11/05/2008

Efeito de dias melancólicos

O que se faz com tanta falta?
Coisa insólita e abstrata
Que corrói e aniquila:
A tal da carência ingrata!

Falta tanto que já não falta
Há sobra de tanta falta.

Sobram notas em uma harmonia que falta.
Ah! Se pudera ainda possuir minha flauta!
Mágica flauta que me falta!

Mas, falta tudo:
Falta flauta, falta harmonia.
Sobram sombras
Na minha eterna falta de companhia!

Abandonar-me-ei, que não
Há correntes em meus pés
Mas não estou livre!

Meu coração é arrastado
Por um albatroz velhaco
Que, aos cacos corrói,
Corrompe e destrói.

Oh! Alma bela que se enfeia!
Quem se enleia em tua teia,
Tateia no escuro e vagueia
Procurando um beijo!

Assim segue a coisa que não anda:
Por caminhos tristes desanda.

Calma, que o silêncio assombra!
Diz-me eu que não me ouço,
Pois que poço de alvoroço
Me enlaço em teu silêncio.

É atroz teu silêncio
Como é assaz quebrada
A asa do albatroz
Feroz que dorme em nós.

Em nós desfaço-me
Em laços torpes.
Crua, a faca em cortes
Retalha-me enquanto asso-me
Para devorar-me
Em plena madrugada...

Plena de silêncio e
De falta de tudo que sobra
E volta, e volta, e volta...

2 comentários:

Luciana Cavalcanti disse...

Quando numa madrugada, o grande Mago Raboni anunciou pelo MSN: "Lú, estou escrevendo um poema!"... Aquietei-me... E ele passou a lançar os versos em nossa conversa... Vivi, portanto, o parto de um dos poemas mais visceralmente sensíveis de meu amigo André.
Um poema belo pra marcar os sentimentos belíssimos e profundos de dentro do coração deste cara...

Andróide disse...

ninguém pode parar o trem...
trem...
trem...
trem...