê? Quantos desses nos dá desejo de reler?

É necessário pra você, ou apenas para que os jornais vendam, e acadêmicos preencham suas plataformas virtuais curriculares?

Em outro trecho do mesmo conto, Borges escreve o seguinte, narrando um diálogo entre um homem do século XX e outro de quatro séculos depois. Neste diálogo pode-se confrontar duas distintas épocas, pelo princípio do estranhamento – tão caro à literatura fantástica de Borges.

Leiam – e releiam, se possível.

“Este me disse:

- Agora verás algo que nunca viste.

Estendeu-me um exemplar da Utopia de More, impresso em Basiléia no ano de 1518 e no qual faltavam algumas folhas e lâminas.

Não sem fatuidade, repliquei:

- É um livro impresso. Em minha casa haverá mais de dois mil, embora não tão antigos nem tão preciosos.

Li em voz alta o título.

O outro riu.

- Ninguém pode ler dois mil livros. Nos quatro séculos que vivo não terei passado de uma meia dúzia. Além disso, não importa ler, senão reler. A imprensa, agora abolida foi um dos piores males do homem, já que tendeu a multiplicar até a vertigem textos desnecessários.”

O estranhamento acima choca frontalmente com nossas práticas de leitura e escrita, em demasia e com pouco cuidado, quando não totalmente inúteis.

Faz-se necessário refletir não apenas sobre a obrigatoriedade ou não diploma para jornalistas, mas também sobre sua própria necessidade enquanto agente das humanidades, levando em consideração os limites entre o fútil e o relevante em suas produções.

Não se trata, aqui, de repetir outro enunciado vertiginoso e cansado, aquele de que os jornalões estão com seus dias contados. Acho que isso é outra bobagem. Trata-se de refletir sobre a própria natureza dessas leituras e publicações.

Também a academia deve se propor a fugir da mera prática de saciar a sede insaciável do Lattes. Não foi o sentido mercadólógico que fundou a Universidade em séculos passados. Direcioná-la ao mercado não é o problema da questão. O problema é que outra coisa está tomando o lugar da Universidade, usando perniciosamente de seu título, de sua “marca”, o mesmo nome, e isto é um engano, um grave problema, que devemos estar atentos.

A tendência mercadológica cria outra coisa, e mereceria ganhar outro nome, para salvaguardar a excelência da palavra Universidade. Como disse, o problema não é direcionar a produção acadêmica para o mercado, mas apropriar-se da grandeza de suas produções de outrora, sem que se distingua que a universidade de hoje está há milhas e milhas do que se entendia como tal em tempos idos.

Conviria criar um novo nome para esta nova coisa.

“Tudo isto de lia para o esquecimento, porque em poucas horas o apagariam outras trivialidades. De todas as funções, a do político era, sem dúvida, a mais pública. Um embaixador ou um ministro era uma espécie de aleijado que era preciso transportar em grandes e ruidosos veículos, cercado de ciclistas e granadeiros e aguardado por ansiosos fotógrafos. Parece que lhes cortaram os pés, costumava dizer minha mãe. As imagens e a letra impressa eram mais reais do que as coisas. Só o publicado era verdadeiro. Esse est percipi (ser é ser retratado) era o princípio, o meio e o fim de nosso singular conceito do mundo. No ontem que me tocou, as pessoas eram ingênuas; acreditavam que uma mercadoria era boa porque assim o afirmavam e repetia seu próprio fabricante. Também eram freqüentes os roubos, embora ninguém ignorasse que a posse do dinheiro não dá maior felicidade nem maior tranqüilidade.”

Jorge Luis Borges
Utopia de um homem que está cansado,
in: O Livro de Areia.

Pergunte a si mesmo, no mais denso silêncio de sua madrugada: "quantos textos realmente significativos li em minha vida?"

11/08/2009

Lampião à luz de Pierre Bordieu

A questão que me norteou para escrever o presente ensaio (originalmente intitulado Pierre Bourdieu e Lampião: o poder simbólico do cangaço) foi a seguinte: será que poderíamos olhar o cangaceiro Lampião à luz do pensamento do sociólogo Pierre Bourdieu?

Neste post pretendo aproximar os dois. Não será um ensaio interligando a biografia deles, claro. Mas, tentando analisar como poderíamos direcionar o olhar para a figura de Lampião sob uma perspectiva desenvolvida por Bourdieu no esteio de alguns conceitos seus.

(Caso queiram, leiam mais sobre Bourdieu clicando aqui e aqui).

Em primeiro lugar, é preciso dizer que para Bourdieu o poder simbólico é um elemento fundamental dentro da nossa sociedade contemporânea, no que tange aos elementos de dominação e conservação do status quo vigente. Esse poder simbólico aparece como um mecanismo de imposição de significações aos símbolos, bem como um elemento de legitimação da ordem estabelecida. Em segundo lugar, precisamos reconhecer que nossos hábitos e ferramentas de atuação dentro da sociedade estão embebidos de elementos simbólicos.

O habitus, conceito fundamental para compreensão da obra de Bourdieu, seria uma força ‘congelante’ que nos mantém habituados com nossos estilos de vida, nossas verdades, contribuindo fortemente como elemento conservador da ordem social. Em terceiro lugar, é necessário entender de que forma os grandes veículos de comunicação contribuem para a manutenção e difusão do poder simbólico.

Esses conceitos muito bem definidos ao longo das obras de Bourdieu são extremamente importantes para pensarmos a sociedade em que vivemos: tanto para refletir sobre os mecanismos de dominação política ao qual estamos sujeitos, quanto para raciocinar de que maneiras estamos habituados com a proliferação de verdades no campo sócio-cultural da sociedades que vivemos. Por fim, de que forma esses elementos conceituais poderíam nos ajudar a revirar do avesso o status quo que legitimamos muitas vezes sem perceber – por estarmos crentes de que nossos símbolos possuem estatuto de verdades incontestáveis.

Lampião: Rei do Cangaço e herói marketeiro?

O caso de Lampião é particularmente interessante para nós pensarmos de que forma atuam em nossa sociedade as forças que legitimam as significações de nossos símbolos. O fato de ter completado 70 anos de sua morte é significativo, pois nossos veículos de comunicação estão transbordando de matérias sobre o cangaceiro durante esta semana.

Pensemos os grandes veículos de comunicação como verdadeiras fábricas de rostos e significados. Não foram poucas as transformações produzidas nas feições do rosto de Lampião (ou seria, dos Lampiões?) e dos cangaceiros, nas décadas subseqüentes à sua morte.

Basta fecharmos os olhos para saltar à nossa mente algumas imagens bem ou mal definidas de um Lampião que é Rei do Cangaço, de um Lampião Justiceiro, de um Lampião ‘Caba da Peste’ que usa chapéu de couro, porta espingarda em uma das mãos, peixeira na outra e é valente. De um Lampião revolucionário, engajado em causas sociais, um Lampião quase-comunista que usurpava os ricos para abonar os pobres, ou, por último, de um lampião que não passa de um objeto para iluminar ambientes.

As re-presentações desses símbolos são de tantas formas que não sabemos em qual delas acreditar! Essa cadeia produtiva forma uma espécie de camada sedimentar subterrânea que abriga os conteúdos imagéticos de várias épocas. “Peguemos, para estarmos com o bom senso, um pouco de cada?…” Dessa forma ainda buscamos estabelecer arquétipos entre os sedimentos de informação simbólica.

Muitas mídias juntas compuseram em harmonia ou desarranjo (ainda que não soubessem disso) as imagens de Lampião e do Cangaço. As pinturas de Portinari, os cordéis, o cinema de Glauber Rocha, a fotografia, a televisão, os jornais, enfim, toda uma rede de produção começa a operar como uma engrenagem subterrânea, uma máquina invisível de fabricação e difusão desses símbolos. Aqueles que têm a posse dos meios de produção e re-produção de informações simbólicas (ou seja, os que mantêm condições capitais mínimas para produção de arte e de informação) são os operários dessa fábrica de imagens do Cangaço.

Vejamos dois exemplos bastante conhecidos dos rostos de Lampião e, por extensão, dos cangaceiros:

Tenho a impressão que paira no ar certa idéia dessa produção como uma conseqüência da realidade – em uma palavra, um reflexo da própria verdade. Talvez estejamos enganados. Perpassa, nas estruturas do saber (jornais, revistas e mesmo artigos acadêmicos), certo conceito de que Lampião teria sido uma espécie de astuto marketeiro, por supostamente saber se utilizar dos veículos de comunicação (jornais e fotografias) para propalar suas idéias, suas intenções e sua imagem.

No entanto, se revirarmos o subsolo das coisas, veremos que há outras coisas lá em baixo…, ainda mais significantes que as coisas de cima. Esses significantes são o que dão significados às coisas – às imagens. Sem uma história, uma coisa não significa nada. Isso que se costuma chamar “conseqüência”, eu chamarei de “causa”, operando uma inversão da ordem das coisas. Penso que fazendo isso, poderemos compreender melhor como se processou a fabricação das imagens de Lampião e do Cangaço ao longo do século XX.

Vejamos: costuma-se difundir essa idéia de quê Lampião sabia (à sua maneira), manipular com habilidade os veículos de comunicação em pró de seus interesses. Há quem costume acreditar nesse mito como uma verdade inconteste. Mas, será que é tão incontestável assim? Ou será que são os veículos de comunicação que o utilizam para seus interesses particulares?

Precisamos compreender também que a exibição das cabeças dos cangaceiros mortos em Angicos (foto abaixo), da forma “espetacular” como aconteceu, foi mais uma forma de maquiar a realidade. A idéia de quê o cangaço acabou ali é uma inverdade. O cangaceiro Corisco, por exemplo, continuou na ativa por certo tempo. Além disso, é como se difundisse uma imagem de que o sertão estava redimido pelas forças do governo getulista do Estado Novo.

Não apenas acho contestável como também um pensamento equivocado, acreditar nessa idéia de um Nordeste redimido e livre da figura assombrava que foi Lampião, um cangaceiro que supostamente manobrava a Imprensa de acordo com seus interesses. O único objetivo dessa idéia é manter a ordem estabelecida no campo simbólico do nosso pensamento. É preciso revirar a ordem das coisas. Revolver a terra. Subeverter as imagens que temos dentro de nós. Mantê-las é um gesto passivo e conservador que, acredito, devemos evitar.

As mutações do rosto de Lampião

Desde a década de 1930 que a imagem de Lampião é estampada em jornais e revistas. Suas aparições, certamente se deram de muitas formas diferentes, desde o Rei do Cangaço, o homem que atemoriza as regiões nordestinas, cruel e sem alma, aliado das forças atrasadas dos grandes coronéis, logo, repulsivo, símbolo do subdesenvolvimento do país. Em outras significações, vemos uma espécie de pastiche de Robin Hood, quase comunista, justo e honrado, defensor dos pobres e oprimidos.

Ultimamente, parece que alguma coisa está acontecendo com Lampião, aliás, com Lampião não, mas com o que se inventa de sua imagem. É como se o cangaceiro viesse aos poucos ganhando certo charme, certo refinamento e glamour, bebendo whisky e, dessa maneira, abandonando seu estado de barbárie e ganhando status de civilidade…

Estamos assistindo durante todo este mês “comemorativo” (o ensaio foi escrito originalmente quando dos 70 anos da morte de Lampião, em 2008) a re-produção da mais nova idéia de Lampião: um sujeito “antenado” com a moda, criativo e, até mesmo, ditador de tendências. Isso tudo chega a ser tão assombroso que forma uma espécie de sedimentação no rosto e nos significados de Lampião e do cangaço.

É como se ao longo do tempo fossem sendo sobrepostos tantos estereótipos, tantas máscaras, que sua rostidade se desfigura, tornando-se uma espécie de Michael Jackson do banditismo social e do mundo pop, ou seja, uma aberração simbólica que adquiri significações tão díspares entre si, que ele (Lampião) já nem existe mais, a não ser como força simbólica, estética, ressignificável a cada instante, em uma palavra, um subjeto de apropriação aleatória pelos grandes veículos de comunicação.

Conclusão inconclusa

Os implicativos desse gesto de artificialização de sua imagem é algo que devemos nos ater. É preciso compreender que todas essas superposições imagéticas criam um estado de coisas tão repulsivo, que essa aparente “transformação” de sua imagem não passa de um ledo engano. Uma mentira desvalada que tem por objetivo mascarar a realidade dos distúrbios sociais dos Brasil de outros tempos. Por outro lado, é como se matasse dois coelhos com uma cajadada só: elimina-se de uma vez nossa compreensão histórica do Brasil das décadas de 1920-30, jogando poeira em nossos olhos, além de folclorificar sua imagem, conservando assim o estado pseudonatural das coisas.

É contra essa naturalização das coisas que deve se dirigir nosso olhar. Temos de ter muito cuidado com a propagação e conservação dos nossos símbolos. Revira-los do avesso é um exercício bastante saudável, embora doloroso. Antes de crivar a culpa em nossos grandes veículos de comunicação, precisamos também olhar para nós mesmos, nossas crenças, desejos e demandas. Precisamos reconhecer que o combustível dessa fábrica de imagens também é o nosso desejo, inconsciente ou não, de imprimir rostos e paisagens.

É também a partir dessa motivação que nossos artífices-criadores de imagens trabalham, sabendo ou não desse processo. E, nós, muitas vezes figuramos como meros consumidores de informações e imagens, sem nos darmos conta que também somos responsáveis por sua produção e re-produção.

10/08/2009

Operação Pandemia: a 'Griphe' Suína


O vídeo acima é um documentário sobre a gripe suína, que aponta para uma visão alternativa da tradicional paranóia coletiva difundida pelos grandes veículos de comunicação.

O documentário, de pouco menos de 10 minutos, foi produzido pelo argentino Julián Alterini.

Se você é mais um paranóico com a tal griphe suína, e não sabe que a gripe tradicional mata muito mais, você precisa assistir esse vídeo com urgência.

31/07/2009

Um canto de Ossanha



Passeando pela internet, vi que dizem por aí que hoje é o "dia do orgasmo". Seja como for (data dessas capitalistas criadas por sex shops inglesas, ou captando o lado menos endinheirado da coisa) tá aí um canto de Ossanha (de Vinícius) no vídeo acima, com o violão mágico de Baden Powell.

15/07/2009

Walter Benjamin e o Angelus Novus

"Minhas asas estão prontas para o vôo,
Se pudesse, eu retrocederia
Pois eu seria menos feliz
Se permanecesse imerso no tempo vivo."
Gerhard Scholem, Saudação do anjo

9º Tese Sobre o Conceito da História
por Walter Benjamin

Há um quadro de Paul Klee que se chama
Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.
O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.
Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.
_____________________________

O texto acima é uma das Teses Sobre o Conceito da História, escritas pelo alemão Walter Benjamin.
Quem cursou (como eu) as disciplinas de Teoria da História com o prof. Michel Zaidan, no curso de história da UFPE, sabe do que se trata...
Hoje seria aniversário de Benjamin. E o post é em homenagem a essa fantástica figura do pensamento no século XX.
Aqueles que tiverem interesse em conhecer um pouco mais sobre W. Benjamin e as teses do conceito de história, pode ler as considerações escritas pelo prof. da Unicamp, Pedro Paulo Funari. Basta clicar aqui.

06/07/2009

Pedaço de "O Mito de Sísifo" - Camus


"Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos.


No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória.


Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível.


No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte.


Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar."

_______________________________


* Pedaço de O Mito de Sísifo - de Albert Camus

02/07/2009

A Hora dos Palhaços

Tudo corria bem na pelada daquele domingão, e o time de vermelho ganhava do time de preto. O juiz, de branco, acabara de validar um gol duvidoso do time de vermelho. Mas ninguém discutia mais. O gol valeu e fim de conversa, dissera o juiz, imponente, de branco.

Quando o time de preto se preparava pra bater o meio de campo, uma multidão de palhaços começara a invadir o lugar do jogo. Misturaram-se aos jogadores, e o campo transformou-se numa turva multidão colorida.

Logo após a invasão de palhaços, viu-se chegar outra multidão de palhaços, mais coloridos ainda, trazendo consigo pedaços de engrenagens e estruturas desmontáveis, retiradas de grandes caminhões estacionados nos arrabaldes dali.

Os jogadores do time preto e do time vermelho já não se distinguiam do juiz de branco. Mesclaram-se de tal forma entre os palhaços que pouco se poderia diferenciar.

As engrenagens e estruturas foram rapidamente montadas. Enquanto isso, os jogadores do time vermelho e do time preto ficaram imóveis, assim como o juiz de branco, no meio daquela multidão de palhaços - apenas conseguiam mover um dos braços para coçar o nariz de quando em vez.

Apesar de olharem para o espetáculo, jogadores e juiz nada viam por baixo da grande lona azul que se estendia altiva aos soalhos de seus olhos.

Passados alguns dias, as estruturas foram desmontadas e os palhaços que entupiam o campo foram ordenadamente se retirando. Um a um, formaram uma disciplinada e grande fila indiana.

A forma de retirada causou forte impressão nos jogadores do time vermelho e do time preto, assim como no juiz de branco. Que se entreolharam - não sem certo assombro.

Melancólicos por alguns instantes, os dois times e o juiz pararam de especular sobre os motivos de o circo ter partido assim, tão de repente. O juiz deu por encerrado o jogo, pois não lembrava se o gol que havia validado era do time preto ou do time vermelho. Àquela altura do campeonato, isso pouco importava.

A bola - a mais resignada das esferas - já não tinha dono e foi largada no campo, onde repousou tranquilamente por longos dias, à revelia das voltas da esfera terrestre.

________________________

* Telas da pintora paquistanesa Asma Ahmed Shikoh.