08/04/2008

O desdém de quem é desdenhado


Ao lado da parada de ônibus, uma família (1 mulher e 4 crianças, sendo 1 menino e 3 meninas) descansava de seu almoço, cujos restos repousavam espalhados no chão, rejeitados pelo cão que dormia.

Eu olhava para as pessoas que não olhavam para aquela cena deprimente, ou olhavam com olhares oblíquos de desprezo.

Chegara meu ônibus, que esperei por cerca de 25 minutos. Pedi parada e lancei o último olhar para a mulher adulta, espalhada na calçada, em meio aos restos de comida e aos seus filhos (suponho que sejam seus filhos).

Paguei a passagem e sentei-me na primeira poltrona após a catraca, do lado oposto ao cobrador. Como não havia nada para fazer durante minha viagem, que demoraria cerca de 45 minutos, caso o trânsito ajudasse, puxei o livro “A Gaia Ciência”, de Nietzsche, que estou relendo no momento. Abri na página 126, aforismo 100...

Aprendendo a homenagear” é o título do aforismo. Corri os olhos pela primeira frase. Neste instante uma criança de seus 8 anos, com aparência de 13, passou entregando papeizinhos para os passageiros do ônibus.

O papelzinho dizia: “"tenho 6 irmão, minha mãe está doente, meu pai dezempregado. Pesso ajuda para comer. Obrigadu."”

Li o papelzinho e pensei: “"Não vou dar esmola para essa criança.”" Lembrei que tinha guardado um pacote de biscoito na mochila, tirei e lhe dei. Ele olhou com certo desdém, e me disse: “Valeu!”

O menino saiu coletando as indulgências de outros passageiros e eu retornei para o aforismo 100, pág. 126, que dizia na primeira frase: “É preciso aprender a homenagear, tanto quanto desprezar. Todo aquele que segue novos caminhos, e que conduziu muitos por novos caminhos, descobre assombrado como esses muitos são pobres e canhestros ao exprimir sua gratidão, e mesmo como é raro a gratidão poder se expressar.”

Refleti: “Caramba, isso tem a ver com tudo isso.” Continuei lendo: “É como se, querendo falar, algo sempre lhe incomodasse a garganta…” O motorista então deu uma freiada brusca, que quase chega a lançar uma mulher no chão. Olhei de lado para a situação incômoda, e retornei às pressas para minha leitura: “… a garganta, de forma que ela apenas pigarreia e silencia com o pigarro.”

Logo em seguida, outro pedinte entrou no ônibus. Desta vez, um homem, de cerca de 55 anos. Parou ao meu lado e entoou em voz alta: “Pessoal, estou aqui me humilhando para vocês. Nunca pensei que fosse ter de fazer isso. Mas, aqui estou. Peço que, quem puder me ajudar, me dê qualquer trocado, que Deus lhe dará em dobro.”

Eu, que não costumo dar esmolas, e já não tinha biscoito, resignei-me e voltei-me para a minha leitura, enquanto o homem recolhia algumas indulgências. Passei as páginas com a vista distraída, mais que com a mente atenta; folheei o livro, cansei de ler e o guardei novamente na bolsa. Já se haviam passado os 45 minutos da viagem, e eu já estava perto de meu destino.

Olhei para trás, e o ônibus ainda estava cheio. De repente, um garoto subiu ao ônibus tocando um triângulo barulhento e infernal, com sua voz estridente, e começou a cantar um forró, desses que tocam nas rádios comerciais.

Depois de alguns poucos minutos, o garoto disse em voz ainda mais estridente e ritmo encadeado: “Eu poderia estar roubando, poderia estar matando, poderia estar cheirando cola; mas estou aqui, tocando música, e peço a vocês uma ajudinha para eu comer. Agradeço desde já. Quem não puder me dar nada, que não dê! Eu agradeço. Uma boa viagem para todos!”

Novamente, não paguei o ilustre músico por sua atuação magistral. Mas, muitos deram a ele a pedida ajuda. Levantei para descer do ônibus, puxei a cordinha e fiquei lembrando as palavras sábias do garoto, que pareceu já haver lido Nietzsche bem mais que eu: “Quem não puder me dar nada, que não dê!”

Essa frase me soou como uma grande homenagem do garoto-artista ao filósofo alemão, que fala da beleza rara que mora em cada desdém. Uma homenagem sem flores, sem formalidades; uma homenagem do corpo que vive a sua própria obra.

2 comentários:

susana disse...

Mago legal...
vou ficar lendo essas cronicas do onibus.mas, um detalhe a viagem sem transito de 45 minutos, ficou em 25 quando tu largou o livro e tava proximo do destino.
abraço
S.

André Raboni disse...

na verdade eram para ser 45 minutos mesmo... foi um erro meu...hehehe Ajeitei agora... Valeu!