27/06/2009

Curta o curta aí: O Palhaço Degolado


O Palhaço Degolado
é um filme de Jomard Muniz de Britto e Carlos Cordeiro, produzido em 1977. Quem me indicou o vídeo foi meu amigo historiador e poeta Dimas Veras.

Achei agora no blog Pernambuco em Curtas um texto sobre o filme. Foi escrito por Carolina Vasconcelos, e está logo abaixo.

O Palhaço Degolado: uma sátira a seu modo
Por Carolina Vasconcelos

O filme de Jomard Muniz de Britto e Carlos Cordeiro, produzido em 1977, está inserido no Ciclo do Super 8, que configurou uma nova fase da vida cultural de Pernambuco. Surgido nos anos 40, não foi considerado um movimento, pois não havia proposta ideológica e tampouco uma conformidade temática naquilo que era realizado. Adeptos da corrente experimentalista, a qual propôs uma antropofagia crítica, Jomard e Carlos Cordeiro utilizaram um poema de Wilson Araújo de Souza para homenagear, de forma satírica, o sociólogo Gilberto Freyre e o escritor Ariano Suassuna. Atacando as idéias conservadoras dessas personalidades, os cineastas realizaram um dos filmes mais ousados e críticos do Ciclo do Super 8.

Jomard Muniz de Britto mesmo afirma: “Todo meu esforço sempre foi e continua sendo o de estar sintonizado com as linguagens contemporâneas. Sempre em busca da mais crítica e poética modernidade. Com e sem vaidades. Com e sem apelo às modas. Astuciosamente”. E é dessa forma que o curta de 1977 se faz notável dentro do ciclo, continua despertando interesse e chamando a atenção trinta anos depois, apesar de tratar-se de uma produção simples, com o mínimo de recursos financeiros. Os diretores tinham em mãos apenas a modernidade que a câmera super 8 representava na época.

O Palhaço Degolado é encenado na antiga Casa de Detenção (que hoje é a Casa da Cultura). Nesta, o palhaço chama repetidas vezes pelo “Mestre Gilberto Freyre” e clama pela sua Casa Grande e pela Senzala. Estes elementos estão sugestivamente relacionados à Casa de Detenção, que é para ele a casa de detenção da cultura. As críticas ao autor de “Sobrados e Mucambos” supostamente se relacionam com as suas atitudes paradoxais: em “O Mundo que o Português Criou” e “Aventura e Rotina”, Gilberto Freyre demonstrou tendências colonialistas portuguesas na África, além de ter apoiado o regime militar instaurado em 1964. Em contrapartida, fez um excelente estudo da sociedade brasileira, denunciando seus vícios e costumes. Um mestre “muito bem situado nos trópicos: tristes trópicos”.

Jomard e Carlos Cordeiro ainda criticam o envolvimento entre política e tecnocracia, o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, o desenvolvimentismo e afirmam as raízes da cultura como sendo um complexo de intelectuais. O palhaço exige em alto e bom som: abaixo o imperialismo cultural, a cultura amordaçada! Os nordestinos são chamados de nordestinados: destinados às Vidas Secas de Graciliano Ramos. Até José Lins do Rego é ponto de partida para os questionamentos sobre os meninos de engenho e a bagaceira. É o sinal de que a crítica está fazendo cobranças.

O “Mestre Ariano Suassuna”, ou mestre armorial, também é alvo das ferrenhas críticas do palhaço. O movimento insistentemente citado nasceu nos anos 70, pelas mãos do próprio escritor, e foi denominado de Armorial. Seu principal objetivo foi criar uma arte erudita a partir dos elementos da cultura popular nordestina como literatura de cordel, música, dança e qualquer outra expressão artística. Segundo o palhaço, tudo pode se transformar em armorial: o céu, a dança, a astrologia, a estética, a sexologia e até mesmo (quem diria?) os sobrados e mucambos. O povo torna-se também armorial: o mesmo povo que morou na senzala e ainda lutava contra a ditadura via suas origens se transformando em qualquer coisa erudita para o deleite dos grandes intelectuais.

O palhaço está degolado: o golpe militar de 1964 (representando o exílio e a fome), os dias de repressão de 1968. O ano de 1978 é invocado, na esperança de que talvez traga consigo alguma expectativa e resposta para a pergunta que é esbravejada diversas vezes: “Até quando?”. O palhaço se pergunta o que restou depois disso e onde está o professor Paulo Freire. Mesmo com tantas críticas e ainda que não houvesse perspectivas de melhora tanto para a sociedade quanto para os produtores (que não conseguiam apoio e muito menos investimentos), a luta com o super 8 não foi a luta mais vã como afirma o palhaço ao final do curta. E esteve longe de ser uma luta vã, mas sim uma luta... a seu modo.

Um comentário:

carolina disse...

oi, André.
há tempos que eu não entrava no blog Pernambuco em Curtas e, para minha surpresa, vi que vc publicou um texto meu aqui (sobre o curta O Palhaço Degolado.
Foi um texto escrito logo no ínicio da faculdade.
Bom... passando só para agradecer mesmo :D
Valeu!