02/02/2009

Instalação infantil

Ontem fui questionado por um amigo sobre qual a obra de arte mais intrigante que eu já teria visto. Na hora, não soube responder direito. Citei um conto de Jorge Luís Borges, "Tlön, Uqbar, Orbius Tertius", do livro Ficções.

Pensando bem agora, reconciliado com minha memória, recordo-me de uma outra obra de arte ainda mais intrigante. Eu a vi há alguns anos atrás, quando estava visitando parentes na cidade de São Paulo. Não me lembro o nome do lugar, mas era uma pequena galeria de arte.

A obra era uma instalação. O título não me recordo também, mas era algo do tipo: "As crianças e o espaço." Fui ver a instalação à convite de uma amiga, artista plástica pouco famosa.

Não consigo descrever o assombro que tomou conta de mim quando me deparei com a instalação. Um misto de pavor, excitação e desinteresse. Curiosa sensação...

Mas, vamos à instalação.


A entrada da galeria era uma porta bastante discreta. Dentro, as luzes eram poucas, e vinham do chão. Passei por uma saleta de entrada, onde havia um livro de assinaturas. Exitei, depois assinei e entrei na sala principal.

A primeira imagem foi assustadora. Dezenas de crianças penduradas no teto e pregadas na parede. Umas choravam, gritando alto que queria ver suas mães; outras gostariam de ir ao banheiro.

O teto tinha um papel de parede que reproduzia as nuvens de algum céu qualquer.

Como estavam pregadas e penduradas, faziam suas necessidades ali mesmo. Todas estavam vestidas com roupas iguais, como fardas de uma escola.

Fui olhando o rosto daquelas crianças, umas rosadas, outras mais bronzeadas; algumas com um semblante de pavor, outras calmamente sorriam.

As da primeira fileira, estavam penduradas por um fino cabo de aço preso à cintura - como um lustre de lâmpadas - e pareciam se divertir com a aparente ausência de gravidade.

As da segunda fileira estavam amarradas pelos pés, e tinham um semblante mais apovorado que as da terceira fileira, que estavam penduradas pelos braços, e chacoalhavam as pernas, aparentemente irritadas com aquela situação.

As da quarta fileira, não me recordo bem, mas acho que estavam penduradas por um pé e uma mão - como se fizessem aquele passo de ginástica chamado "estrelinha". Suas faces eram de resignação, enfezadas como crianças abandonadas.

Elas todas estavam a cerca de 4 metros do chão.

Fui andando por baixo daquelas crianças até a última fileira, que deveria ser a décima segunda. Era, digamos, o "fundão" da sala. Essas do fundão não estavam penduradas, mas pregadas na parede do fundo. Umas de lado, outras de cabeça para baixo, outras de frente, braços e pernas abertas, como uma estrela.


Sorriam dos outros. Ou de si mesmas. Talvez sorrissem de mim - o certo é que sorriam, seja lá do que for, e olhavam para mim.

Bem, logo depois eu fui embora. Olhei meu nome assinado naquele livro. Sai pela mesma porta que entrei, acendi um cigarro e fui tentar ver um Van Gogh no Masp.

3 comentários:

Karol disse...

só pra ficar claro que eu sou uma boa leitora.
depois comento direito,minha mãe devoradora de almas,sabe...

:)

Tiago disse...

porra, assombroso...
fantasticamente exitante,apavorante e provável uma exposição desse "nipe".

Visualizador disse...

Eram crianças mesmo?


MOTHILIN
(outra palavra bonita, né!?)