04/07/2010

Emulação do Elixir


É bela a chuva que cai, agora, por sobre a natureza morta.

A rua o barro é o mais vivo no calcanhar que paira à porta.
Mas cadê as flores que não brotam nas rochas da estima?!
E o olhar olha a vida... às visões de mundo... Que lástima!
Qualquer merda de sonho, se não é matéria, é devaneio!

- Bate à porta, monte de estrume! Faz da alma, do peito, frito cortume! O teu lume inteiro te carregará lá pro meio da bosta em que há de atolar toda esperança que se a ter tu te acostumes!


- Vem jantar... Como queiras, à mesa ou ao chão.
- Dispenso todas as falas, e elas me dispensam igualmente.

Ah!, perda de tempo, que tua glória torne a tudo pó a emular o elixir da vida!

A Roberto Piva, um Elegíaco na forma

"Fernando, vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã, enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado."

O verso acima, do poema Ode a Fernando Pessoa, de Roberto Piva - tenho essa impressão -, deve ser um dos únicos (senão o único) que trago gravado na cabeça - decorado, como se diz. É belo por muitas paralaxes, prismas, mas é belo principalmente pela simplicidade da imagem. Pela beleza da evocação.

Há um certo tempo, e por uma certa duração que já não dura mais, também memorizara os versos inteiros de Momento num Café, de Bandeira.

Li no site do Estadão (mas quem primeiro noticiou foi a Folha) que falecera, ontem, aos 72 anos, o poeta Roberto Piva. Nada de dolorificar-me, ausente de falseadas "dores" estou, e seria pantomima dizer coisas deste gênero das dolorências. A notícia não me causou choque. Piva já vinha adoentado há algum tempo, e estava internado no Incor desde maio.

Conheci alguns de seus versos depois de trocar ideias com Renata D'Elia, há uns anos. D'Elia escreveu sobre Piva no seu blog, Magic on Sundays, depois de trabalhar o tema da poesia marginal na São Paulo da década de 1960. Recomendo a leitura do post da D'Elia (aqui), para quem desejar ir a mais nas coisas do Piva.

Falei com a ela agora há pouco, pela internet (que pessoalmente não a conheço - ela, que deve a si mesma uma visita ao Recife...) e ela me disse que acabara de chegar do velório, onde fora cremado o poeta, seu amigo - e, em suas palavras, "seu último herói magnético".

Contrariando o habitual, ela pareceu-me lacônica. Imagino-a ocupada para falar mais, porém talvez esteja um tanto abatida. Não sei. Não dei o trabalho a mim e a canseira à ela, de pergungar sobre isso, que é desimportante. D'Elia, que é jornalista e escritora, também deu uma entrevista à Folha de S.Paulo - a matéria está neste
link.

***

Debochado. Pervertido. Erudito. Eu diria apenas (não sei se existia essa palavra antes de eu grafá-la, depois do parênteses à frente) um Elegíaco.

É. Um "Elegíaco", soa-me bem, isso. Mas sem o peso das dolorências. Elegíaco nas formas.

"Fernando, vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã, enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado."

Bela!, Piva, tua Ode.

E não só.

"A Piedade"



"Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam cu-de-ferro e me fariam perguntas por que navio bóia? Por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos pavimentos
Os adolescentes nas escolas bufam como cadelas asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos"

******

"Ode a Fernando Pessoa"

Roberto Piva (1962)


O rádio toca Stravinsky para homens surdos e eu recomponho na minha imaginação
a tua vida triste passada em Lisboa.
Ó Mestre da plenitude da Vida cavalgada em Emoções,
Eu e meus amigos te saudamos!
Onde estarás sentindo agora?
Eu te chamo do meio da multidão com minha voz arrebatada,
A ti, que és também Caeiro, Reis, Tu-mesmo, mas é como Campos que vou
saudar-te, e sei que não ficarás sentido por isso.
Quero oferecer-te o palpitar dos meus dias e noites,
A ti, que escutaste tudo quanto se passou no universo,
Grande Aventureiro do Desconhecido, o canto que me ensinaste foi de libertação.
Quando leio teus poemas, alastra-se pela minh'alma dentro um comichão de
saudade da Grande Vida,
Da Grande Vida batida de sol dos trópicos,
Da Grande Vida de aventuras marítimas salpicada de crimes,
Da grande vida dos piratas, Césares do Mar Antigo.
Teus poemas são gritos alegras de Posse,
Vibração nascida com o Mundo, diálogos contínuos com a Morte,
Amor feito a força com toda Terra.

Sempre levo teus poemas na alma e todos os meus amigos fazem o mesmo.
Sei que não sofres fisicamente pelos que estão doentes de Saudade, mas de
Madrugada; quando exaustos nos sentamos nas praças, Tu estás conosco, eu
sei disso, e te respiramos na brisa.
Quero que venhas compartilhar conosco as orgias da meia-noite, queremos ser
para ti mais do que para o resto do mundo.
Fernando Pessoa, Grande Mestre, em que direção aponta tua loucura esta noite?
Que paisagens são estas?
Quem são estes descabelados com gestos de bailarinos?

Vamos, o subúrbio da cidade espera nossa aventura,
As meninas já abandonaram o sono das famílias,
Adolescentes iletrados nos esperam nos parques.
Vamos com o vento nas folhagens, pelos planetas, cavalgando vaga-lumes cegos até o Infinito.
Nós, tenebrosos vagabundos de São Paulo, te ofertamos em turíbulo para uma
bacanal em espuma e fúria.
Quero violar todas as superfícies e todos os homens da superfície, Vamos viver para além da burguesia triste que domina meu país alegremente
Antropófago.
Todos os desconhecidos se aproximam de nós.
Ah, vamos girar juntos pela cidade, não importa o que faças ou quem sejas, eu te
abraço, vamos!
Alimentar o resto da vida com uma hora de loucura, mandar à merda todos os deveres, chutar os padres quando passarmos por eles nas ruas, amar os
pederastas pelo simples prazer de traí-los depois,
Amar livremente mulheres, adolescentes, desobedecer integralmente uma ordem
por cumprir, numa orgia insaciável e insaciada de todos os propósitos-
Sombra.
Em mim e em Ti todos os ritmos da alma humana, todos os risos, todos os olhares,
todos os passos, os crimes, as fugas, Todos os êxtases sentidos de uma vez,
Todas as vidas vividas num minuto Completo e Eterno,
Eu e Tu, Toda a Vida!
Fernando, vamos ler Kierkegaard e Nietzsche no Jardim Trianon pela manhã,
enquanto as crianças brincam na gangorra ao lado.
Vamos percorrer as vielas do centro aos domingos quando toda a gente decente
dorme, e só adolescentes bêbados e putas encontram-se na noite.
Tu, todas as crianças vivazes e sonolentas,
Carícia obscena que o rapazito de olheiras fez ao companheiro de classe e o
professor não vê;
Tu, o Ampliado, latitude-longitude, Portugal África Brasil Angola Lisboa São
Paulo e o resto do mundo,
Abraçado com Sá-Carneiro pela Rua do Ouro acima, de mãos dadas com Mário de Andrade no Largo do Arouche.
Tu, o rumor dos planaltos, tumulto do tráfego na hora do ¿rush¿, repique dos
sinos de São Bento, hora tristonha do entardecer visto do Viaduto do Chá,
Digo em sussurro teus poemas ao ouvido do Brasil, adolescente moreno empinando papagaios na América.
Vamos ver a luz da Aurora chispando nas janelas dos edifícios, escorrendo pelas
águas do Amazonas, batendo em chapa na caatinga nordestina, debruçando
no Corcovado,
Ouçamos a bossa-nova deitados na palma da mão do Cristo e a batucada vinda
diretamente do coração do morro.
Tu, a selvagem inocência nos beijos dos que se amam,
Tu o desengajado, o repentino, o livre.
Agora, vem comigo ao Bar, e beberemos de tudo nunca passando pela caixa,
Vamos ao Brás beber vinho e comer pizza no Lucas, para depois vomitarmos
tudo de cima da ponte,
Vem comigo, eu te mostrarei tudo: o Largo do Arouche à tarde, o Jardim da Luz
pela manhã, veremos os bondes gingando nos trilhos da Avenida, assaltaremos o Fasano, iremos ver ¿as luzes do Cambuci pelas noites de crime¿,
onde está a menina-moça violada por nós num dia de Chuva e Tédio,
Não te levarei ao Paissandu para não acordarmos o sexo do Mário de Andrade
(ai de nós se ele desperta!),
Mas vamos respirar a Noite do alto da Serra do Mar: quero ver as estrelas refletidas
em teus olhos.
Sobre as crianças que dormem, tuas palavras dormem; eu deles me aproximo e
dou-lhes um beijo familiar na face direita.
Teu canto para mim foi música de redenção,
Para tudo e todos a recíproca atração de Alma e Corpo.
Doce intermediário entre nós e a minha maneira predileta de pecar.
Descartes tomando banho-maria, penso, logo minto, na cidade futura, industrial
e inútil.
Mundo, fruto amadurecido em meus braços arqueados de te embalar,
Resumirei para Ti a minha história:
Venho aos trambolhões pelos séculos,
Encarno todos os fora da lei e todos os desajustados,
Não existe um gangster juvenil preso por roubo e nenhum louco sexual que eu
não acompanhe para ser julgado e condenado;
Desconheço exame de consciência, nunca tive remorsos, sou como um lobo
dissonante nas lonjuras de Deus.
Os que me amam dançam nas sepulturas.
Da vidraça aberta olho as estrelas disseminadas no céu; onde estás, Mestre Fernando?
Foste levar a desobediência aos aplicados meninos do Jardim América?
Dás um lírio para quem fugir de casa?
Grande indisciplinador, é verdade?

Vamos ao norte amar as coisas divinamente rudes.
Vamos lá, Fernando, dançar maxixe na Bahia e beber cerveja até cair com um
baque surdo no centro da Cidade Baixa.
Sabes que há mais vida num beco da Bahia ou num morro carioca do que em
toda São Paulo?
São Paulo, cidade minha, até quando serás o convento do Brasil?
Até teus comunistas são mais puritanos do que padres.
Pardos burocratas de São Paulo, vamos fugir para as praias?
Ó cidade das sempiternas mesmices, quando te racharás ao meio?
Quero cuspir no olho do teu Governador e queimar os troncos medrosos da floresta
humana.
Ó Faculdade de Direito, antro de cavalgaduras eloqüentes da masturbação transferida!
Ó mocidade sufocada nas Igrejas, vamos ao ar puro das manhãs de setembro!
Ó maior parque industrial do Brasil, quando limparei minha bunda em ti?
Fornalha do meu Tédio transbordando até o Espasmo.
Horda de bugres galopando a minha raiva!
Sei que não há horizontes para a minha inquietação sem nexo,
Não me limitem, mercadores!
Quero estar livre no meio do Dilúvio!
Quero beber todos os delírios e todas as loucuras, mais profundamente que
qualquer Deus!
Põe-te daqui para fora, policiamento familiar da alma dos fortes: eu quero ser
como um raio para vós!
Violência sincopada de todos os "boxeurs"!
Brasileira do Chiado em dias de porre de absinto.
Arcabouço de todas as náuseas da vida levada em carícias de Infinito.
Tudo dói na tua alma, Nando, tudo te penetra, e eu sinto contigo o íntimo tédio
de tudo.
Realizarei todos os teus poemas, imaginando como eu seria feliz se pudesse estar
contigo e ser tua Sombra.

30/06/2010

Erik Satie, música para lugares

Dia 1º de julho de 2010: 85 anos da morte do compositor e pianista francês Erik Satie. Expoente durante o período das vanguardas europeias, conviveu e influenciou figuras como Debussy e Ravel. Satie conceituou a composição de música para lugares, em vez do trivial "música para pessoas".

A primeira série de vídeos deste post compõe a
Gymnopedie, composição publicada em três partes, a partir de 1888. As melodias são belíssimas - bem ao estilo minimalista de Satie, de ritornelos infindos daquelas folhas de papel que parecem cair num precipício ainda mais sem-fim...







A série abaixo compõe as Gnossienne.













PS: Quer baixar algumas músicas de Satie?
Oráit,
here...

18/06/2010

Dedicatória a Saramago - ao trago d'aguardente



Hoje está sendo uma espécie de "Dia Internacional de Saramago". No Twitter, até o CALA A BOCA GALVAO foi superado pelo sábio... Sua partida é notícia em tudo quanto é lugar dessa birosca chamada internet.

O vídeo acima é uma pequena homenagem nonsense ao autor do Conto da Ilha Desconhecida e A Jangada de Pedra - que não era crioulo, e passou longe de ser doido!

Nonsense pelo fato de que não tem ligação linear com José, está apenas harmoniomelodizando as lapadinhas de cana que tomo e releituras que faço de passagens de seus escritos neste meu começo de noite. Por isso a sem-sentido dedicatória do sambinha ao trago d'aguardente.

Ao sábio, "...com a atenção devida, ..."

26/05/2010

Gentle Giant: rock progressivo dos bons

Não creio que Gentle Giant seja uma uma banda muito conhecida por aí.

Segundo o wikipédia:

Gentle Giant foi uma banda de rock progressivo britânico formada em 1970 pelos três irmãos Shulman, após o término da banda pop Simon Dupree and the Big Sound em 1969. Gravaram doze álbuns entre 1970 e 1980.

Inspirados por antigos filósofos, eventos pessoais e os trabalhos de François Rabelais, a proposta da banda era: "expandir as fronteiras da música popular contemporânea, com o risco de se tornar muito impopular."
Confiram o som da rapaziada. Progressivão da melhor qualidade.

"Proclamation"



You may not have all you want or you need
all that you have has been due to my hand,
it can change, it can stay the same,
who can say, who can make their claim.

The situation we are in at this time
neither a good one, nor is it so unblest
it can change, it can stay the same,
I can say, I can make my claim.
Hail ........ Hail ........ Hail.

Unity's strength and all must be as one,
confidence in you hope will reflect in me
I think everyone not as my nation for
you are my people and there must be no change.
It can change, it can stay the same
I will say, I will make my claim.
Hail ........ Hail ........ Hail.
Hail to Power and to Glory's way.
Hail to Power and to Glory's way.
Hail to Power and to Glory's way.
Hail to Power and to Glory's way.
Day by day.
"I lost my head"




05/05/2010

Fotografias de Saul Leiter,

um norte-americano que fez imagens (fotograffias e pinturas) memóraveis nas décadas de 1940 e 1950.












24/04/2010

"The ringing of the division bell had begun"


High Hopes

Beyond the horizon of the place we lived when we were young
In a world of magnets and miracles
Our thoughts strayed constantly and without boundary
The ringing of the division bell had begun

Along the Long Road and on down the Causeway
Do they still meet there by the Cut?

There was a ragged band that followed in our footsteps
Running before times took our dreams away
Leaving the myriad small creatures trying to tie us to the ground
To a life consumed by slow decay

The grass was greener
The light was brighter
When friends surrounded
The nights of wonder

Looking beyond the embers of bridges glowing behind us
To a glimpse of how green it was on the other side
Steps taken forwards but sleepwalking back again
Dragged by the force of some inner tide
At a higher altitude with flag unfurled
We reached the dizzy heights of that dreamed of world

Encumbered forever by desire and ambition
There's a hunger still unsatisfied
Our weary eyes still stray to the horizon
Though down this road we've been so many times

The grass was greener
The light was brighter
The taste was sweeter
The nights of wonder
With friends surrounded
The dawn mist glowing
The water flowing
The endless river

Forever and ever

20/03/2010

"E tome gravata!..."



"Você que só ganha pra juntar
O que é que há, diz pra mim, o que é que há?
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar

Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!

Pois é, amigo, como se dizia antigamente, o buraco é mais embaixo... E você com todo o seu baú, vai ficar por lá na mais total solidão, pensando à beça que não levou nada do que juntou: só seu terno de cerimônia. Que fossa, hein, meu chapa, que fossa...

Você que não pára pra pensar
Que o tempo é curto e não pára de passar
Você vai ver um dia, que remorso!
Como é bom parar
Ver um sol se pôr
Ou ver um sol raiar
E desligar, e desligar

Mas você, que esperança... Bolsa, títulos, capital de giro, public relations (e tome gravata!), protocolos, comendas, caviar, champanhe (e tome gravata!), o amor sem paixão, o corpo sem alma, o pensamento sem espírito (e tome gravata!) e lá um belo dia, o enfarte; ou, pior ainda, o psiquiatra...

Você que só faz usufruir
E tem mulher pra usar ou pra exibir
Você vai ver um dia
Em que toca você foi bulir!

A mulher foi feita
Pro amor e pro perdão
Cai nessa não, cai nessa não

Você, por exemplo, está aí com a boneca do seu lado, linda e chiquérrima, crente que é o amo e senhor do material. E é aí que o distinto está muitíssimo enganado. O mais das vezes, ela anda longe, perdida num mundo lírico e confuso, cheio de canções, aventura e magia. E você nem sequer toca a sua alma. É, as mulheres são muito estranhas, muito estranhas...

Você que não gosta de gostar
Pra não sofrer, não sorrir e não chorar
Você vai ver um dia
Em que fria você vai entrar!

Por cima uma laje
Embaixo a escuridão
É fogo, irmão! É fogo, irmão!"


Vinícius de Moraes
Testamento

13/03/2010

Bob Dylan e a música de conteúdo

Uma bela melodia e uma harmonia bem arranjada faz por si uma boa música. Com "The great Gig in the Sky", Pink Floyd crivou, como nenhuma outra banda, que uma bela música pode dispensar letras. Claro que não foi o Floyd quem inventou isso, mas a citação serve como exemplo - e a uso neste sentido.

Evidentemente que uma bela música também pode vir acompanhada de alguma letra, ou mesmo de um derramamento de versos poéticos pouco ou muito compreensíveis, desde que poéticos. Não estou falando de coesão, mas de beleza, e ninguém aqui é tolo o suficiente para acreditar que qualquer beleza precise, necessariamente, ser coesa.

Quando uma bela melodia e uma bem arranjada harmonia combinam-se com uma letra espetacular, o resultado certamente será bom. Como na música abaixo, de Bob Dylan, "Hurricane".



A canção acima combina tudo isso que falei, e saúda o ouvinte com uma grande história - o tal conteúdo do título deste post.

"Hurricane" (furação) era o codinome do boxeador norte-americano, Rubin Carter, nascido no dia 6 de maio de 1937, e preso em 1966, acusado de um triplo homicídio num bar. Ficou encarcerado durante longos 19 anos, e solto posteriormente, no ano de 1985, inocentado.

A prisão destruiu sua brilhante carreira do "Furacão", já que era favorito pra ganhar o cinturão da categoria Peso Médio em 1966, quando marcava seus 29 anos de idade. O contexto, todos sabem, aqueles anos de luta por direito civis, em que se destacaram figuras como Malcom X e Martin Luther King, mesclados às reminiscências podres de branquelos doentes da Ku Klux Klan e seus simpatizantes microfascistas. O "Furacão" viria a receber a congratulação no ano de 1993, quase 30 anos depois de brilhar nos ringues.

A história de "Hurricane" é uma daquelas sagas judiciais de negros norte-americanos, dignas de filme. E ganhou este filme, sendo representado por Denzel Washington no longa The Hurricane.

A música de Bob Dylan é belíssima. Transplanta ao ouvinte uma vibração muito intensa, com momentos que causam arrepios. Não sei se o brilho é da bela melodia, da harmonia bem colocada, ou do rico conteúdo cantado numa letra forte, que traduz a história aguerrida de Rubin "Hurricane" Carter.

Possivelmente o brilho se deve à mágica combinação de todos esses elementos.

Um brinde ao Furacão e a Bob Dylan!

Hurricane
Bob Dylan e Jacques Levy

Tiros de revólver ressoam na noite dentro do bar
entra Patty Valentine vinda do salão superior
ela vê o garçon numa poça de sangue
solta um grito “Meu Deus, mataram todos eles!”
aí vem a história do Furacão
o homem que as autoridades acabaram culpando
por algo que ele nunca fez
colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
em que podia ter sido o campeão mundial

Três corpos deitados ali é o que Patty vê
e outro homem chamado Bello rodeando misteriosamente
“Eu não fiz isso” ele diz e joga os braços pra cima
“Estava só roubando a registradora, espero que você entenda
eu os vi partindo” ele diz e pára
“É melhor um de nós ligar pros tiras”
e assim Patty chama os tiras
e eles chegam na cena com suas luzes vermelhas piscando
na noite quente de New Jersey

Enquanto isso, bem longe, em outra parte da cidade
Rubin Carter e uns dois amigos estão dando algumas voltas de carro
o pretendente número um à coroa dos pesos-médios
não tinha idéia do tipo de merda que estava para baixar
quando um tira o fez parar no acostamento
igualzinho à vez anterior e à outra vez antes dessa
em Paterson é assim mesmo que as coisas rolam
se você é negro, melhor nem aparecer na rua
a não ser que queira atrair uma batida policial

Alfred Bello tinha um parceiro e ele soltou um papo atrás dos tiras
ele e Arthur Dexter Bradley estavam só fazendo uma ronda
ele disse “Vi dois homens sairem correndo, pareciam pesos-médios
pularam dentro de um carro branco com a placa de outro estado”
e a senhorita Patty Valentine apenas assentiu com a cabeça
um tira disse “Esperem um minuto, rapazes, este aqui não está morto”
então o levaram à enfermaria
e embora esse homem mal pudesse enxergar
disseram a ele que podia identificar os culpados

Às 4 da manhã eles arrastam Ruby consigo
o levam para o hospital e o trazem escada cima
o homem ferido olha pra cima através de seu único olho moribundo
diz ” Por que vocês o trouxeram aqui dentro? Não é esse o cara!”
sim, eis aqui a história do Furacão
o homem que as autoridades acabaram culpando
por algo que ele nunca fez
colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
em que podia ter sido o campeão mundial

Quatro meses depois, os guetos estão em chamas
Rubin está na América do Sul, lutando por seu nome
enquanto Arthur Dexter Bradley continua no ramo do assalto
e os tiras estão apertando-o
procurando alguém pra culpar
“Lembra daquele assassinato que aconteceu num bar?”
“Lembra que você disse ter visto o carro fugitivo?”
“Você acha que está a fim de brincar com a lei?”
“Não acha que talvez tenha sido aquele lutador
que você viu correndo pela noite?”
“Não se esqueça de que você é branco”

Arthur Dexter Bradley disse “Não tenho muita certeza”
os tiras disseram “Um rapaz como você precisa de uma folga da polícia
te pegamos por aquele serviço no motel
e agora estamos conversando com seu amigo Bello
agora,você não querter de voltar pra cadeia
seja um sujeito legal
Você estará fazendo um favor a sociedade
aquele filho-da-puta é valente e está ficando cada vez mais
nós queremos botar o rabo dele pra fritar
queremos pregar esse triplo assassinato nele
o cara não é nenhum cavalheiro”

Rubin podia nocautear um cara com apenas um soco
mas nunca gostou muito de falar sobre isso
“É meu trabalho”, diria, “E eu o faço para ser pago
e quando isso termina, prefiro cair fora o mais rápido possível
na direção de algum paraíso
onde riachos de trutas correm e o ar é ótimo
e andar a cavalo ao longo de uma trilha”
Mas aí o levaram para a cadeia
onde tentaram transformar um homem num rato

Todas as cartas de Rubin já estavam marcadas
o julgamento foi um circo de porcos, ele não teve a menor chance
o juiz fez das testemunhas de Rubin bêbados das favelas
e para os brancos que assistiam, ele era um vagabundo revolucionário
e para os negros, apenas mais um crioulo maluco
ninguém duvidava que ele tinha apertado o gatilho
e embora não conseguissem produzir a arma
o promotor público disse que era ele o responsável
e o juri, todos de brancos, concordou

Rubin Carter foi falsamente julgado
o crime foi de assassinato “em primeiro grau”
adivinha quem testemunhou?
Bello e Bradley, e ambos mentiram descaradamente
e os jornais, todos pegaram uma carona nessa onda
como pode a vida de um homem desses
ficar na palma da mão de algum tolo?
Vê-lo obviamente condenado numa armação
não teve outro jeito a não ser me fazer sentir vergonha
de morar numa terra onde a justiça é um jogo

Agora todos os criminosos em seus paletós e gravatas
estão livres para beber martinis e assitir o sol nascer
enquanto Rubin fica sentado como Buda em uma cela de 3 metros
um inocente num inferno vivo
essa é a história do Furacão
mas não terá terminado enquanto não limparem seu nome
e devolverem a ele o tempo que serviu
colocado numa cela de prisão, mas houve um tempo
em que podia ter sido o campeão mundial