28/08/2008

Guarda esse sorriso, Amélia!

Tem uma lojinha perto do shopping que vende inspiração. O nome dela é Amélia. Loira, cabelos curtos, olhos grandes e seios fartos. Dá um caldo... Um não, dois - sejamos justos com a Amélia. Em verdade, não vende inspiração na lojinha. Pois Amélia não está à venda - embora se venda em mais valia. A inspiração é que vende coisas... Não sei o que ela vende. Também, pouco me importa - diante daquelas, daqueles, daquela... enfim, lojinha.

Porém, a lojinha, digo, a inspiração, aliás, a Amélia ainda não descobriu que inspiração não se vende... Inspiração é um furto. Inspiração te rouba involuntariamente, como quem te rouba, na rapina, seus momentos de tédio!

Preciso correr e dizer pra Amélia que ela não precisa mais me vender aquele sorriso forçado e sem graça dela, que pesaroso paira desairoso entre seus belos dentes de louça, sorriso de moça e seios de... porque é melhor dar dedo com verdade ou fazer cara feia honestamente que um sorriso azedo com seios de plástico...

25/08/2008

Lei contra o cristianismo


Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário).

Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo

Artigo Primeiro – Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia.

Artigo Segundo – Qualquer tipo de colaboração a um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais ríspidos com protestantes que com católicos, e mais ríspidos com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão. Conseqüentemente, o maior dos criminosos é filósofo.

Artigo Terceiro –
O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas.

Artigo Quarto – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá−la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida.

Artigo Quinto – Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala – ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá−lo−emos em qualquer espécie de deserto.

Artigo Sexto –
A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita; as palavras "Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.

Artigo Sétimo –
O resto nasce a partir daqui.

Nietzsche – O Anticristo

PS: hoje completam 108 anos do falecimento desse cara aí...

Elegia do anti-se

Sê para si, só; sê
Para si só ser
Se só si for
Ser o que é; será?

Pois, sê de todo si em si
Para apenas si - em si.
Na sine qua non falta de si
Ser não é de todo se...

Se ser é, sê si não.
Senão, ser em si
Imaginação perde-se
A mera imagem fictícia de si.

Falsetar-se de si
(Que já, per si, falso é em si)
É um engano Sim.

Sim. Sim. Sim.
Ausência de si:
É si em si.

18/08/2008

Poemas antigos...

são sempre novos para quem ainda não os...

10/08/2008

Nas entranhas da Estupidez

Do alto das montanhas assisto paraperplexamente
A um jogo de vai-não-vem estupidamente
mesquinho.

É mergulhando em minha taça de vinho
Que busco discernimento: sozinho.
Sem pretender entendimento
Observo olhos dissociados de bocas:
Um chora enquanto o outro sorri
- Forçado.

Como quebrar esse doloroso cadeado?
Como martelar tal rancoroso orgulho?
Como destruir esse Ídolo-nojo que nos destrói?

Vês passar a passos lentos e ardilosos
A caminhar silentes e impiedosos
Os dejetos repugnosos desses seres
Asquerosos e putrefactos,
Com seus dentesafiados e podres,
Escorrendo seus ranhos por sob
Seus negros e milhares
De olhos de cancros e enxofres? ...

Sentado na arquibancada eu assisto impaciente
A Ventura da Estupidez, que vence
Com máscaras discretamente luminosas,
A prova dos fatos: mas..., que fatos?
Não há fatos. Há idéia de fatos.

Absorto observo a autodestruição carcomendo
Sonhos.
Dos mais belos aos mais torpes:
Como um cão devorando restos de um coração
Encolhido de frio na relva de uma praça
Desértica e escura.

As mentes se digladiam na Arena do Imaginário:
Apegam-se às pueris verdades;
Convertem mentiras em fatos;
Ressoam trombetas como se fossem harpas;
Ardilosamente se fazem tímpanos
Quando não passam de flautas...
É assim que age a Estupidez:
Como um maestro que rege A última música.

A Idiotia, prima-irmã da Estupidez,
Paira sublime nesta desarmonia.
Intervém com seus lampejos nos desejos,
Nos quereres mais impetuosos,
E silencia qualquer grandeza.

- E a estupidez, peçonha da alma, sorri!
“Vamos, meus amigos! Destruam-se enquanto mastigo pipocas!”

Assim se concretiza um fim etéreo:
Um fim sem fatos, que de fato finda.

- E a estupidez, peçonha da alma, sorri!
“Sorria: você está sendo enganado!”

Com ardil, o imaginário age:
Elucubrando a mais vil imagem.

E machuca, e dói, e corrói pelas entranhas
As estranhas Mentiras que cremos Verdade.

09/08/2008

Aos solitários desertos

Estar em casa numa noite tão agradável como a de hoje pode parecer um absurdo. É possível que seja. E, se for, de fato, que tal Absurdo seja absurdamente mais agradável que a própria noite!

SIM. SÓ.


Só assim se abraça com ímpeto a Solidão. Os Desertos são plenos, quando a Solidão assola. Parece tão difícil amar a solidão. Pois amo a minha como amam os crentes a sua crença.

Acredito na beleza desértica das solidões de espíritos solitários. Gostaria de poder cantar como Björk: " Eu me sinto em casa sempre que o desconhecido me cerca", mas é apenas nas sendas da minha solidão que me sinto em casa - e, mais ainda quando é em casa que estou só.

O resto... é deleite de estranhamento.

Estranho deleite esse de solidificar a solidão e os próprios desertos. Pois é aí que se revelam as maiores auto-paixões. Sim, adoro-me como adoro minha solidão, e detesto-me como detesto a frieza dos desertos, pois que o meu corpo fora habituado ao calor desta cidade que acolho como uma extensão de meu próprio deserto, de minha própria solidão.

Sim, sou amigo de minha solidão. As linhas nietzscheanas certamente fizeram-me ver com mais clareza a escuridão de meus desertos.

"O deserto cresce. Ai! daquele que oculta desertos."

As leituras que tenho feito de Rilke também estão me fazendo bem: ajudam-me a suportar, e até mesmo gostar, da minha solidão, que pesa.

"... se perceber então que a solidão é grande, alegre-se com isso; pois o que (pergunte a si mesmo) seria uma solidão sem grandeza? Existe apenas uma solidão, e ela é grande, nada fácil de suportar. Acabam chegando as horas em que quase todos gostariam de trocá-la por uma união qualquer, por mais banal e sem valor que seja, trocá-la pela aparência de uma mínima concordância com o próximo, mesmo que com a pessoa mais indigna... No entanto, talvez sejam justamente essas as horas em que a solidão cresce, pois o seu crescimento é doloroso como o crescimento de um menino e triste como o início da primavera. Mas, isso não deve confundi-lo. O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso."